Moradia precária na periferia

Família do Jardim Pantanal relata vida na periferia em meio às ameaças de desapropriação

 

05/10/2012

 

Aline Scarso,
da Reportagem

 

Se para o trabalhador continuar morando no centro está se tornando cada vez mais difícil, morar na periferia de São Paulo também não é nada fácil. É o que comprova o casal artesão Verbel Proença Junior, de 37 anos, e Silvia Regina Caetano, de 31, pais de dois garotos de 6 e 9 anos.

 Os moradores do Jardim Pantanal Verbel Proença, Silvia Regina
e seus filhos - Foto: Aline Scarso

Moradores de uma casa de um cômodo em um terreno ocupado no Jardim Pantanal, localizado no extremo leste da cidade, sofrem tanto com a infraestrutura precária quanto com a ameaça de despejo. O terreno em que vivem está localizado em área de proteção ambiental onde deve ser construído o Parque Linear Várzeas do Tietê, projeto do governo estadual que pretende ser o maior parque linear do mundo, com 75 km de extensão e 107 km² de área.

Verbel conta que há dois anos pessoas que se apresentaram como agentes da prefeitura o forçaram a assinar papeis. “E a gente sabe que assinar papel é um passaporte pra um lugar duvidoso, eles podem fazer o que quiser”, afirma.

Nos verões de 2009, 2010 e 2011 a família ainda sofreu com as fortes enchentes que atingiram a região. Em 2010 a residência deles ficou três meses alagada. “A água não ia embora”, contam. A família passou a morar na casa da mãe de Silvia. “A água levou quase tudo, tentei salvar o que dava, mas perdemos fotos, cama, colchão, guarda roupa, um violão e um teclado”, afirma o artesão, estimando os prejuízos em cerca de R$ 4 mil.

“É bem estranho a gente morar aqui desde 2001 e não ter enchentes como daqueles anos. Antes não enchia [a casa], o córrego ficava bem cheio e transbordava na rua, mas só”, relata Silvia. Eles contam que em 2010, muitos moradores do Jardim Pantanal aceitaram a bolsa aluguel ofertada pela prefeitura para deixarem o local. Passaram a viver em lugares mais distantes ainda. Já o casal resolveu ficar e reconstruir a vida. “Ganhamos essa cama, esse colchão, essa cômoda. Continuamos sem o guarda-roupa. Não vale comprar um novo, ficar meses pagando e perder de novo”, destaca a moradora.

Silvia e Verbel estão para finalizar os cursos de pedagogia e serviço social na Unicastelo em Itaquera, onde são bolsistas pelo Prouni (Programa Universidade para Todos) do governo federal. Para ganhar a vida, fazem taças a partir de garrafas de vidro, vendidas por R$ 5 e R$ 10. Tiram por mês cerca de R$ 450. Gastam principalmente com luz, água, mantimentos, telefone. O que mais pesa é a alimentação, segundo eles, em torno de R$ 140 mensais. Por falta de dinheiro, a dificuldade de locomoção é muito grande. “Para ir para a faculdade tenho que me virar, às vezes peço carona ou vou a pé”, diz Verbel.

Para ter acesso a lazer, o dilema da família é o mesmo. “Tem muito lazer gratuito, mas a maioria é longe, então tem que pegar uma condução pelo menos. Daí a gente acaba não saindo muito. Mas quando sobra dinheiro a gente leva os meninos para passearem no centro, leva no centro cultural, no museu”, afirma Silvia. Os filhos também frequentam aulas de Teoria Musical gratuitas em um Centro Educacional Unificado (CEU), mas quando chove precisam ficar em casa. “Não tem como levar porque é uma caminhada muito longa”, explica a mãe.

Apesar da dificuldade, a família não pretende deixar a casa. Mesmo assim, Verbel e Silvia dizem que se organizariam em movimentos de moradia caso sejam despejados. “Pra quem não tem nada, ocupar infelizmente é o que dá pra fazer porque o governo não tá nem aí, não prioriza a moradia apesar de estar na lei”, argumenta Verbel. 

Comentários

Gostaria de agradecer a

Gostaria de agradecer a repórter e a esse importante jornal por ter feito essa reportagem mostrando as dificuldades do povo brasileiro com relação a moradia, emprego e acesso á cultura nesse país. abraços.

Deixe seu comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Tags HTML permitidas: <a> <em> <strong> <cite> <code> <ul> <ol> <li> <dl> <dt> <dd>
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.

Mais informações sobre as opções de formatação

CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
1 + 6 =
Resolva este problema matemático simples e digite o resultado. Por exemplo para 1+3, digite 4.