Mais uma agressão contra o Islã

Teria a divulgação dessa fita alguma relação com a data de 11 de setembro, objetivando manter, entre os norte-americanos, o arquitetado ódio contra os muçulmanos?
20/09/2012
Pode ser coincidência, mas também pode ser um ato bem planejado, a divulgação no “Youtube” de uma produção midiática de péssima qualidade técnica e de conteúdo, visando difamar a religião islâmica. Aparece esta fita na internet no dia 12 de setembro, provocando imediatamente reações de repúdio das comunidades muçulmanas em vários países. Na Líbia, onde o povo foi treinado e estimulado pela OTAN para, facilmente, matar e continuar numa guerra civil até hoje, a revolta à fita foi violenta, culminando com ataque contra a embaixada dos EUA e, lamentavelmente, com a morte do embaixador norte-americano naquele país.
Teria a divulgação dessa fita alguma relação com a data de 11 de setembro, objetivando manter, entre os norte-americanos, o arquitetado ódio contra os muçulmanos? Lembramos que essa foi a campanha republicana, iniciada por Jorge W. Bush em 2001, para se reeleger e conseguir o seu 2º mandato. Ou, seria coincidência este acontecimento, justo nesta fase mais efervescente da atual campanha eleitoral, para a presidência nos EUA? Seria o desespero dos mesmos republicanos, nestes dias, e o interesse em impedir a reeleição de Barak Obama e eleger o candidato republicano? Observamos que precisou de apenas quatro dias, após a divulgação da fita e a reação violenta na Líbia, para que Obama perdesse quatro pontos na pesquisa de opinião nesta campanha eleitoral.
Não vem o caso de apresentar, neste artigo, uma investigação policial para saber quem produziu tal fita, muito menos por qual motivo exatamente. Porém, é inegável reconhecer que foi um dos golpes mais baixos no campo político e geopolítico. É uma prática extremamente antiética agredir a 2ª maior comunidade religiosa no Planeta naquilo que é mais sagrado na sua existência, a sua crença. Os produtores dessa fita, sem perceber, acabaram de revelar a sua total ignorância sobre a fé islâmica. E, ainda, colocaram-se numa situação ridícula, diante de todas as instituições e dos líderes espirituais das demais religiões existentes no mundo, os quais conhecem bem a crença dos muçulmanos. E, pior, em vez de ganhar adeptos, receberam repúdios de todos os setores civis e sociedades que têm contato com a 2ª maior religião abrahâmica, com mais de 1,3 bilhões de adeptos hoje.
Os muçulmanos não devem mais se preocupar com este tipo de atitude de mediocridade, de desonestidade e de falta de ética. Eles devem se manter numa posição moderada e equilibrada, inclusive seguindo o que consta no Alcorão sagrado, na sua Surata 02, versículo 143: “E, assim, fizemos de vós uma comunidade moderada, para que sejais testemunhas dos homens e para que o Mensageiro seja testemunha de vós”. O fato é que a humanidade está vivendo e vivenciando um período crítico, repleto de crises, violências e intrigas, nos quais os muçulmanos estão sendo, frequentemente, atacados e agredidos, desde militarmente até pela grande mídia.
O que os muçulmanos devem fazer? Qual seria a reação correta diante destas agressões e violências? Seria correto responder com a mesma moeda? Com a mesma agressão? Com a mesma violência? O que a crença islâmica ensina para este tipo de situação?
O Islã, além da moderação e equilíbrio, ensina a misericórdia. Deus Disse ao Profeta Muhammad: “Nós não te enviamos a não ser como misericórdia para o mundo inteiro”. A fé islâmica ensina e exige justiça na relação entre indivíduos e comunidades. Na Surata 4, versículo 58, podemos ler: “Por certo, Deus vos ordena que restituais os depósitos a seus donos. E, quando julgardes entre as pessoas, que julgueis com justiça. Por certo, quão excelente é isso, a que Deus vos exorta! Por certo, Deus é Oniouvinte, Onividente”.
Também, o Islã é a crença do perdão, pois na Surata 24, versículo 22 consta: “E que os dotados, dentre vós, do favor e da prosperidade, não prestem juramento de nada conceder aos parentes e aos necessitados e aos emigrantes no caminho de Deus. E que eles os indultem e os tolerem. Não gostariam que Deus vos perdoasse? E Deus é Perdoador, Misericordioso”.
Sendo assim, a resposta dos muçulmanos contra o agressor, obrigatoriamente, deve ter como base duas considerações de suma importância:
A 1º é a necessidade de informar corretamente os não muçulmanos e convencê-los da verdade sobre a sua crença. De informá-los sobre o que é o Islã e qual é a sua relação e interação com todas as demais religiões, em especial o Cristianismo e o Judaísmo, os quais formam uma base sólida da fé islâmica. Grandes capítulos no Alcorão foram dedicados à Virgem Maria, José, Abrahão, Noé e outros, além de centenas de versículos, tratando de Moisés, do povo israelita e de Jesus.
A 2º consideração, como base para os muçulmanos responderem ao agressor, é o trabalho preventivo. Os agressores estão aproveitando da frágil situação dos povos muçulmanos, da sua desunião e fragmentação, dos atritos e conflitos entre as divisões, as quais foram criadas pelos diferentes impérios que dominavam e, continuam dominando, o mundo árabe até hoje. Esses povos devem aproveitar do momento dos atuais levantes populares no mundo árabe, e começar a organizar as suas sociedades, desenvolver os seus países, educar os seus filhos e jovens, formar cidadãos e cidadãs, capazes de contribuir na construção de um mundo melhor, mais justo e mais ético. Aí sim, sociedades fortes e justas serão, preventivamente, protegidas de agressores e de manipuladores da opinião pública.
Acredito, como muçulmano, que exatamente esse seria o perfil de uma sociedade que a fé islâmica espera dos seus crentes: uma sociedade forte, desenvolvida, justa, capaz de contribuir para tirar a humanidade desse mar perturbado com as suas injustiças e imoralidades e, levá-la a uma terra mais segura, mais solidária, mais justa e mais fraterna.
Responder com violência, com ignorância, aumentando mais o caos, é exatamente isso que o agressor espera dos muçulmanos. Agredir para que os muçulmanos caiam na armadilha, respondendo com a mesma violência. É isso que os muçulmanos não devem cometer.
Finalmente, o ditado árabe disse: Hoje a notícia é caríssima; amanhã será de graça. Isto é: chegará o dia no qual o mundo saberá quem é o responsável por esta infeliz atitude e qual é o seu motivo.
Mohamed Habib é vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe. Nasceu no Egito, tendo se graduado pela Universidade de Alexandria. É doutor e livre-docente pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), na qual é professor titular do Instituto de Biologia. Desde 2005 é pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários dessa instituição.
Publicado originalmente no site do Icarabe.


Comentários
Salam Aleikum
Paz esteja com o senhor, professor Habib. Bela análise.
Mais uma agressão contra o Islã
Isto não passa de um golpe do capitalismo judeu contra o Obama e agora contra o governo socialista francês.
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