2013: o ano dos movimentos sociais?

O ano que se inicia anuncia uma agenda regressiva nos temas sociais, mas também anuncia uma retomada das lutas do movimento social

29/01/2013

 

Cesar Sanson

 

O ano de 2012 foi regressivo quando olhado sob a perspectiva dos movimentos sociais. Nas áreas social, ambiental, econômica e política, a agenda se fez mais de permanências e retrocessos do que avanços.

O ano de 2013 anuncia mais do mesmo. O foco central permanece na economia como meio e fim na estratégia governamental de inclusão social. A concepção do modelo em curso sugere a inclusão via mercado. Já não se trata de um modelo de transformação, via reformas sociais estruturais, mas de aderência à lógica produtivista-consumista e mitigação da pobreza via programas e políticas sociais compensatórias.

A primeira agenda oficial de Dilma Rousseff em 2013 é portadora dessa simbologia. A presidenta começou o ano recebendo alguns dos principais empresários e executivos do país. Dilma optou em começar o ano ouvindo o capital e não o movimento social. Faz sentido. Dilma nunca escondeu que sua prioridade é a economia.

A reunião no dia 10 de janeiro com os pesos-pesados da economia nacional acontece em uma conjuntura de retração do PIB e de ameaças de racionamento de energia. O primeiro ato oficial de Dilma no ano contém um “recado” ao país: o governo não medirá esforços em utilizar todos os instrumentos possíveis para retomar o crescimento econômico, inclui-se aqui a preocupação com a problemática energética.

Não houve e não haverá agenda para ouvir o conjunto dos movimentos sociais. A centralidade e prioridade do governo é a economia: retração do PIB, desindustrialização, equilíbrio fiscal, garantia do superávit primário, metas da inflação, controle da taxa de juros. Como destaca o economista Carlos Lessa, “o Brasil continua fazendo uma política prioritariamente de estabilização, não de desenvolvimento, embora adote o discurso do desenvolvimento”.

A prioridade para 2013 é a economia. A economia em primeiro lugar e a política em segundo – cuidados e arranjos com a base de apoio, manutenção da coalizão dos partidos e agrupamentos que dão sustentação ao governo. Na área do social, a prioridade e ‘menina dos olhos’ da presidenta continuará sendo o programa Brasil Carinhoso.

Temas estruturantes do social como saúde, educação, saneamento, moradia, reforma agrária, demarcação de terras indígenas, questão ambiental, entre outros, estarão presentes na retórica discursiva-política, mas não necessariamente se traduzirão em políticas efetivas de governo. Esses temas entrarão na agenda proporcionalmente à capacidade de pressão do movimento social.

O tema social estruturante de que mais se ocupará o governo será o mercado de trabalho, como manter ascendente a oferta de empregos formais - justificação da prioridade da agenda econômica. Mas, mesmo aqui, é importante o registro de que de cada 10 empregos formais criados nos últimos anos, 9 têm rendimento máximo de 3 salários mínimos. O Brasil, com o processo de desindustrialização em curso, corre o risco de moldar uma estrutura ocupacional fundada no “precariado”, conceito sociológico que dá conta de um contingente enorme da classe trabalhadora permanentemente espremida entre o aumento da exploração econômica e a ameaça da exclusão social.

Há ainda outras duas más notícias: 2013 poderá ser marcado por uma forte ofensiva patronal contra as conquistas trabalhistas – projetos de lei propondo a flexibilização de direitos deverão retornar à pauta do Congresso e o agronegócio ganhará ainda mais força com a eleição do deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB/RN) para a presidência da Câmara dos Deputados. O deputado é um aliado histórico dos ruralistas e recolocará em pauta no Congresso os projetos de interesse do agronegócio.

As reformas estruturais na área do social não se encontram no horizonte da agenda de 2013. Ainda pior, não estão descartados retrocessos. A agenda na economia, na política e no social prenuncia-se conservadora. Dialeticamente, porém, 2013 pode ser o ano de retomada e crescimento das lutas sociais. A impostação da agenda do social poderá vir, por um lado, pela inércia do governo na área e, por outro, pela capacidade de articulação e mobilização do movimento social.

2013 sinaliza para o ascenso das lutas sociais. A CUT planeja para o ano marcha em Brasília diante do alerta de retrocesso na pauta do mundo do trabalho; os professores da rede pública do ensino médio de todo o país prometem greve para os próximos meses; o MST dá indicativos de que irá radicalizar suas ações diante dos resultados pífios da reforma agrária; as organizações indígenas, com a retomada da PEC 215 por parte do agronegócio, deverá intensificar sua mobilização; as lutas urbanas, com as megaobras excludentes da Copa do Mundo, deverão ganhar força; o movimento ambientalista continuará com suas ações tendo como referência os temas da matriz energética e da flexibilização da legislação ambiental.

O ano que se inicia anuncia uma agenda regressiva nos temas sociais, mas também anuncia uma retomada das lutas do movimento social.

 

Cesar Sanson é professor de sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Comentários

Lutas sociais em 2013

Infelizmente, creio que em 2013 continuará a letargia das lutas sociais com amplitude de se contrampor ao projeto social-liberal, impulsionado pelo governo Dilma. isso se dará porque os principais movimentos, ou pelo menos suas principais "lideranças", continuam refém do governo. O caso da UNE é o mais emblemático, mas não o único. O processo de contraposição só poderá vir de outras organizações, como aconteceu com a greve dos docentes nas universidades federais. Nesse caso, a CUT entrou à reboque (para não ficar feio na foto) e assim mesmo, botando panos mornos. 

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