La Fille de Nulle Part, um thriller esotérico

O filme de Jean-Claude Brisseau conta a história de um homem que acolhe uma jovem e vê alguns fenômenos estranhos se manifestarem em sua casa

 

08/08/2012

 

Rui Martins,

de Locarno (Suíça)

 

 

   

   Cena do filme La Fille de Nulle Part - Foto: Festival del film Locarno

Se esse gênero misterioso, transcendental e metafísico ainda não existe, o cineasta francês Jean-Claude Brisseau acaba de inventar com seu filme La Fille de Nulle Part. O longa-metragem foi filmado em Paris, no apartamento do próprio cineasta, onde alguns fenômenos estranhos - como aparições de fantasmas, barulhos inexplicáveis, levitação de mesa, uma cadeira furiosa se jogando sozinha contra a estante e quebrando o espelho - se manifestam depois de ele acolher uma jovem espancada pelo amante nas escadas do seu prédio, próximo ao seu apartamento.

Michel é o personagem principal, vivido pelo próprio cineasta Brisseau, na sua primeira experiência de ator amador num cenário escrito por ele mesmo. Ex-professor, como na vida real, Michel tem o dom do didata e logo interessa sua hóspede, que precisa de cuidados médicos e repousa uma semana em seu apartamento, sobre uma pesquisa envolvendo as crenças e ilusões dos seres humanos.

Michel não é um crédulo, mas um agnóstico ou ateu curioso sobre a explicação dos mitos que embalam os seguidores das religiões. Pesquisador, baseado em descobertas arqueológicas, ele considera os personagens bíblicos do Velho Testamento como criaturas saídas da imaginação de um Josias. Assim, Moisés nunca teria existido, mas se tivesse existido seria não o menino hebreu achado no curso do rio Nilo, mas um egípcio. E, reunindo num arquivo do seu computador os quadros da ascensão de Cristo, pintados pelos grandes mestres, lhe surge a convicção de ter sido uma ilusão de seus discípulos. Mesmo porque se Cristo tivesse subido aos céus para onde iria – para a Lua, Marte ou o forro de alguma igreja?

A jovem Dora, de 26 anos, quarenta anos mais jovem que ele, é esperta e inteligente, capaz de ajudá-lo na conclusão dos seu livro sobre as ilusões criadas pelos homens como uma necessidade existencial. Mas a jovem Dora parece ter levado o sobrenatural para sua casa e um espírito desenha num papel, com o pé de uma mesa em levitação, o rosto de uma mulher. O rosto se parece com sua esposa falecida há mais de vinte anos, perda da qual Michel nunca se refez.

Aparece também o fantasma de uma mulher de preto, enquanto ruídos estranhos saem de dentro do armário. E o intelectual empedernido, movido pela ilusão da possibilidade de um reencontro com sua esposa, cai na mesma cilada dos que precisam de algo místico para poder viver – Dora seria a reencarnação de sua esposa. E comete o erro fatal de legar todos seus bens, em caso de morte, para Dora, na verdade sua ex-esposa.

O resto nem se precisa contar. Filme indicado para os que veem fantasmas e mensagens do além por todo lado e que se deixam levar por todos os tipos de crenças e crendices, nutrindo-se de ilusões para viver. Enquanto uns poucos, mais espertos, explicarão sinais, vultos, ruídos, levitações, comunicados do além como simples truques de mágica. E ainda outros utilizarão das ilusões e dos crédulos como seu ganha pão esotérico.

Jean-Claude Brisseau quis também provar ser possível se fazer um filme com pouco dinheiro e que muitos caros efeitos especiais, usados nas superproduções, sequer são percebidos pelos espectadores. Puro luxo desnecessário, mas sem as ilusões poucos podem sobreviver.

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