Seres humanos de condomínio

São pessoas que só conhecem pessoas do povo a partir da relação “você me serve, eu te pago”

02/12/2011

 

Fábio Carvalho

 

Todos ali sabiam que a maioria das revistas e dos jornais mais vendidos do país tem como primeiro objetivo vender, como segundo objetivo vender e como terceiro objetivo manter a condição de bons vendedores.

Todos ali também sabiam que o direito de fazer o som e a imagem chegar a qualquer aparelho de rádio ou televisão é um direito de todos. Porém, é um direito que foi roubado e restrito a poucas emissoras. Chamavam de latifúndio no céu...

Todos ali sabiam também que a experiência de vida da maioria dos jornalistas que trabalham para a mídia-porta-voz-do-poder-de-voz limita-se ao que vivenciam em ambientes como clubes, academias, hotéis, boates, shoppings e restaurantes. Basicamente isso. Da infância à aposentadoria. Típicos seres humanos de condomínio. São pessoas que talvez até possam saber o que é trabalhar muito. Mas, antes e depois de trabalhar, dormem numa casa confortável, tomam um café da manhã confortável, entram num carro confortável, trabalham num escritório confortável e se divertem em lugares confortáveis.

São pessoas que só conhecem pessoas do povo a partir da relação “você me serve, eu te pago”. Conhecem empregadas domésticas, faxineiras, jardineiros, porteiros de prédio, vigias de carro, garçons, balconistas etc. São pessoas que, também por isso, não sonham com um mundo igualitário. Igualitário no que diz respeito às relações de poder, no que diz respeito às possibilidades iguais de poder ser feliz.

Todos ali sabiam (e se não sabiam imaginavam) que, em sua maioria, os jornalistas que se propõem a trabalhar para a mídia-alto-falante-do-que-fala-a-classe-alta foram estudantes universitários com pouca ou nenhuma formação política. Foram estudantes do tipo que não se interessam pelos problemas da humanidade, nem se indignam o suficiente com as injustiças sociais de cada país. Não entendem e não procuram entender como as sociedades estão organizadas, como poderiam se organizar.

Todos ali também sabiam que as pessoas mais sensatas (aquelas que, no caso, têm o mínimo de formação política) não teriam tempo de fazer mais nada na vida se resolvessem retrucar diariamente a ignorância política ou o oportunismo tendencioso dessa mídia que publica o ódio ao socialismo e a ode ao capitalismo.

Todos ali sabiam disso tudo e de outras coisas mais. Entretanto, ainda havia muito o que aprender sobre o tema. E era por isso que estavam ali, sentados em círculo, debatendo esse assunto. O debate estava sendo organizado por jovens que faziam parte da Brigada de Agitação e Propaganda “Semeadores”, um grupo criado pelo Coletivo de Cultura do Movimento Sem Terra (DF e entorno). Ali, tinham trinta e poucos jovens, a maioria, assentados. A outra parte era formada por estudantes universitários do curso de comunicação social.

E o debate seguia produtivo. A cada avanço nas discussões, duas sensações prevaleciam. Primeiro, a satisfação em avançar por adquirir tais conhecimentos. Segundo, o desespero de não poder fazer nada para evitar o que acontecia há décadas: às oito da noite, milhões e milhões de fiéis sintonizados no mesmo canal, vendo e ouvindo as mesmas reportagens, feitas por seres humanos de condomínio.

 

Fábio Carvalho é militante do MST.

Comentários

Pessoas criadas em

Pessoas criadas em condomínios são idênticas aos animais criados em cativeiros. Não conseguem sobreviver fora dos llimites oferecidos pela vida de condôminos. Não conhecem pessoas, conhecem aqueles com que fazem negócios. Não conhecem cidades, conhecem todos os shoppings no mundo. Quando crianças, empinavam pipas no ventilador e jogavam bolas de gude no carpete. Andam em grupos, para se defender daquilo que não conhecem e acreditam oferecer perigo, sendo assim são extremamente violentos. Comem somente alimentos industrializados, pois acreditam que o mundo externo pode contaminá-los. Os problemas sociais devem ser resolvidos partindo da lógica higienista, se possível matando ou queimando  vivas as pessoas de rua. Por se sentirem especiais, foram criados em ambientes que acreditam estéreis, querem toda sorte de privilégios , inclusive no tocante a apropriação de espaços públicos. Dentro da lógica do condomínio, uma micro cidade, competem com os demais no tocante ao status de seus habitantes. O seu condomínio é misturado, dizem alguns seres de cativeiro.Quando flagrados em crimes, inclusive com mortes, seus pais garantem sua absolvição, pois como especiais criados em cativeiros, não cometem crimes, apenas deslizes decorrentes da idade. Dizem ser democráticos , já que cumprimentam seus empregados negros e estes frequentam os elevadores de serviço para acesso as resideências dos especiais criados em cativeiro. Como especiais criados em cativeiros valorizam toda forma de arte  que induza ação, a violência, a força, adquirida em especiais academias próximas dos condomínios cativeiros. O entretenimento deve ser tal que não propocione nehuma forma de reflexão, e sempre, que possível, ligado as  máquinas e novas invenções tecnológicas que ofereçam aventura com extrema velocidade.A política deve ser entendida, assim como os políticos, como uma maneira de preservar, estimular e consolidar as formas de vida higienizadas de condomínios cativeiros, contribuindo , desta forma, na perpetuação do consumo como valor universal de seres especiais. agregando mais valor aqueles que mais bens possuam. O acasalamento de seres especiais criados em cativeiros, deve se dar somente com  seres de outros cativeiros semelhantes, que compartilhem os mesmos hábitos , e principalmente a mesma crença religiosa, de maneira que as crias possam crescer em ambiente higienizado e estéril.

Programa de Rádio

 Que tal realizarmos um programa de rádio sobre este assunto, podemos enfocar a relação entre as pessoas e os "seres humanos de condomínio", em especial como se da essa relação no cenário de Brasília e das cidades do Goiaz próximas.

 

 

 Alex Fernandes Reis , meus fones para contato (61)9125-7432 (61)2194-8530

 O espaço para o programa é de 25 - 30 minutos, às quintas na Radio Nova Aliança.

 Entre em contato por favor.

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Texto lindo, parabéns! 

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