Cem anos de Luiz Gonzaga

Nesses cem anos de nascimento de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião vai fazer a festa no céu enquanto nós a faremos aqui na Terra, até o dia que Deus permitir
19/07/2012
Roberto Malvezzi (Gogó)
Estamos celebrando aqui no Nordeste os cem anos do nascimento de Luiz Gonzaga. Nasceu em 13 de Dezembro de 1912. Além da dimensão artística, é indubitável o papel de sua música na difusão do imaginário sobre o Nordeste, inclusive do ponto de vista ambiental e social.
Fiz com Targino Gondim e Nilton Freitas o CD “Belo Sertão”, numa tentativa de valorizar a importância social da música de Luiz Gonzaga. Fizemos um diálogo de composições como o pout pourri de Asa Branca (Asa Branca, Triste Partida e Volta da Asa Branca), Súplica Cearense, Jesus Sertanejo, Riacho do Navio, etc. Fomos dissecando o que significa cada uma dessas músicas nesse contexto, porque elas existem, qual a razão de tanta celebridade desses clássicos nordestinos. Ao mesmo tempo, na lógica da convivência com o semiárido, compusemos – inclusive com outros compositores - Água de Chuva, Beleza Iluminada, Belo Sertão, Boato Ribeirinho, Estalo de Fogueira e outras.
Curioso como esse trabalho se difundiu no Nordeste muito mais nas escolas, universidades e setores da educação popular que propriamente no mundo do show business. Há inclusive monografias de mestrado estudando o semiárido a partir da música, influenciadas pelo que viram e ouviram no CD.
Foi Luiz Gonzaga, junto com seus poetas como Zé Dantas, Patativa do Assaré e Humberto Teixeira – muitos outros - que divulgaram o sertão nordestino que está no imaginário do povo brasileiro. Claro que pintores como Portinari, poetas como João Cabral de Melo Neto, romancistas como Graciliano Ramos, dramaturgos como Ariano Suassuna, se somaram nessa divulgação, mas como uma crítica à crueldade da fome e da sede que pairavam sobre o semiárido.
Hoje temos a convivência com o semiárido. Acabamos com as grandes migrações, as frentes de emergência, a mortalidade infantil, os saques. Mesmo numa seca como essa, a tragédia social já não reina como nos tempos da “Asa Branca”.
A música de Gonzaga continua viva por ser uma obra prima da cultura popular, mas a nossa realidade mudou. Há muito por caminhar, mas grande parte do caminho foi feito. Gonzaga gostaria de ver a volta de grande parte dos migrantes nordestinos para o Nordeste.
Sem perdermos nossas raízes culturais, principalmente a musical, hoje já podemos fazer novos baiões, novos xotes, novos rastapés, um novo forró, para a alegria nordestina que nunca morre.
Nesses cem anos de nascimento de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião vai fazer a festa no céu enquanto nós a faremos aqui na Terra, até o dia que Deus permitir.
Roberto Malvezzi (Gogó) é assessor da Comissão Pastoral da Terra.


Comentários
Sobre Gonzaga.
Gonzaga fez de tudo na temática do Nordeste: crítica ao flagelo da pobreza nessa região ("Vozes da Seca", "Súplica Cearense" etc.); graça dos causos sertanejas ("Casamento improvisado", "Ovo de codorna", "Capim novo", "Samarica Parteira", "17 e 700", "Forró de Mané Vito", "Siri jogando bola", "Lorota boa" etc.); homenagem a familiar assassinado e, ao mesmo tempo, denúncia à violência por questão de terras no Pernambuco ("A Morte do Vaqueiro"); descrição do semiárido, da fauna e da flora ("Acauã", "Assum Preto", "Sabiá", "Fago-Pagou"; alerta aos sulistas sobre a importância das tradições populares nordestinas ("Tá'qui pra tu!", "Pra onde tu vai, baião?", "Meu Pajeú", "Xote dos Cabeludos" etc.) ; diversas homenagens a várias personalidades do Nordeste, do País e do mundo ("Cego Aderaldo", "O Jumento é Nosso Irmão", "Lampião era besta, não", "Frei Damião", Louvação a João XXIII" etc.); a descrição do sertanejo e da vida do nordestino ("Sangue de Nordestino", "Boiadeiro", "Vaqueiro "Véio", "Ave-Maria Sertaneja" etc.); discussão de questões ecológicas ("Xote ecológico", "Baião agrário" etc.); ode ao Cratinho de Açúcar, minha terra ("Eu vou pro Crato!"); etc. Outra parceria que deveria ter sido citada foi a do Rei com o poeta paraibano, de Sumé, Zé Marcolino, que, a bem dizer, compôs um disco inteiro pra Gonzaga. Abraço.
Luiz Gonzaga, quem representou o sertão da melhor maneira...
Bela matéria sobre Cem anos de Luiz Gonzaga, ele o nosso eterno Ídolo, não só pelas suas belas canções mais como um dos melhores cantores que o Brasil já teve, o mesmo não teve su reconhecimento quando ainda era vivo, mas agora está tendo o que nos deixa triste, mais sua história é bonita e sua persistência de levar a imagem do Sertão ao mundo é o que nos deixa alegre... Parabéns acredito que nenhum brasileiro vai esquecer do nome 'Luiz Gonzaga'... O nordeste orgulha de você Luiz.
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