Após sete anos, prefeitura de SP não cumpre promessa de urbanização de Paraisópolis

Foto: Prefeitura de São Paulo/2009

Cerca de mil famílias aguardam por novas moradias e, segundo o Conselho Gestor dos moradores da comunidade, ainda existe uma demanda de 3 mil unidades

08/01/2013

 

Flaviane Fernandes,

de São Paulo (SP)

 

 

   

   Vista aérea da comunidade de Paraisópolis - Foto: Prefeitura de São Paulo/2009

Em 2005, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), anunciou o investimento de R$ 510 milhões em obras de urbanização em Paraisópolis, segunda maior comunidade da capital, com cerca de 100 mil habitantes. Esse dinheiro, proveniente dos governos federal, estadual e municipal, tinha como principal objetivo a construção de moradias para as famílias de áreas de risco.

Passados sete anos, a Nova Paraisópolis, como é chamada por alguns, está muito longe de ser um bairro. O córrego do Antônico não foi canalizado como era previsto no cronograma das obras e ainda invade casas. A escola de música que seria construída na região do Grotinho só existe no papel. A lentidão da prefeitura, somada à falta de eficiência na execução dos projetos, permite que terrenos desapropriados voltem a serem ocupados. E, hoje, quem visitar o endereço da futura escola de música encontrará centenas de famílias morando em barracos improvisados. Elas convivem com ratos, lixos e esgoto a céu aberto. “Ei fulano, - grita um rapaz para o guia da reportagem - vê se arruma uns venenos de ratos para nós, a coisa aqui está feia”, completa.

Na viela Nova Conceição, uma equipe da Zoonoses da Subprefeitura do Campo Limpo conversa com Rodrigo Rafael Soares Barbosa, 18 anos, vítima de Leptospirose. Desempregado, ele, a esposa e uma filha de um ano não têm para onde ir. A doença que é transmitida por ratos o impediu de viajar para o Rio de Janeiro onde começaria a trabalhar como ajudante de gesseiro. Diante da situação, ele foi ao canteiro de obras que fica dentro da comunidade, mas não foi atendido. “Eles me deram uma fichinha qualquer e não fizeram nada”, desabafou.

Alguns metros à frente, Elizete Gomes da Silva , 47 anos, desempregada, e suas três filhas temem que o barraco onde moram desabe. “Quero sair logo, porque estou com medo de ficar aqui”, diz ela. Seu medo é justificado pela presença de um barranco que pressiona as paredes de sua casa. Com as chuvas, a situação fica ainda mais perigosa. Uma de suas filhas, Paloma de 12 anos, tem pavor dos ratos, chegou a arrumar um gato, mas para o seu desespero o animal não os caça.

A filha mais velha de Elizete, Fernanda Gomes Ribeiro, é casada e mora a alguns metros do local. Seu temor é a água suja que corre constantemente na viela. Ela já contraiu Leptospirose e quase morreu. “Os médicos disseram que eu não podia mais viver aqui, fui até o canteiro e a prefeitura não fez nada”, conta.

 

Aluguel social

Maria Cristina da Silva, 36, auxiliar de limpeza, mora com o seu esposo, Jorge da Silva, de 46, desempregado, e cinco filhos em um barraco na viela Ernest Renan. Segundo ela, as obras da prefeitura realizadas em uma rua próxima ao seu barraco fizeram com que as paredes dele afundassem. Notificada, a prefeitura chegou a dar o auxilio aluguel - um cheque de R$ 2.400, que corresponde ao valor de R$400 por seis meses. Entretanto, o aluguel de uma casa de dois cômodos e um banheiro na comunidade está entre R$ 500 e R$ 600, e, para complicar ainda mais, os donos das casas não aceitam famílias com essa quantidade de filhos.

O jeito encontrado por Jorge, que é pedreiro, foi comprar madeira para reformar o barraco. Ele espera que isso ajude até o recebimento de uma moradia. Sua esposa fez o cadastro. “Eles disseram que não têm previsão para eu receber o apartamento”, relata Maria Cristina. A estimativa é de que mil famílias de Paraisópolis aguardam por moradias. E, segundo o Conselho Gestor (grupo formado por moradores), ainda existe na comunidade uma demanda de 3 mil unidades.

 

O outro lado

A Sehab, Secretaria Municipal de Habitação, foi procurada para se posicionar quanto às questões apontadas na matéria, entretanto, não respondeu ao e-mail enviado nem atendeu às ligações.

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