À sombra do Apartheid
Mais do que um pedaço do segundo continente mais populoso do mundo, a África do Sul será o último país a esquecer o terrorismo do Apartheid
14/08/2012
Silvia Valim,
de Johanesburgo (África do Sul)
| |||
Vista do bairro Soweto, antigo gueto antirracista é um distrito de Johanesburgo - Foto: Silvia Valim |
Ao encontrar o ponto que une os oceanos Índico e Atlântico e finda o território africano, Bartolomeu Dias certamente não sabia que deixaria para trás uma terra ainda inabitada por herdeiros de uma discriminação com nome e cor. Ao dobrar o hoje chamado Cabo da Boa Esperança, em 1488, o desbravador português consumava uma conquista de muitos e um pedaço do que seria quase 500 anos mais tarde o berço do apartheid.
Foram aproximadamente 50 anos sobrevivendo sob os olhares de reprovação de uma nação inteira. Brancos e negros foram separados nos bancos, escolas, bairros, ruas e até igrejas. Não podiam ocupar o mesmo transporte coletivo ou realizar o mesmo trabalho. Os casamentos entre brancos e negros foram proibidos. Para os cristãos, não existiria jamais no céu lugar para os negros. Usados pelos colonizadores holandeses como escravos até 1834, eles agora compunham a multidão dos sobrepujados, discriminados, descartados pela mesma nação do ouro e diamantes. Riquezas naturais garimpadas para enriquecer o bolso de uma pátria sem alma.
A Robben Island é uma reflexão espontânea sobre a condição do negro no mundo e a regra da minoria branca aplicada no país durante quase cinco décadas. Foi em um espaço de três metros quadrados que o líder da revolução contra a ditadura branca permaneceu 18 anos encarcerado pagando o preço da liberdade dos negros sul-africanos. Condenado à prisão perpétua por defender os direitos básicos de sua pátria, de lá enviava cartas para incentivar o fim do regime segregacionista e organizar manifestações. Os outros nove anos, que somam os 27 que Mandela permaneceu na prisão, foram cumpridos em Poolsmoor, na Cidade do Cabo e em Victor Verster, no município de Paarl.
Manifestantes adeptos ao Congresso Nacional Africano (CNA), organização negra de repressão ao atual regime, tornaram comum o clamor “Libertem Nelson Mandela”. Com o aumento das tentativas de revoluções (sempre refreadas pelo governo) e as pressões internacionais, o então presidente da África do Sul, Frederik de Klerk solicitou em 1990 a libertação de Mandela, findando um dos períodos mais dramáticos da história. Três anos depois, Klerk e Mandela, já com 75 anos, receberam o Prêmio Nobel da Paz pelos esforços em acabar com a divisão racial da África do Sul.
Como resultado de toda a luta contra o antigo regime, Mandela tornou-se em 1994 o primeiro presidente negro do país, administrando-o até 1999 e estabelecendo um governo multirracial. Responsável pela reconciliação de grupos internos é eterno líder da nação sempre evidenciando sua preocupação com os direitos sociais. A antiga penitenciária de Robben Island é agora patrimônio mundial e também a prova concreta de um período que eles não querem esquecer.
O pós-apartheid
Hoje eles estão em toda parte. São atendentes de lojas, professores, policiais, estudantes, mendigos. Pedir, aliás, é o que fazem muitos nas três capitais sul-africanas: Pretória, Bloemfontein e Cidade do Cabo. Sem armas ou qualquer tipo de ameaça eles imploram por dinheiro. Caminham quilômetros acompanhando um turista contando sobre seus filhos, irmãos e esposa até que consigam algumas moedas. Estampam no rosto a miserável desigualdade social do país. Segundo um relatório de 2012 da Organização Internacional do Trabalho, 25,2% da população da África do Sul está desempregada.
A violência contra a mulher é outro fator preocupante no país. Dados são da ONG Rape Crisis, da Cidade do Cabo, apontam que a África do Sul é o país com mais casos de estupro no mundo. Por dia, 150 mulheres são violentadas na nação africana. A média é de um abuso sexual a cada 27 segundos. Resultado não só do desemprego, mas da pobreza e da indiferença.
Enquanto isso, nas ruas, um desfile de carros importados para o alto poder aquisitivo. A maioria com brancos na direção. Cape Town recorda em muitas partes a modernidade e o luxo de Miami, nos EUA. Mas a marca do apartheid está impregnada. É a nova geração que encontra um novo olhar sobre o território com história a cada esquina. A interação é perceptível entre brancos e negros universitários, que agora podem estudar juntos, nas mesmas salas.
Porém é difícil ver empatia entre os mais velhos que parecem empurrar a memória para o fundo das sacolas de supermercado, quase sempre empacotadas por negros e para brancos. É só num café elegante de um bairro distinto e caro que se vê um branco como assistente.
Dentre os seus 47 milhões de pessoas aproximadamente, A África do Sul é composta por 79% de negros, 9% brancos e 9% de mestiços – rótulo local para pessoas de mistura africana. 2,5% são indianos e asiáticos. São utilizadas 11 línguas oficiais, entre eles o africâner, uma herança da colonização holandesa, e o inglês – usado no trânsito, comércio e documentos oficiais.
Idioma conquistado também nas escolas a muito custo, com a morte de inocentes como Hector Pieterson. Um museu em Johanesburgo, no bairro de Soweto, um dos principais centros de campanha contra o regime segregacionista, narra o episódio. Personagem de uma revolta de estudantes em 1976, Hector pedia junto a uma multidão que o inglês fosse ensinado nas salas de aula. Durante o protesto, em 16 de junho, um ataque da polícia ceifou a vida do garoto de apenas 13 anos. Hector Pieterson virou um símbolo nacional. A repercussão de sua morte atravessou o mundo e o funeral público no local onde foi criado o museu que leva seu nome é uma homenagem a todos os jovens que morreram no mesmo dia lutando pela democracia. Memórias que refletem a experiência de diferentes gerações.
Soweto
| |||
| Criança no bairro Soweto - Foto: Silvia Valim |
Hoje com quase 4 milhões de habitantes, o antigo gueto antirracista é um distrito de Johanesburgo, também com suas desigualdades. Escolas, faculdades e o maior hospital do mundo estão instalados ali. South Western Township ainda é uma favela em grande parte. Ao menos para Hilda Ankanti, uma das moradoras do pedaço mais miserável do bairro. Aos 67 anos viu passar por ela a ditadura branca e a chegada da liberdade de expressão. No seu entendimento, o fim da apartheid mudou muita coisa, “mas não pra todo mundo.” Morando com mais sete pessoas numa espécie de contêiner ela desabafa num espaço de no máximo 8 metros quadrados. “A vida é boa. O problema são as casas. Quando está frio, é muito frio. Quando está quente, é muito quente mesmo. É quase o pior de tudo. Só não é por conta das crianças. Elas não encontram emprego. Aqui onde nós estamos a escola é longe, é preciso andar mais de 10 quilômetros e muitos não vão porque o transporte pra nós é caro. E pra mim? Não dá pra dizer que tem algo melhor. Nada posso fazer além de ficar em casa. Eu sofro. Estou sofrendo”.
Xolisa Khamund é outro morador que há 20 anos chegou em Soweto em busca de emprego. Acabou se tornando um guia turístico do bairro. “Quem vem de fora é sempre generoso em relação às gorjetas. Como eu falo bem o inglês acabo trazendo oportunidade para os moradores. Procuro sempre selecionar algumas famílias diferentes pra apresentar. Traduzo tudo, já que aqui muitos ainda falam o africâner, e os turistas, principalmente os ingleses sempre deixam algum dinheiro para as famílias também. É uma forma de seguir adiante. De conquistar a refeição do dia seguinte. Dá esperança”, finaliza.
Após o apartheid o governo instituiu a construção de casas populares em Soweto para a população de baixa renda. Há os chamados “albergues” divididos entre femininos e masculinos, cujos quartos
são compartilhados por até oito pessoas, não possuem energia elétrica e custam 60 rands por mês, algo em torno de 20 reais. E ainda existem as residências familiares. Pequenos apartamentos de dois quartos, com cozinha e banheiro e que podem custar 300 rands mensais, em média 100 reais. Só entrar em uma lista de espera pode levar 10 anos.
Mas Soweto não é apenas pobreza. Uma casa no antigo foco da insurreição anti-apartheid pode, tranquilamente, custar 5 milhões de rands. Propriedades dos negros que ascenderam socialmente com o fim da ditadura branca, mas quiseram permanecer por lá. Carros de luxo, restaurantes caros e mansões são encontrados especialmente em torno da Rua Vilakazi, a única via no mundo em que dois vencedores do Prêmio Nobel da Paz residiram ao mesmo tempo, o líder Nelson Mandela e o Arcebispo Desmond Tutu. O primeiro negro nomeado Decano da Catedral de Santa Maria, em Johanesburgo, tinha posição pública de destaque e credibilidade. Conhecido também por considerar o apartheid uma “política diabólica”, propôs à sociedade uma nação de direitos civis iguais para todos, um sistema educacional comum e, por fim, a abolição das leis que limitavam a circulação dos negros e suas deportações forçadas.
Nós não vamos esquecer
| |||
| Foto: Silvia Valim |
A maior parte do dinheiro continua na mão da minoria branca, mas desde 1994, quando ocorreu a primeira eleição democrática no país e Mandela foi eleito presidente, nunca mais houve um governante branco na África do Sul. E a política é, sim, de preferência aos negros. “Seja na reserva de um restaurante ou vaga de emprego”. É o que afirma o professor de língua inglesa, Charles Branon Zuti, morador de Cape Town. Negro, ele não nega a prioridade explícita e embora não concorde, compreende o que ocorre. O que ele chama de uma espécie de compensação do apartheid. “É uma inversão do que ocorreu antes de 1990. Sofremos. Pagamos um preço alto. Temos ainda problemas, desigualdade, violência. Mas agora, sim, nós podemos dizer que os negros estão no poder”.
A camiseta vendida a 120 rands na maioria das lojas de roupas da África do Sul expressa o que está estampado no olhar dos que conhecem a verdadeira história de seu país. “We won´t forget” ou “Nós não vamos esquecer” reaviva a revolta de um povo que quer transmitir o peso da dor para sua nova geração. Vivem à sombra do apartheid.
Desigualdade
Um estudo da Oxfam – Comitê de Oxford de Combate à Fome, entidade de luta contra a pobreza e a injustiça social, presente em 92 países – revelou que a África do Sul é o país mais desigual do G20. Segundo um relatório de 2012 da Organização Internacional do Trabalho, 25,2% da população da África do Sul está desempregada. No país ocorrem em média 28 mil assassinatos ao ano. Dados do Banco Mundial apontam que 34% dos sul-africanos vivem com menos de dois dólares por dia e apenas 5% dos negros sul-africanos conseguem chegar à universidade.
AIDS
Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), 11,8% dos sul-africanos são portadores do vírus HIV, cerca de 5,7 milhões de pessoas. Em 2006, mais de 600 mil pessoas morreram por causa da doença no país. O número é quase do dobro do registrado em 1997. Nas duas últimas décadas, a AIDS matou 17 milhões de pessoas em todo o continente Africano.
<Glossário>
O apartheid, que significa separação, foi um regime de segregação racial adotado de 1948 a 1994 a pelos sucessivos governos do Partido Nacional na África do Sul, no qual os direitos da grande maioria dos habitantes negros foram cerceados pelo governo formado pela minoria branca.





Comentários
Muito Legal...
Muito Legal...
Deixe seu comentário