Precisamos de muita e muita Coragem
Perguntei à anciã da tribo Maori qual era para ela a virtude mais importante. Para minha surpresa ela disse:”é a coragem”
21/09/2011
Leonardo Boff
Em 14 de setembro último, celebrou 90 anos de idade uma das figuras religiosas brasileiras mais importantes do século XX: o Cardeal Paulo Evaristo Arns. Voltando da Sorbonne, foi meu professor quando ainda andava de calça curta em Agudos-SP e depois, em Petrópolis-RJ, já frade, como professor de Liturgia e da teologia dos Padres da Igreja antiga. Obrigava-nos a lê-los nas linguas originais em grego e latim, o que me infundiu um amor entranhado pelos clássicos do pensamento cristão. Depois foi eleito bispo auxiliar de São Paulo. Para protegê-lo porque defendia os direitos humanos e denunciava, sob risco de vida, as torturas a prisioneiros políticos nas masmorras dos órgãos de repressão, o Papa Paulo VI o fez Cardeal.
Embora profético mas manso como um São Francisco, sempre manteve a dimensão de esperança mesmo no meio da noite de chumbo da ditadura militar. Todos os que o encontravam podiam, infalivelmente, ouvir como eu ouvi, esta palavra forte e firme: “coragem, em frente, de esperança em esperança”.
Coragem, eis uma virtude urgente para os dias de hoje. Gosto de buscar na sabedoria dos povos originários o sentido mais profundo dos valores humanos. Assim que na reunião da Carta da Terra em Haia em 29 de junho de 2010, onde atuava ativamente sempre junto com Mercedes Sosa enquanto esta ainda vivia, perguntei à Pauline Tangiora, anciã da tribo Maori da Nova Zelândia qual era para ela a virtude mais importante. Para minha surpresa ela disse:”é a coragem”. Eu lhe perguntei: “por que, exatamente, a coragem?” Respondeu:
”Nós precisamos de coragem para nos levantar em favor do direito, onde reina a injustiça. Sem a coragem você não pode galgar nenhuma montanha; sem coragem nunca poderá chegar ao fundo de sua alma. Para enfrentar o sofrimento você precisa de coragem; só com coragem você pode estender a mão ao caído e levantá-lo. Precisamos de coragem para gerar filhos e filhas para este mundo. Para encontrar a coragem necessária precisamos nos ligar ao Criador. É Ele que suscita em nós coragem em favor da justiça”.
Pois é essa coragem que o Cardeal Arns sempre infundiu em todos os que, bravamente, se opunham aos que nos seqüestraram a democracia, prendiam, torturavam e assassinavam em nome do Estado de Segurança Nacional (na verdade, da segurança do Capital).
Eu acrescentaria: hoje precisamos de coragem para denunciar as ilusões do sistema neoliberal, cujas teses foram rigorosamente refutadas pelos fatos; coragem para reconhecer que não vamos ao encontro do aquecimento global mas que já estamos dentro dele; coragem para mostrar os nexos causais entre os inegáveis eventos extremos, conseqüências deste aquecimento; coragem para revelar que Gaia está buscando o equilíbrio perdido que pode implicar a eliminação de milhares de espécies e, se não cuidarmos, de nossa própria; coragem para acusar a irresponsabilidade dos tomadores de decisões que continuam ainda com o sonho vão e perigoso de continuar a crescer e a crescer, extraindo da Terra, bens e serviços que ela já não pode mais repor e por isso se debilita dia a dia; coragem para reconhecer que a recusa de mudar de paradigma de relação para com a Terra e de modo de produção pode nos levar, irrefreavelmente, a um caminho sem retorno e destarte comprometer perigosamente nossa civilização; coragem para fazer a opção pelos pobres contra sua pobreza e em favor da vida e da justiça, como o fazem a Igreja da libertação e Dom Paulo Evaristo Arns.
Precisamos de coragem para sustentar que a civilização ocidental está em declínio fatal, sem capacidade de oferecer uma alternativa para o processo de mundialização; coragem para reconhecer a ilusão das estratégias do Vaticano para resgatar a visibilidade perdida da Igreja e as falácias das igrejas mediáticas que rebaixam a mensagem de Jesus a um sedativo barato para alienar as consciências da realidade dos pobres, num processo vergonhoso de infantilização dos fiéis; coragem para sentar na cadeira de Galeleo Galilei para defender a libertação e a dignidade dos pobres; coragem para anunciar que uma humanidade que chegou a perceber Deus no universo, portadora de consciência e de responsabilidade, pode ainda resgatar a vitalidade da Mãe Terra e salvar o nosso ensaio civilizatório; coragem para afirmar que, tirando e somando tudo, a vida tem mais futuro que a morte e que um pequeno raio de luz é mais potente que todos as trevas de uma noite escura.
Para anunciar e denunciar tudo isso, como fazia o Cardeal Arns e a indígena maori Pauline Tangiori, precisamos de coragem e de muita coragem.







Comentários
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CORAGEM é sim o que precisamos para agirmos em tudo em nossas vidas. É preciso coragem para visitar um doente desconhecido no hospital, plantar uma arvore, levar uma palavra de resignação a um preso na penitenciária, ou simplesmente apoiar o ingresso pleno da Palestina na ONU, reconhecendo-a livre e soberana.
Precisamod e muita e muita coragem
Como sempre a lucidez de um raciocínio escorreito - permeado de sensibilidade poética- nos conduz a uma reflexão profunda sobre a conjuntura econômica e social. Nos situa em nossa Casa e nos impele a refletir sobre o modo como a "desarrumamos" - os "melhores cômodos" ficam com os mais fortes. Os mais fracos são praticamente dela expulsos sem alternativas para sobreviver porque os que se julgam com mais direitos apoderam-se de todos os bens. Na verdade, enquanto se engana o cidadão com o discurso hipócrita da "corrupção" e da "faxina", deixa-se de lado a questã do crescimento sustentável com inclusão social. O neoliberalismo predatório está enfrentando a dura verdade de que já não há mais como consumir o excesso de bens socialmente produzidos. A fome e o desemprego matam não apenas pessoas, mas o sonho e a esperança. Passou da hora pensar sobre o equilíbrio e a harmonia no planeta, estados rompidos pela ganância e pelo processo neoliberal.
Reequilíbrio
Quando se fala em equilibrio da terra, descartemos a teoria geológica, pois a terra, como foi dito no texto, e afirmado pela ciência, não se abalará com a degradação antrópica. Ela manterá seu ciclo, renovando-se e adaptando-se. O seu desfalecimento ocorreria, talves, por uma inversão gravitacional, ou outro mudança drástica nas forças de equilibrio da galáxia. A não ser pela sua desintregrãção, a terra continuará viva e eterna, renovando a vida constantemente.
Consideraremos esse equilibrio com sendo a relação homem x natureza. Que nos estamos na contra mão do verdadeira evolução. Indo em desencontro com a nossa verdadeira natureza. Essa reamornização pode ser reestabelecida, quando se deixar de lado a ideologia do pesamento único, implantada em nome do capital desalmado, e velarmos pelo discurso livre, a justiça, a igualdade e a pluralidade. Restabelecendo assim a harmonia com as forças naturais.
Estamos passando por um períoddo de confusão dos espirítos, como disse Milton Santos. Vivemos em um mundo de fábulas, de desigualdade e indução. Pregam a escassez, para justificar as atrocidades e para manter a atual exploração econômica. Escassez que só existe na teoria, pois, se pararmos para analisar e estudar as linhas do pensamento livre, veremos que a realidade é outra. Com a informação confusa não enchergamos a verdade. Mas é através das informações fantasiosas e confusas, ditaticamente ensinada pelas grandes mídias, que se torna possível a hegemonia do capital.
Coragem
Para a pergunta qual equilibrio é esse? É o equilibrio que permita a existência do ser humano na terra. P/Vc estar vivo hoje, apesar de todas as transformações q/são de fato constantes no planeta,existe um equilibrio do qual o homem com seu modo de produção está impulsionando p/ um desequilibrio irreversivel.
coragem
esta história do planeta Terra buscar seu equilibrio perdido é uma falácia, pois desde que surgiu, nunca ouve este tal equilibrio, a história da Terra é uma história permanente de épocas de grande aquecimento em certos períodos, e em outros de grandes eras glaciais, sem falar de terremotos, união e separação de continentes inteiros e um vaivem constante no nível dos oceanos, que história é essa de equilíbrio?
falácia?
O equilíbrio que permitiu a vida, e o desenvolvimento dessa em formas mais complexas, meu caro.
É um equilíbrio fino e dinâmico, que comporta aquecimentos e resfriamentos, erupções, maremotos, terremotos, calmaria e irritação.
Ainda assim é um equilíbrio, um equilíbrio em movimento.
Gênio!
Este corajoso 'eu mesmo' do comentário anterior é um gênio. Primeiramente porque escreve 'houve' sem 'h', e depois por não entender que não se trata de equilíbrio como de um jardim inofensivo de bonecas. E as altas temperaturas forjadas nesses diversos períodos, meu caro, não foram precisamente o que equilibrava a terra? O que o Boff enfatiza é que a influência humana altera negativamente este processo de equilíbrio. E depois, você deve ser um grande estudioso do assunto, não é mesmo? Não se trata de buscar um equilíbrio perdido, mas de não permitir que a terra perca a capacidade de equilibrar-se (ainda que alguns ingenuamente considerem que essas oscilações não são, JUSTAMENTE, o maior equilíbrio da terra.
Essas mudanças foram naturais
Essas mudanças foram naturais e ocorreram no decorrer de bilhões de anos. Buracos na camada de ozônio não são naturais. Estamos falando aqui da ação artificial e devastadora cometida pelo homem neste último século, que tende somente a aumentar se não forem tomadas medidas que protejam o planeta desta ação predatória.
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