Moradores do Moinho lutam para permanecerem no centro de SP
Incêndio na favela do Moinho na capital paulista expõe projeto imobiliário conduzido pela gestão municipal
12/01/2012
Aline Scarso
Joana Tavares
da Redação,
O mecânico Paulo Rodrigues Silva perdeu os documentos, um cachorro e tudo o que tinha depois que o barraco que ocupava junto com a mulher Ana Paula Ferreira pegou fogo no dia 22 de dezembro, junto com os outros barracos do prédio do Moinho, uma fábrica abandonada no bairro Campos Elíseos, região central de São Paulo.
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Assembleia realizada na semana passada, na qual os moradores rejeitaram proposta da prefeitura - Foto: Aline Scarso |
Com o boletim de ocorrência registrado no 77º Departamento de Polícia em mãos, Silva lista os bens que perdeu e fala sobre o trabalho que terá para reconstruir a vida, organizar a sua casa e comprar novos eletrodomésticos e móveis. “Será muito difícil e a gente sabe que a prefeitura não quer que a gente fique aqui. Estão fazendo uma cachorrada com a gente, tentando nos colocar para fora do terreno”, afirma.
O sentimento de insegurança da comunidade em permanecer no local é geral. Desde que o incêndio ocorreu, expulsando do prédio do Moinho 365 famílias, a Prefeitura tenta negociar a retirada de todos os moradores que vivem no terreno de terra batida sob o viaduto Engenheiro Orlando Murgel, ao lado de uma linha de trem da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).
Junto às 365 famílias se somam outras 500, constituídas basicamente por trabalhadores de baixa renda que sobrevivem, apertados, em barracas e casebres improvisados, servidos de energia elétrica, água e esgoto. A maioria trabalha no centro como pedreiros, faxineiras, catadores e camelôs, e seus filhos estudam em escolas da região.
“O [prefeito Gilberto] Kassab (PSD) promete nos dar essa área há um tempão,outros prefeitos também já prometeram. Agora vamos ver o que vai resolver”, destaca o pedreiro. Ele faz parte de uma centena de pessoas que, desabrigadas pelo incêndio, preferiram morar perto da comunidade que seguir para os albergues disponibilizados pela Prefeitura. Como justifi cativa, dizem que têm medo de serem esquecidos nesses espaços e que preferem lutar para conquistar o direito de permanecerem na área ocupada há cerca de 30 anos.
Outras 116 pessoas foram alojadas em albergue cedido pelo poder municipal. Apenas duas semanas depois, dois outros locais foram abertos para receber os atingidos. A Aliança Misericórdia, que atua no Moinho desde 2004, critica que a alimentação foi fornecida apenas para a minoria que optou sair da comunidade, e que o restante teve que se virar com o apoio dos outros moradores e de doadores externos.
“Recolhemos dois galpões lotados de doações. Além da Aliança, Dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo, emitiu uma carta que foi para todas as paróquias, por isso recebemos tanta coisa. Há desde alimentos não perecíveis, até roupas, brinquedos”, explica Leandro Rafael, da Associação Aliança Misericórdia.
Ele diz que a campanha de doações foi encerrada, e que agora recebem contribuição em dinheiro, para fazer a aquisição e reforma de um galpão onde vai funcionar uma creche, demanda antiga dos moradores, já que a prefeitura não construiu nenhuma para as 900 crianças que moram no Moinho.
O bairro Campos Elíseos, onde fica a comunidade, é vizinho aos bairros da Luz e Santa Ifigênia que, de acordo com a Prefeitura, serão reurbanizados com novos empreendimentos imobiliários. Para isso, somente na região da Santa Ifi gênia, a remodelação urbana prevista no projeto Nova Luz causará a desapropriação e demolição de 30% da região. Para os moradores do Moinho, está claro que a Prefeitura pretende retirá-los do centro de São Paulo para continuar com os projetos de “embelezamento do centro”.
O pedreiro Paulino Monteiro da Silva, morador há 14 anos da favela do Moinho, pontua: “A gestão de Kassab é para os ricos. O pobre, o camelô, o catador de papelão, não recebem nada. Não conheço ninguém pobre que foi beneficiado por Kassab”.
“Eu prefiro morar no centro porque tem serviço aqui, tem criança que estuda aqui. Estou aqui há dez anos e já ofereceram dinheiro outras vezes para a gente sair do terreno e nós não aceitamos. Tem proprietário que não aceita alugar prédio para família com quatro, cinco crianças, como é o meu caso. A gente quer sair daqui, mas só com a certeza de que vamos conseguir uma moradia digna mesmo”, afirma a faxineira Mariza Penha.
A luta da comunidade certamente vai ser grande. Para Sidney Pita, integrante da União dos Movimentos de Moradia, há uma pressão da especulação imobiliária muito forte do mercado na região, por ser perto da Lapa, Água Branca e Brás. “Entendemos que se não fizermos um esforço grande, as famílias não fi carão no bairro, já que as casas são mais caras no centro”.
Controvérsias com a Prefeitura
Os moradores do Moinho se reúnem regularmente em reuniões e assembleias, intensifi cadas depois do incêndio. As discussões coletivas servem também para acabar com as dúvidas e apontar caminhos para a comunidade seguir lutando de forma coletiva. Na maioria das vezes, as informações passadas pela Prefeitura não são claras para a comunidade.
Mesmo o número de duas mortes no dia 22, informado pela Defesa Civil municipal, é contestado. Com o passar dos dias, os moradores sentem a falta de pessoas que desapareceram depois do incêndio. “A gente está sentindo falta de muitos agora. Tem gente que morava lá e não está em canto nenhum”, denuncia Paulo.
Os moradores contestam também a causa do incêndio. Segundo a Prefeitura, e conforme versão confirmada por alguns dos entrevistados, uma mulher, aparentemente com problemas mentais, colocou fogo em seu barraco depois de uma discussão com seu companheiro. A partir daí, o fogo se alastrou para os demais e atingiu metade do prédio. Mas nem todos acreditam na história. “Dizem que foi uma mulher. Eu não vi”, afirma o pedreiro Paulino.
“Como é que pode pegar fogo nos tijolos de forma tão rápida assim?”, indaga a camelô Neide Aparecida Campos. “Daí ele pega R$ 3 milhões para desmanchar o prédio. E só demole a metade. Está muito estranho tudo isso”, complementa.
A implosão exigiu 800 quilos de dinamite, mas apenas dois dos seis andares do prédio foram demolidos no primeiro dia deste ano. A justificativa do prefeito para os órgãos de imprensa foi de que a intenção era regularizar a passagem dos trens pela região, e que não houve falhas na operação. A empresa contratada para fazer o serviço, a Desmotec Demolições e Terraplanagem, deu duas versões sobre o ocorrido: primeiro, disse que o objetivo não era derrubar todo o prédio; voltou atrás e disse que o prédio havia sido programado para cair. Apenas uma semana depois a demolição foi concluída e os entulhos têm 180 dias para serem retirados.
Mesmo com o prédio ao chão e com muita incerteza, a camelô Neide diz que não sai do terreno. “Eu não saio nem se um trator passar por cima [de mim]. Aqui é nosso. A União deu pra gente. Nós estamos lutando e enfrentando a mentira deles. A gente é lixo para a Prefeitura e só estamos vendo um monte de engravatados por aqui só agora”, desabafa.
Neide e outros moradores entrevistados denunciam, ainda, que os bombeiros demoraram cerca de duas horas para comparecerem ao local, que se destruía em chamas. A poucos minutos do viaduto onde está a comunidade, está o 2º Grupamento de Bombeiros, localizado na Rua Barão de Piracicaba, também nos Campos Elíseos. A reportagem tentou contato com o Corpo dos Bombeiros para confirmar essa informação, mas a Corporação não retornou as ligações.



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