Educar a partir das culturas

Valorizar as culturas afrodescendentes e indígenas é uma dívida moral com comunidades e grupos que sempre foram marginalizados e culturas que, por muito tempo, foram consideradas inferiores e até condenadas como primitivas ou selvagens

24/05/2013

 

Marcelo Barros

 

O Brasil é um país pluriétnico e de grande diversidade cultural. Conforme o censo de 2010 do IBGE, o número de brasileiros que se definem como negros, mulatos ou pardos superou a população que se considera branca. Entretanto, quando se fala em educação, em geral, no Brasil, ela ainda é pensada a partir dos parâmetros europeus e não considera as culturas afrodescendentes e indígenas como fonte que possa enriquecer e trazer sabedoria de vida para todos. Até hoje, a maioria dos livros de história do mundo tem como olhar e perspectiva a cultura e interesse dos colonizadores. Durante séculos, nas escolas do Brasil, se ensinava à juventude os nomes de cidades, rios e acidentes geográficos da Europa, mas não havia o menor interesse em fazer os jovens conhecerem algo da África ou mesmo da América Latina. Até pouco tempo, qualquer estudante de ensino médio sabia onde fica Paris e Londres, mas podia não saber onde se situa Abidjan, que é muito mais próxima tanto geograficamente como culturalmente do nordeste brasileiro. Menos ainda conheciam Kinshasa, na República Democrática do Congo, e Cotonou, no atual Benin. Entretanto, dessas regiões e cidades vieram muitos de nossos ancestrais ou avós dos avós de nossos vizinhos, amigos e parentes. Sem falar no conhecimento dos países irmãos da América Latina.

Neste ano, estamos celebrando o aniversário de dez anos em que o presidente da República oficializou a lei 10.639, de janeiro de 2003. Ela trata da inclusão do estudo da história da África e da cultura afro-brasileira no currículo escolar. A lei 11.645, de março de 2008, incluiu o estudo das culturas indígenas e, assim, veio completar esse processo. Assim, agora temos uma legislação que nos chama a corrigir uma inversão educacional comum em nossa formação. Não podemos continuar a tratar como próximas culturas que sempre se colocaram distantes e se comportaram até agora como diametralmente opostas às nossas, enquanto vemos como estranhos povos e culturas com os quais dividimos experiências de uma história comum e de grande afinidade cultural e humana. Nossos filhos e netos merecem que transformemos isso.

Por outro lado, sabemos que não é a lei que pode mudar a realidade. É preciso uma transformação cultural mais profunda. Apesar dessas leis e da criação de vários centros de estudos africanos e indígenas em todo o Brasil, a educação escolar ainda não absorveu essa proposta pedagógica. Em artigo recente, o Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser) mostra que menos da metade das escolas públicas de todo o país aplicam verdadeiramente a lei. Esse número é ainda menor nas escolas particulares. A pesquisa revelou também que o preconceito contra as religiões de matriz africana é o principal entrave para a abordagem de temas ligados à cultura afro-brasileira. Em todo o Brasil, o preconceito se soma ao desconhecimento e impede até mesmo a simples discussão e aprofundamento do assunto.

Valorizar as culturas afrodescendentes e indígenas é uma dívida moral com comunidades e grupos que sempre foram marginalizados e culturas que, por muito tempo, foram consideradas inferiores e até condenadas como primitivas ou selvagens. No caso das Igrejas, é bom recordar uma palavra de Tertuliano, cristão do século III: “Para quem é cristão, nada do que é humano pode ser estranho”. Muitos crentes associam os cultos afrodescendentes à condenação da Bíblia aos antigos deuses das religiões cananeia, egípcia e babilônica. Não é uma associação justa. A Bíblia rejeitou deuses estrangeiros, cujos cultos serviam de legitimação para impérios opressores, enquanto aceitou e incorporou ao culto javista cultos a divindades locais como o Deus da montanha (El Shaddai), o Deus dos exércitos (El Shabbaot), o Deus da aliança (El Berith) e outros. Jesus apontou a incompatibilidade entre Deus e o dinheiro tido como deus, mas aos discípulos que rejeitavam os samaritanos considerados pelos judeus rígidos como sendo hereges ou idolatras, Jesus afirmou amargamente: “Vocês não sabem que espíritos são animados!” (Lc 9, 56). Quem discrimina pessoas e grupos, principalmente por sua forma de crer e adorar a Deus, não conhece o espirito de Jesus.

 

Marcelo Barros é monge beneditino.

Comentários

Deixa eu ver, Jesus é aquele

Deixa eu ver, Jesus é aquele cara que nasceu do ventre de uma mulher virgem, foi assassinado mas voltou do mundo dos mortos. É nisso que esse cara quer que a gente continue acreditando, em pleno século vinte e um. Será brincadeira ou não entendi direito? Atenção para as sutilezas da postura paternalista: "somos muito pluralistas, desde que continuemos católicos". Em outras palavras: "não somos pluralistas p....nenhuma!" Esse pessoal de igreja acompanha o processo revolucionário até certo ponto, anotem aí, até o ponto em que suas certezas eternas são ameaçadas, então, passam a atuar na contra-revolução. Recomendo algumas sessões de psicanálise para tentar debelar o que Marx chamava de "excessos de sensibilidade à autoridade".

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