Aluna exemplar?

Os estudantes que não correspondiam às suas expectativas, no entanto, não eram agraciados pela mais cobiçada constelação de tinta bic de todo o primário

 

09/07/2012

 

Nanda Barreto*


Isso aconteceu na primeira série, quando eu tinha sete anos, mas até hoje não me sai da memória. Era uma segunda-feira, dia em que a professora Ana Lúcia devolvia corrigidos os trabalhinhos da turma – tarefa à qual, imagino, ela se dedicava durante os finais de semana, entre um e outro afazer doméstico. O fato é que quando a segunda-feira chegava, além de levarmos o restinho de euforia do sábado e do domingo para a sala de aula, eu e meus coleguinhas éramos acometidos por essa ansiedade extra de receber as atividades já avaliadas pela professora.

Ana Lúcia era cheia de esmeros: quando algum aluno ou aluna se saía muito bem, ela desenhava estrelinhas na cabeceira da folha e escrevia coisas como “parabéns!” ou “excelente!”. Os estudantes que não correspondiam às suas expectativas, no entanto, não eram agraciados pela mais cobiçada constelação de tinta bic de todo o primário. Mas a professora Ana Lúcia era boazinha e nunca deixava de registrar frases de incentivo. “Juntos vamos melhorar o seu desempenho!” é a que eu mais lembro de ter lido ao longo do ano – não no meu próprio caderno, pois a verdade é que àquela altura eu ainda era uma “aluna exemplar”, como a direção da escola costumava repetir aos meus pais.

Naquela segunda-feira, entretanto, esse conceito de boa aluna começou a virar farelo na minha cabeça. Sentada ao lado do meu querido colega Dieguinho, eu senti – talvez pela primeira vez – aquele comichão de que “Opa! Há algo de podre no reino da Dinamarca”. O causo é que o desenho que o Dieguinho pintou não estava adequado ao gosto da professora. Tratava-se de uma reprodução mimeografada da personagem de quadrinhos Mônica, criada pelo cartunista Maurício de Souza, e a qual eu havia colorido exatamente como mandava o figurino das revistinhas: o vestido vermelho, a pele amarelada, o coelhinho de pelúcia azul.

Mas o Dieguinho não. Aos 6 anos e meio, aquele menino doce, de olhos bem azuis, sardas e um pouco baixo para a nossa idade, achou por bem subverter a ditadura das cores e pintou a sua Mônica como bem quis: um perna roxa e a outra laranja, os cabelos verdelimão, sim, por que não? E quem disse que os dois braços têm que ter a mesma tonalidade? Diferente de mim, o Dieguinho tomou o desenho livremente como um espaço para a sua própria produção artística, mas a recompensa pela ousadia foi a reprovação da professora, além de uma boa dose de gargalhadas e chacotas dos outros coleguinhas.

Eu não achei a menor graça e estava convencida de que o desenho do Dieguinho estava muito mais bonito e “correto” que o meu, uma típica “aluna exemplar”. Além de expressar-se artisticamente, ao pintar o desenho de acordo com o seu próprio senso estético, o Dieguinho estava questionando uma lógica de que “existem coisas que são assim e ponto final”. Mas a contestação não é vista com bons olhos pela escola. Ao contrário, parece que o papel central da educação é “satisfazer” a nossa criatividade, como se as interrogações tivessem que ser “sanadas” sempre com uma resposta.

Nem mesmo a professora Ana Lúcia, sem dúvida uma das mais adoráveis e empenhadas educadoras que tive, foi capaz de fazer uma análise sobre o ocorrido. Pior ainda: imagino que a própria Ana Lúcia tenha sido formada para reproduzir esses “saberes” tão universais quanto irrefletidos que definem o que é certo e errado. Naquela fatídica segunda-feira, infelizmente, quem pagou o pato por este modelo “educativo” foi o meu colega Dieguinho.

Já faz muitos anos que não o vejo e espero que, na contramão do que lhe impunha a escola, ele tenha crescido com base no seu senso crítico. Que não seja, portanto, um “home-feito”, como certamente o mundo lhe exige cotidianamente, mas que seja um homem em construção. A mim, Dieguinho ensinou que ser uma “aluna exemplar” não é seguir roteiros predeterminados.

De alguma maneira, a Mônica póspunk de pernas bicolores do meu colega Dieguinho me apontou um caminho diferente de aprendizagem. Nele, não é possível encontrar fórmulas prontas nem respostas imediatas, mas sim um vasto jardim de interrogações. Cada dúvida semeia uma curiosidade e assim se plantam novas descobertas.

Claro, não é um processo tão imediato quanto marcar um “x” na alternativa correta ou eproduzir realidades idênticas às que nos contam os gibis e outros livros de história. No entanto, pode ser que o ato de estudar tenha mais a ver com deixar-se levar por certas subjetividades e perseguir a própria inquietação intelectual do que simplesmente aceitar uma coletânea de realidades incontestáveis.

 

*Nanda Barreto é jornalista e autora do blog http://transitivaedireta.blogspot.com

Comentários

Esse problema não se restringe apenas à educação primária

Curso engenharia em uma universidade federal e o mesmo acontece. Tudo está baseado na reprodução exata do que foi recebido: reproduza o que ouviu e saia-se bem. Agora o coordenador do meu curso não quer reconhecer um evento de filosofia, no qual eu participei na universidade, como uma atividade complementar do meu curso. Eles parecem, mesmo inconscientemente, quererem até restringir a área de conhecimento pela qual eu devo me interessar. Esse mesmo professor, na disciplina dele, só aceita como resposta certa aquela que é exatamente (ao pé da letra) igual à que está no livro; vi algumas respostas totalmente corretas de meus colegas serem agraciadas com uma nota que não marecia. E isso tudo é uma coisa da qual é difícil de se livrar, se tu pretende concluir um curso: se queres passar, tens que reproduzir exatamente o que te foi passado. Em outras palavras, seja um copiador, e não um pensador com senso crítico - como idealmente deveriam ser os estudantes universitários, a "elite pensante" do país.

Realidade

Adorei o texto.Mas sinto-me frustrada e angustiada por saber que não é apenas um texto de memórias, mas um retrato muito presentre de nossa realidade escolar, onde muitas crianças, em pleno século 21 são tolhidas em sua criatividade e espontaneidade para criar, obrigadas a seguirem roteiros e exemplos impostos pelos professores.É muito triste de se dizer, mas, ainda hoje, quando uma professora substituta passa algo na lousa, se escuta das crianças de quarto ano a pergunta :Pula linha professora?A fatídica pergunta e a reprovação do desenho colorido de seu amigo mostram que a escola continua objetivando a padronização e a formação de pessoas alienadas. Uma pena e um perigo para o crescimento e fortalecimento de um país.

não apenas do país, camarada.

não apenas do país, camarada. do mundo. precisamos nos reiventar. 

Muitos de nós ou viveram ou

Muitos de nós ou viveram ou vivenciaram esse "enquadramento". Adorei o texto porque é sempre bom lembrar que as crianças nos ensinam muito em seu processo de descoberta do mundo. O protesto é são. De que adiantaria o homem ser capaz de pensar, se não pudesse usar sua criatividade, buscar transformar a realidade, ou lutar por seus sonhos? Legal, mesmo esse texto! Somos Gente em Construção!

Muito admirável o seu texto,

Muito admirável o seu texto, Nanda Barreto. O rigor do ensino, seja ele primário, fundamental ou médio sempre foi  permeado por doutrinas que não estimulassem a criatividade dos alunos. Sem pensar por conta própria os indivíduos saem formados com uma visão bitolada, e uma vez enraízado isto, dificilmente eles revertem o quadro. Infelizmente.http://cartazdacultura.com/

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