Agroecologia, resistência cultural

Projeto agroecológico propõe um modelo de cultura e educação que vai além da sua dimensão econômica

13/07/2012

 

Camilla Hoshino,

de Curitiba (PR)

 

 

   

   

A mulher camponesa possui um papel essencial na

resistência cultural - Foto: Joka Madruga

A Revolução Verde abriu espaço para a mecanização no campo, produção de commodities, sementes híbridas e, consequentemente, para a subordinação do agronegócio à indústria de agrotóxicos. No entanto, não conseguiu cumprir a promessa de acabar com a crise alimentar e modificou brutalmente a relação do homem com a natureza. Segundo dados de 2012, da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), uma em cada sete pessoas no mundo ainda passa fome.

O impacto não se limitou apenas à produção. “Paulo Freire denomina essa dinâmica como sendo uma invasão cultural. Ela afeta desde a organização social para o trabalho até a sociabilidade em outros níveis como as expressões festivas, o culto à natureza, vestimentas típicas, música e arquitetura das moradias”, ressalta José Maria Tardin, técnico agropecuário e integrante do setor de produção, cooperação e meio ambiente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Em oposição a essa realidade, a agroecologia é difundida por cientistas, acadêmicos e organizações sociais do campo como uma alternativa de produção socialmente mais justa. Ela une os conhecimentos acumulados durante séculos por agricultores, comunidades tradicionais e povos indígenas às ciências biológicas.

Como defende Tardin, esse modelo permite a valorização e organização do território camponês para além da sua dimensão econômica, resgatando valores e práticas culturais que buscam a conservação e preservação do meio ambiente. “A agroecologia proporciona a reconstrução ecológica e também a reconstrução de processos sociais, direcionando o trabalho da família camponesa para um maior nível de resistência política, econômica, social e cultural”, diz.

 

Resgate da biodiversidade

No livro “Biodiversidade como bem comum: Direitos dos Agricultores, Agricultoras, Povos e Comunidades Tradicionais”, publicado recentemente pela organização de direitos humanos Terra de Direitos, a livre utilização da biodiversidade aparece como prioridade nas reivindicações do campo.

Hoje, seis grandes empresas controlam o mercado internacional da produção de sementes transgênicas: Monsanto, Syngenta, Bayer, Basf, DownCropscience e Du Pont. A monopolização no setor de biotecnologia, além de proporcionar um maior controle industrial dessas empresas transnacionais sobre as sementes, padroniza a alimentação.

Na avaliação da autora do livro e advogada da ONG Terra de Direitos, Larissa Packer, a produção de sementes híbridas e transgênicas, associadas a um agrotóxico, afeta o direito à segurança e soberania alimentar, uma vez que se perde a qualidade nutricional desse material genético. “A seleção e reutilização das sementes de acordo com as necessidades e padrões de alimentação da família é o que dá segurança alimentar. Isso não é possível se o agricultor está acorrentado a um pacote tecnológico, em que a semente hibrida é muito mais adaptada a escala de produção da indústria”, explica Packer.

 

Resistência da mulher

Nesse sentido, a mulher camponesa possui um papel essencial na resistência cultural. A advogada explica que a mulher está historicamente ligada à conservação do ecossistema familiar e ao papel de seleção das sementes crioulas tanto para o consumo próprio quanto para a produção de ervas medicinais, o que faz com que ela esteja consciente dos danos causados pela agricultura convencional.

Packer ainda aponta dados do ETC Group, de 2009, que comprovam que 70% dos alimentos consumidos no mundo é resultado do trabalho desenvolvido pelos camponeses.

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