O impacto das manifestações de junho na política nacional

As manifestações não foram obra do “povo” ou da “juventude”, e nem esse processo político pode ser caracterizado com uma referência genérica ao “governo” e à “oposição”

 

02/08/2013

 

Armando Boito Jr.

 

Muitas análises das manifestações de junho têm pecado pela caracterização vaga do agente político que as promoveram e imprecisa do processo político no qual se inseriram. As manifestações não foram obra do “povo” ou da “juventude”, e nem esse processo político pode ser caracterizado com uma referência genérica ao “governo” e à “oposição”. As manifestações tiveram como base majoritária uma fração da classe média e o processo político no qual se inseriram encontra-se polarizado entre os programas burguês neodesenvolvimentista, representado pelo governo, e o neoliberal ortodoxo, representado pela oposição burguesa aglutinada no declinante PSDB.

I

As classes médias são um setor social heterogêneo e raramente intervêm de maneira unificada no processo político. A fração da classe média que puxou as manifestações tem alta escolaridade para os padrões brasileiros e viu a sua formação escolar ser depreciada pelos rumos do capitalismo em nosso país. Essa fração não se integrou ao modelo capitalista neoliberal e tampouco se viu contemplada pela reforma que o neodesenvolvimentismo do PT promoveu nesse modelo. Em dez anos de governos petistas, foram criados cerca de 20 milhões de empregos, mas a maioria foram postos de trabalho que requerem pouca formação e oferecem remuneração entre um e dois salários mínimos. O PT afastou-se dessa fração da classe média. Em primeiro lugar, quando, no final da década de 1990, engavetou o seu programa de implantação de um Estado de bem-estar social. Ora, nesse modelo de capitalismo, os diplomas universitários são muito valorizados – propiciam emprego público que remunera e prestigia os profissionais de classe média. Em segundo lugar, o PT afastou-se desse setor quando, aproveitando a oportunidade oferecida pelo chamado boom das commodities, o governo Lula decidiu engavetar também o seu programa de revitalização da indústria interna. O neodesenvolvimentismo do PT era, na sua concepção inicial, industrializante. Porém, diante da janela chinesa, os governos do PT decidiram deslocar para a mineração, para o agronegócio e para a construção civil a política de crescimento. A baixa remuneração dos postos de trabalho criados são o resultado dessa decisão.

Após esse setor de classe média ter desencadeado o movimento reivindicativo pela redução das tarifas de transporte e esse movimento ter adquirido grandes proporções, outros setores sociais puseram-se movimento. As ruas passaram a abrigar movimentos e interesses muito diversos. De um lado, o caráter progressista da revindicação da classe média permitiu a aproximação com movimentos da periferia, que deram a um movimento fundamentalmente reivindicativo a coloração de um protesto popular; de outro lado, o elevado grau de espontaneísmo do movimento permitiu que a mídia, como porta-voz da oposição neoliberal ortodoxa, e a alta classe média tucana tentassem transformar o movimento em um protesto de cunho conservador contra o governo federal. Mas, o movimento seguiu sendo, no fundamental, um movimento reivindicativo e progressista e foi, é bom frisar, vitorioso.

II

O que se ouviu nas ruas foi um grito por “mais Estado”: subsídio ao transporte público, educação, saúde, nova regulamentação da lei do inquilinato. Em julho, quando o sindicalismo operário entrou em cena, o tom continuou o mesmo: imposição legal da jornada de 40 horas semanais, regulamentação estatal restritiva da terceirização etc. Aglutinada em torno da bandeira do “Estado mínimo”, a oposição burguesa neoliberal não tem nada a dizer àqueles que saíram às ruas. O contentamento do PSDB, ao ver o governo federal em dificuldades, está mesclado com o embaraço devido à falta de sintonia do seu programa político com a nova situação. Marina Silva especula com um coquetel que mistura monetarismo, ecologia e um apartidarismo de fachada que flerta com o espontaneísmo do movimento de junho.

O governo federal está diante de uma situação complexa. O seu programa neodesenvolvimentista teria de passar por uma grande reformulação para abrigar o setor dissidente – mas não conservador – da classe média. Retomar o programa de um Estado de bem-estar? Esse caminho pode afastar o PT da grande burguesia interna, que é a força social que tem sido o principal sustentáculo dos governos do PT. Retomar o neodesenvolvimentismo original do PT que tinha por foco a revitalização da indústria? Esse caminho passa por um conflito internacional duro. Existe espaço para o meio-termo, mas a manobra é delicada. É preciso ceder à pressão da classe média e de setores populares sem afugentar os outros integrantes da frente neodesenvolvimentista ou, pelo menos, ganhar de um lado mais do que perderá de outro.

O movimento popular, que foi quem mais saiu fortalecido das manifestações e da grande vitória de junho, poderá tirar proveito dessa situação. Além de dar prosseguimento à luta reivindicativa, poderá assumir a Constituinte para a reforma política como sua bandeira.

 

Armando Boito Jr. é professor de Ciência Política da Unicamp.

Comentários

Classe média

De modo contrário ao Alex, concordo que este seja um movimento da classe média. Esta não foi contemplada em nenhum momento pelos dois governos. O primeiro (PSDB) parece contemplou a classe alta, o "buraco" entre as classes C,D, E e A, B era imenso e diminui no governo PT.Entretanto este mesmo governo, a meu ver populista, melhorou as condições dos mais pobres, mas a classe média sempre ficou sem amparo.Por ganhar um pouco a mais, não foi contemplada em nenhum programa governamental, por outro lado os gastos com educação, segurança, saúde e transporte, uma vez que os serviços públicos oferecidos ou não contemplam a classe ou são inadequados, reduzem o orçamento familiar drasticamente a ponto de pouco sobrar para os gastos com qualidade de vida e lazer.Além de pouco se ter avançado em questões trabalhistas, seja na melhora da oferta de empregos, seja na conquista de benefícios para a classe.Talvez por esses motivos alguns a chamem de a classe dos "remediados". Poderiam ter uma qualidade melhor devido a sua renda, mas não tem pois acabam suprindo as brechas públicas.Nesse contexto, o "mais Estado" talvez tenha o sentido de que o Estado aplique mais empenho na qualidade dos serviços para todos.

Dizer que as manifestações

Dizer que as manifestações tiveram como principal motivo a alta classe media que não se enquadrou no projeto neodesenvolvimentista dos governos PT é desconsiderar toda a mobilização popular e as indignações latentes que afloraram neste processo, é uma leitura que reduz o processo em si. Discordo do professor quando diz que se viu na rua um grito por "mais Estado", ao contrário, a população nas ruas tentando legislar é uma tentativa de democracia direta, e nesse sentido negando as instituições, e isto tem uma importancia política tremenda. Hoje proliferam-se comitês de bairro, caminhando num sentido da descentralização do poder, ocupações de câmaras pelo país afora e pedidos de deposição de governadores, o que no meu entender, no aspecto político caminha no sentido do "menos Estado", e no aspecto econômico pode-se dizer que se pede "mais Estado" no sentido da contraposição dos recursos públicos que hoje são canalizados para a iniciativa privada, que passem para um "bem social", pelo menos no Rio de janeiro. E isto que aconteceu não é novidade, as manifestações e ocupações não são de hoje, acredito que o ponto mais complexo do processo não é sua força impulsionadora, mas sim as proporções que tomou quando se agregaram a grande massa do povo, e os aspectos ideológicos que se assumiu, como o discurso vazio do "contra a corrupção", incentivado pela grande mídia, este ponto é complexo. Também discordo que o movimento seja capitaneado pela classe média, pois o movimento por aqui foi impulsionado por estudantes como os secundaristas, de escolas públicas como o Pedro II, que eu não considero classe média; e universitários, que podem ser oriundos da classe média, mas não estão no mercado de trabalho, e não estão produzindo e nem recebendo, então reproduzem um status quo de classe média apenas em parte. Está, pelo menos, é a minha opinião.

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