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O eixo da programação do Festival Brazil, em Londres, se manteve numa linha já conhecida: o apelo tropical, o Brasil litorâneo, colorido, praieiro

 



20/08/2010

 

Aleksander Aguilar

 

Primeira reflexão necessária para se falar sobre cultura brasileira no exterior: qual Brasil vamos abordar? Tarefa monumental, tão grande quanto o risco de se deixar de lado, proposital ou descuidadamente, alguns aspectos determinantes da própria diversidade; essa que conforma, paradoxalmente, uma das características mais celebradas, já quase também estereotipadas, do universo chamado Brasil.

 

Com esse desafio presente, o prestigioso Southbank Centre, de Londres, promove um dos maiores e mais importantes festivais sobre cultura brasileira já realizados no Reino Unido. O Festival Brazil começou na metade de junho e só termina no começo de setembro. E tem a ambição de ser o evento organizado por instituições britânicas capaz de captar e refletir o que o Brasil está pensando e fazendo hoje.

 

E pese o esforço por representar a pluralidade e fazer valer o rótulo de multicultural que tanta atenção internacional atrai para o Brasil, o eixo da programação se manteve numa linha já conhecida, portanto, segura: é o apelo tropical, o Brasil litorâneo, colorido, praieiro. São mais de 70 eventos em forma de concertos, debates, exposições, palestras, filmes e performances, num dos mais renomados centros culturais da Europa, com a presença de ícones como Gilberto Gil e Maria Bethânia.

 

 

Sol-samba-futebol

Mas eis a equação sem solução: o trinômio sol-samba-futebol, que povoa o imaginário da percepção estrangeira sobre o Brasil e conforma um clichê do qual muitas vezes o próprio país não quer se afastar, ainda serve de linha-mestra da representação cultural brasileira no exterior.

 

A grande variedade, indiscutivelmente cheia de qualidade, dos eventos do Festival Brazil flertam com o badalado multiculturalismo brasileiro no que diz respeito às diferentes formas de representação artística, mas não do seu conteúdo. Está a Tropicália e o reconhecimento aos monstros sagrados que revolucionaram a arte brasileira; a batida de Mart´nália; uma sessão inteira dedicada ao AfroReggae e até um debate com a lenda do futebol, Sócrates. Estão presentes aqueles que fazem o cartão postal do Brasil: o Rio de Janeiro e seu samba, seus morros; a Amazônia, a Bahia, Pernambuco, favelas, maracatu, capoeira, e até os dilemas da violência urbana e as “criativas” formas brasileiras de enfrentá-los.

 

Para além dos trópicos

O que não está é o Brasil que não se vende nas agências de turismo. Um evento cultural internacional dessa dimensão não pode arriscar uma abordagem muito desconhecida. A proposta de descobrir o que o país faz e pensa hoje não se aventura para muito longe do mar e, portanto, não pode, necessariamente, ver o Brasil inteiro.

 

O rural, o sertanejo, o bucólico, os pampas e tudo o que conforma o Brasil do interior não costumam figurar. Menos ainda o Brasil sulista – com suas intersecções e intercâmbios com os povos castelhanos do Rio da Del Plata – pois o frio e o cinza não podem ser brasileiros, a arte brasileira é tropical.

 

A própria diretora artística do Southbank Centre, Jude Kelly, apresenta o evento falando do Brasil através de três cidades – São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro –, e sobre a capital carioca suas impressões são sintomáticas: “Praia, céu e mar fazem com que nesse lugar a busca por prazer seja uma questão inevitável, senão de princípio. Quando estive lá, eu revisitei a palavra hedonismo, uma noção articulada pelos antigos gregos como a celebração ao prazer. (...) O Rio me fez entender a generosidade e o valor que o compartir prazer pode oferecer”.

 

Uma iniciativa de mérito, ainda que igualmente centrada na produção daquilo que vem da geografia tropicalizada brasileira, foi a inclusão simultânea de uma programação exclusiva sobre literatura brasileira no Festival Brazil e no London Literature Festival. O Brazilian Words é uma expressão de reconhecimento da produção escrita do país e trouxe a Londres nomes como Milton Hatoum, os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, Ana Maria Gonçalves, Maria Valéria Rezende, Patricia Melo e, ainda, Arnaldo Antunes.

 

A arte de Arnaldo é articulada de maneira multimidiática e intersemiótica. Em Londres, ele se apresentou como performer, mais poeta do que músico, acompanhado de Marcelo Jeneci e de uma série de recursos materiais que justificam que ele seja chamado de “artista que desafia os gêneros de arte”.

 

 

Ritmos do sertão

Pode-se dizer que nosso ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, também buscou fazer a sua parte nessa possível ampliação de percepções sobre o Brasil durante o festival. Em seu show, no dia 21 de julho, Gil avisou que só tocaria composições novas, em homenagem aos ritmos do interior do Nordeste, e assim foi. Xote, forró e baião tocados na sua guitarra, entre passinhos e pulinhos que não revelam que Gil já é quase um septuagenário, estiveram acompanhado de instrumentistas como o francês Nicolas Krassik e Sergio Chiavazzolli. É certo que o baião, desde sempre, influenciou o tropicalismo de Gil, mas um tributo direto a esse ritmo permitiu que Luiz Gonzaga e Dominguinhos também fizessem sua aparição em Londres.

 

Ainda no âmbito da música, também é digno de nota a participação daqueles que estão, por assim dizer, duplamente fora do eixo. O nome no festival, que não está no panteão dos medalhões da arte brasileira, é o grupo Porcas Borboletas, que abriu o show dos Mutantes. A banda é ainda pouco conhecida e não é proveniente do Rio ou São Paulo, nem mesmo de Pernambuco, para onde muitas das atenções à música brasileira em nível internacional estão voltadas atualmente.

 

Uma expressão musical fora do litoral, os mineiros do Porcas Borboletas fazem rock com irreverência e letras inteligentes, inspirados em nomes como Arnaldo Antunes e Arrigo Barnabé. O comportamento de palco, porém, parece algo desorientado, com uma proposta performática em que a irreverência gratuita muitas vezes não se encaixa na musica, mas o estranhamento que essa conjunção causa é certamente provocador.

 

 

Problemas sociais

O Festival Brazil, diga-se com justiça, tratou de reconhecer que o país, apesar da sua crescente economia e relevância no cenário mundial, ainda enfrenta ameaçadores problemas sociais. Nesse sentido, o evento buscou discutir o Brasil também através de debates com intelectuais e ativistas que pensam o país com o olhar direcionado para o papel que a cultura pode desempenhar no desenvolvimento da sociedade brasileira.

 

O ex-secretário Nacional de Segurança Pública, o sociólogo Luiz Eduardo Soares, autor do livro que virou o filme “Tropa de Elite”, foi destaque do evento que pautou a violência urbana no país. Em debate com diretora da organização britânica Kids Company, Camila Batmanghelidjh, e com o diretor da People´s Palace Project, Paul Heritage, em que o conceito predominante foi a invisibilidade social, Soares fez questão de deixar claro uma opinião: “se o Brasil quer merecer realmente o título de país democrático, ele terá que transformar profundamente suas forças policiais”.

 

A intenção de revelar o espírito do Brasil, como pautado pelos organizadores, numa das cidades mais cosmopolitas do mundo, através de um festival de tamanhas proporções e com a presença de artistas de alto calibre, é, sem dúvida, genuína, mas falta explicitar que esse é o espírito de um dos vários “brasis” que coexistem no mesmo corpo territorial.

 

O Reino Unido pode estar descobrindo um Brasil, aquele dos trópicos, mas o país também tem outras almas de outras cores, posturas e expressões artísticas que igualmente se encontram nessas permanentes sessões de sincretismo cultural que é o Brasil e que não acaba na sua ampla faixa litorânea.

 

Aleksander Aguilar é jornalista, licenciado em Letras e mestre em Estudos Internacionais

 

 

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