Espiritualidade lascasiana

A memória de Las Casas nos chama a defender a vida e a liberdade dos índios por motivos humanos e sociais, mas também por uma exigência espiritual da fé

19/07/2012

 

Marcelo Barros

 

Essa semana de julho traz para os povos da América Latina recordações históricas importantes. No 19 de julho de 1979, os sandinistas entraram vitoriosos em Manágua e proclamaram a Nicarágua livre de uma ditadura que durava quase 40 anos. No dia 17 de julho, nos Andes, os índios recordam a figura mítica de Tupac Amaru. No século XVIII, esse índio se proclamou descendente do Inca e juntou os povos indígenas em uma revolta contra o domínio espanhol. Ganhou muitas batalhas, mas foi traído por um dos seus companheiros e para que não houvesse uma carnificina se entregou e foi enforcado. Entretanto, talvez a recordação mais básica seja de que nesse mesmo dia, em 1566, falecia Bartolomeu de las Casas, primeiro bispo de Chiapas, no sul do México e defensor da dignidade dos índios contra o sistema colonizador e escravagista. Ele era um frade dominicano que, ao ver o sofrimento dos índios se converteu e se tornou missionário e teólogo para lutar contra a escravidão. Defendeu a dignidade dos índios junto ao rei da Espanha e escreveu o primeiro tratado de teologia e espiritualidade que ensina: nos corpos dos índios escravizados, é o próprio Jesus Cristo que é explorado pelos que se dizem cristãos.

Atualmente, quase cinco séculos depois, podemos lamentar que ao protestar contra a escravidão indígena, Las Casas não tenha sabido denunciar o próprio sistema colonizador em si mesmo. E há quem o acuse de ter aceito o tráfico e a escravidão dos africanos para substituir os índios nas minas e engenhos da colonização. Não há provas disso. De fato, ao morrer em 1566, Las Casas não chegou a antever esse problema. O tráfico de africanos sequestrados para ser escravos na América floresceu em época posterior, a partir das últimas décadas do século XVI. Seja como for e mesmo se tem contradições, em nossos dias, os escritos desse grande missionário são referência para uma nova concepção intercultural de missão e de leitura da história a partir das vítimas e não dos vencedores.

Hoje, uma espiritualidade lascasiana rejeita uma missão cristã que tenha como objetivo conquistar adeptos para a fé e a assume como diálogo que valoriza a presença divina em toda realidade humana e respeita a diversidade das culturas. Ainda em nossos dias, aqui no Brasil, povos indígenas continuam massacrados, vítimas de um modelo de progresso que olha os índios como estorvo para a concentração de terras, o agronegócio e os lucros das grandes empresas. No Mato Grosso do Sul os Guarani Kaiowá são perseguidos. No último ano, várias lideranças foram assassinadas e a quase cada semana ocorre, nas aldeias, um suicídio de jovens que não aceitam ser escravos nas fazendas de soja da região, envenenados pelos agrotóxicos que são obrigados a manipular.

A memória de Las Casas nos chama a defender a vida e a liberdade dos índios por motivos humanos e sociais, mas também por uma exigência espiritual da fé. Não podemos aceitar projetos de desenvolvimento que não levem em consideração o respeito aos povos que sempre foram vítimas da história e suas culturas religiosas. Em 1815, Simon Bolívar, o libertador da pátria grande que é a América do Sul, em sua “Carta de Jamaica”, considera o elemento religioso como aglutinante da alma americana e formula “a necessidade urgente de uma união de nossos povos, ligados por elementos culturais e religiosos comuns”. Viver isso hoje é retomar uma espiritualidade lascasiana e libertadora.

 

Marcelo Barros é monge beneditino.

Comentários

Espiritualidade Lascasiana

Belíssimo Post! Rememoro que morei em uma rua chamada Simão Bolívar, em Manaus. Será que existe este nome de rua em algum outro estado? Deve existir.

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