O que é um herói?

Um herói não é um santo. E Marighella não o era, mantendo-se sempre radical em sua forma de pensar e agir   

04/10/2012

Artionka Capiberibe

 

Assisti ao filme Marighella, um documentário cuidadoso com os dados históricos e plasticamente belo, produzido e dirigido por Isa Grinspun Ferraz, sobrinha daquele que é o personagem central da trama, Carlos Marighella. O filme é instigante, faz pensar no passado, no presente, em ideais, sonhos de um país (de um mundo) diferente, em pessoas ímpares, tantas coisas que um texto só é insuficiente para esgotar tudo, por isso, vou tentar me concentrar no tema do herói. Sendo filha de combatentes da Ação Libertadora Nacional (ALN), cresci ouvindo falar de Marighella, de como enfrentou duas ditaduras; de como queria acabar com as desigualdades sociais; de como sabia liderar outros que tinham o mesmo desejo que o seu; de como era corajoso, forte, envolvente e poeta. Não por acaso tenho um irmão que se chama Carlos, em sua homenagem. Ele sempre fez parte do panteão de heróis da minha família, que inclui, na ordem de primeira grandeza: Che Guevara e Camilo Cienfuegos, este também homenageado como segundo nome do meu irmão Carlos. Marighella é para nós uma espécie de herói particular.     

Fui ao cinema acompanhada de uma amiga, Carmen, para quem Carlos Marighella era pouco conhecido, tendo-lhe sido apresentado apenas na graduação em ciências sociais. A conversa depois do filme, deixou claro que meu herói só era de foro privado por falta de espaço público. Carmen me disse, pegando o gancho nas falas da película: “ele é como Tiradentes, é um mártir, dos tempos recentes, mas ainda desconhecido”. Fiquei pensando no ainda, em quanto tempo AINDA levaria para que ele fosse estudado nas escolas como um herói nacional, desconfio (ou espero) que a mobilização em torno da Comissão da Verdade e da abertura dos arquivos da ditadura possa acelerar este processo, revelando também os vilões da história. Mas aqui quero introduzir a questão que dá título a este texto: o que é um herói? Há várias definições no dicionário Houaiss nas quais nosso personagem se encaixaria. Mas arrisco minha própria definição: herói é alguém que está fora da curva; “feito de outro barro”, como disse um dia um índio do Oiapoque; capaz de inspirar os outros e de ouvi-los; corajoso, altruísta; que consegue enxergar à frente de seu tempo; alguém que não nega as contradições próprias do ser humano (inclusive as suas).    

Mais ainda, um herói não é um santo. E Marighella não o era, mantendo-se sempre radical em sua forma de pensar e agir. Isso aparece no filme em diferentes situações, como na fala de Antônio Cândido contando como fora atacado pela revista Fundamentos, dirigida por Marighella, com o epiteto “trotskista” que, como ele explica, na época era usado como um terrível xingamento e não como uma vertente do comunismo oposta ao stalinismo. E, sobretudo na atuação direta do líder como guerrilheiro, seja assumindo a ação do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, mesmo discordando de sua função estratégica, ou nas chamadas “expropriações das riquezas dos grandes capitalistas” (como assaltos a bancos e ao trem pagador). Seu radicalismo não era, contudo, de um dogmatismo empedernido, pois, se assim não fosse, ele não teria abandonado o stalinismo após saber dos crimes de Stálin. Manteve-se sempre comunista, mas a revolução que aspirava era construída a partir da realidade brasileira e não da importação de modelos outros.  

Parafraseando Cazuza, eu diria que meus heróis não “morreram de overdose”, morreram torturados, exterminados, aniquilados pelas forças do Estado e “meus inimigos [ainda] estão no poder”. Fato incrível, porque hoje no poder está sentada uma ex-guerrilheira. No entanto, ela está cercada pelas mesmas figuras retrógradas de antanho e fazendo um governo que permite o massacre de lideranças populares e indígenas, que, em nome de um duvidoso e antiquado modelo de desenvolvimento, sacrifica o meio ambiente e, com isso, o presente das populações locais e o futuro das novas gerações. O que entristece e decepciona é ver que este governo não incomoda a quem deveria incomodar, é apenas uma reedição moderna do que vem sendo feito há séculos no país, a diferença é que agora sobram algumas migalhas a mais aos mais pobres. Definitivamente, a presidenta não se enquadra na minha definição de herói.   

Contudo, da geração que sonhou e lutou junto com Marighella há ainda muitos vivos, alguns deles presentes no filme e tão personagens deste quanto Marighella. Estes homens e mulheres continuam agindo para mudar o mundo tão injusto em que vivemos, atuando em várias frentes, como: no apoio às mães dos mortos injustamente nas periferias das metrópoles brasileiras; denunciando uma polícia militar sangrenta; brigando pela abertura dos arquivos da ditadura, a apuração da verdade dos crimes cometidos por esta, o resgate da memória daqueles que foram subjugados pelo Estado e a punição dos torturadores; advogando para movimentos sociais, movimentos estudantis e sindicatos; buscando fazer da educação um instrumento de criatividade e transformação; lutando por um desenvolvimento socioambiental e econômico sustentável; pelas chamadas minorias que vivem nos interiores e sertões do país e na Amazônia (ribeirinhos, parteiras tradicionais, índios, quilombolas); e por um Estado mais transparente e menos corrupto.   

Estes são meus heróis, pois acredito que todos precisamos de heróis (até mesmo os mais céticos). A eles dedico este texto.     

 

Artionka Capiberibe é antropóloga, professora da EFLCH-Unifesp, é autora de Batismo de fogo: os Palikur e o Cristianismo (Ed. Annablume). 

Comentários

A fome vem antes da ideologia.

Prezada Artionka. Apesar de crer que você já conhece do assunto que sugerirei, gostaria de reforçar um pouco mais. Sobre sua visão sobre a presidente Dilma, gostaria de sugerir-lhe que desse uma olhada no excelente artigo de Mauro Santayana sobre as decisões de Vargas e Jango ( http://www.conversaafiada.com.br/tv-afiada/2012/10/03/santayana-o-brasil... ) e nos vídeos Confissões de um Assassino Econômico - John Perkins ( http://www.youtube.com/watch?v=rcxRfs0ozF0 ). É só ir puxando o fio ... ( assistir primeiro e deixar o juízo de valor para uma etapa posterior, como na boa pesquisa científica ).Se para Deus uma vida vida vale mais que o mundo inteiro, uma só criança alcançada ( por exemplo ) pelo Brasil Carinhoso que não venha a morrer, é um grande feito ( penso eu ). Algumas migalhas a mais é quase nada para quem tem mais do que isso, mas é tudo para quem não tem nada. Se não me engano, na pirâmide de Maslow a fome vem antes da ideologia.Se no momento só dá para ter algumas migalhas a mais, penso que é melhor isso do que nada.Li em algum lugar que quando a mente ( o pensamento ) se expande, nunca mais volta ao seu "estado" anterior. Imagino que o sofrimento de nossa presidente é infinitamente maior do que quando estava sendo torturada, pois, tendo ( penso ) os mesmos sonhos daquela época, agora tem a noção exata de quanto poder tem a presidência do nosso país. Como diz a Bíblia, é melhor um cão vivo do que um leão morto.Ah! Isso é só uma opinião.Gostei muito do seu artigo. Vou dar uma olhada no filme e história.Abraços.

Bom saber que no Brasil ainda

Bom saber que no Brasil ainda existem pessoas como a Artionka e como o Roberto, inteligentes pontos de vista de um pais que me deixa triste. Continuem assim!!!

Triste perceber que um filme

Triste perceber que um filme dessa envergadura se restringe à algumas salas de cinema; ainda mais considerando a já massiva concentração de cinemas pelo país.

Deixe seu comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Tags HTML permitidas: <a> <em> <strong> <cite> <code> <ul> <ol> <li> <dl> <dt> <dd>
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.

Mais informações sobre as opções de formatação

CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
17 + 3 =
Resolva este problema matemático simples e digite o resultado. Por exemplo para 1+3, digite 4.