Drogas e religião

Um pouco mais de espiritualidade cultivada nas famílias, sobretudo em crianças e jovens, e não teríamos tanta vulnerabilidade à sedução das drogas

11/01/2013

 

Frei Betto

 

Participei em São Paulo, em dezembro último, do simpósio sobre crack promovido pelo Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas).

Historicamente, o uso de alucinógenos e outros aditivos químicos teve início em rituais religiosos, como ainda hoje ocorre com a ayahuasca, utilizada pelos adeptos do Santo Daime.

Na descrição que o evangelista Mateus faz do nascimento de Jesus consta que os reis magos (astrólogos?) levaram de presente ao Messias ouro, símbolo da realeza; incenso, símbolo da espiritualidade; e mirra, símbolo do profetismo.

O incenso, utilizado inicialmente no antigo Egito e extraído do tronco de árvores aromáticas, é uma “droga” que reduz a ansiedade e o apetite. Ao contrário do que muitos pensam, não é originário da Índia, e sim das montanhas do sul da Arábia Saudita e da Somália e Etiópia.

A mirra, originária da África tropical, é uma resina obtida dos arbustos do gênero Commiphora. Seus efeitos analgésicos se comparam aos da morfina. No Evangelho de Marcos, aparece, mesclada ao vinho, oferecida a Jesus torturado antes de o crucificarem; ele rejeitou a bebida.

Hoje, as substâncias químicas obtidas de plantas superaram o âmbito religioso e terapêutico e se tornaram iscas à dependência química com suas nefastas consequências, como é o caso da coca, cuja folha é mascada pelos indígenas andinos para facilitar a respiração em regiões de oxigenação rarefeita.

Há ainda a produção de drogas sintéticas e o “doctor shopping”, o médico que produz poderosos analgésicos capazes de provocar a morte de seus pacientes, como foram os casos de Michael Jackson e Whitney Houston.

A repressão ao narcotráfico não mostra resultados satisfatórios. As famílias dos dependentes, desesperadas, buscam internações e terapias “miraculosas”.

Ora, médicos, remédios e terapias podem, sim, ajudar na recuperação de dependentes. O fundamental, porém, é o amor da família e dos amigos – o que não é nada fácil nessa sociedade consumista, individualista, na qual o “drogado” representa uma ameaça e um estorvo.

A religião, adotada em algumas comunidades terapêuticas, pode favorecer a recuperação, desde que infunda no dependente um novo sentido para a sua vida. Eis, aliás, o que evitou que a minha geração, aquela que tinha 20 anos na década de 1960, entrasse de cabeça nas drogas: éramos viciados em utopia. Nossa “viagem” era derrubar a ditadura e mudar o mundo.

Na questão das drogas há que distinguir segurança pública de saúde pública. Sou favorável à descriminalização dos usuários e penalização dos traficantes. Os usuários só deveriam ser afastados do convívio social quando forem uma ameaça à sociedade. Nesse caso, precisariam ser encaminhados a tratamento, e não a encarceramento.

A religião nos mergulha no universo onírico, pois nos faz emergir da realidade objetiva e nos introduz na esfera do transcendente, imprimindo sacralidade à nossa existência. Mais do que um catálogo de crenças, ela nos permite experimentar Deus, daí sua etimologia, nos re-liga com Aquele que nos criou e nos ama, e no qual haveremos de desembocar ao atingir o limite desta vida.

Ocorre que, graças ao neoliberalismo e seu nefasto “fim da história” - uma grave ofensa à esperança -, e às novas tecnologias eletrônicas, às quais transferimos o universo onírico, já quase não temos utopias libertárias nem o idealismo altruísta de um mundo melhor. Queremos melhorar a nossa vida, a de nossa família, não a do país e da humanidade.

Esse buraco no peito abre, nos jovens, o apetite às drogas. Todo “drogado” é um místico em potencial, alguém que descobriu o que deveria ser óbvio a todos: a felicidade está dentro e não fora da gente. O equívoco é buscá-la pela porta do absurdo e não a do Absoluto.

Um pouco mais de espiritualidade cultivada nas famílias, sobretudo em crianças e jovens, e não teríamos tanta vulnerabilidade à sedução das drogas.

Enfim, incenso faz bem à alma.

 

Frei Betto é escritor, autor de “O vencedor” (Ática), romance sobre drogas, entre outros livros.

Comentários

Educação

Oi Frei Betto, antes que nada parabéns de coração pelo teu reconhecimento por parte da Unesco. Nada mais merecido. Olha, sobre o teu excelente artigo, sem nenhuma dúvida seria de uma importância fundamental para todos, que o senhor se aproximasse da obra do grande pedagogo Lauro de Oliveira Lima e que visse ali a necessidade imperiosa de inserir o desenvolvimento da moral no nosso sistema de educação. A aplicação da Dinâmica de Grupo no nosso sistema educativo seria um passo enorme rumo a uma pedagogia que em pouco tempo elevaria ao homem a uma condição moral onde ele jamais seria alcançado por qualquer tipo de aventura negativa. Os atuais conceitos (preconceitos?) da cultura, todos provenientes de um tempo onde os paradigmas formam parte do capitalismo selvagem, virariam pó ante a força de uma nova sociedade inteligente composta de homens sólidos de mente sã, livre. A ciência da educação certamente está esquecida em algum lugar por quem tem interesse em deixar-nos nesse mundo violento, destrutivo e cheio de valores irreais, cheio de valores negativos que temos a obrigação de mudar. E só poderemos mudá-lo com a ajuda dessa ciência educacional. A psicopedagogia com certeza também fará parte desse novo mundo. E a obra do Professor Lauro de Oliveira Lima pode ser determinante nesse processo. Pois é, nele temos um educador brasileiro mais a se destacar num campo onde temos verdadeiros craques. Um abraço Odorico Ribeiro     

dúvida ao autor ou a quem quer que queria me ajudar

Amor é sinonimo de espiritualidade. Quanto mais amor a pessoa tem no peito, mais espiritualizada ela é e, consequentemente, mais ela pode fazer pelos outros. Contudo, o tempo passa e nossas mulheres e homens se voltam, mais e mais, para dentro de seus (mediocres) mundos, o que torna as convivencias e relaçoes dificeis, abrindo gdes espaços vazios nos nossos peitos. Seja por solidão, carencia, ou até mesmo, crises existencias.Agora, o que eu não tenho claro é o que o autor quis dizer com "nefasto 'fim da história' do liberalismo". Se alguem puder me explicar, agradeço desde já. Com certeza fará uma grande diferença na compreensão do texto e da nossa realidade. Uma boa noite a todos. Isadora.

Sobre a criminalização dos traficantes

Frei Betto, de nada adianta descriminalizar o usuário e manter a criminalização do traficante. Na prática, bem sabemos que a maioria esmagadora das pessoas presas como "traficantes" são, na verdade, pequenas traficantes ou mesmo usuárias, todas recrutadas do mesmo grupo social: pobres, pretos, periféricos...Se se quer mesmo avançar, temos que entender a política de drogas atual como instrumento neoliberal de controle e criminalização das periferias (do Brasil e do Mundo) e, a partir dessa percepção política, incluir a descriminalização das drogas na pauta das lutas populares. 

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