Enchente destrói cidades da zona da mata mineira

23/12/2008Padre Antônio Claret FernandesDia 17 de dezembro, a fúria do rio Piranga deixou umrastro de destruição nas cidades de Ponte Nova e Guaraciaba, Zona da Mata deMinas Gerais, na maior enchente já registrada nessas cidades, que passaram porrigorosas cheias na década de 50, em 1979 e em 1997. Em Ponte Nova, as águas subiramonze metros. Mesmo com a intensificação dos alertas nas rádios locais, grandeparte da população foi pega de surpresaDe acordo com Flávia Pereira, militante do Movimento dosAtingidos por Barragens (MAB), “após as enchentes, a cidade ficou um caos, muitospertences das famílias ainda estão espalhados pelas ruas. Foi horrível econtinua terrível. E muitos comentam que a enchente tem a ver com as águas dabarragem da Brecha’.Após a enchente, Ponte Nova conta seus prejuízos. GílsonJosé de Oliveira relata que cinco pontes foram interditadas, sendo que a maisantiga, próxima ao Banco do Brasil, principal ligação para quem chega de BeloHorizonte, ficou seriamente comprometida, tendo seus apoios de cabeceiraarrancados e formando uma enorme cratera onde era a Rua Arthur Bernardes. A únicaponte transitável ficou sendo a do bairro Triângulo. Trinta casas foram destruídas,levadas nas águas, deixando um total de 544 desabrigados e 4.070 pessoasdesalojadas.Casas invadidas pelaáguaOutro prejuízo enorme foi o comércio local, pois o eixocentral foi todo tomado pelas águas, invadindo todo o comércio da AvenidaAbdala Felício, Custódio Silva, Arthur Bernardes e Vila Centenário, onde todasas casas foram invadidas. O Asilo Municipal, que fica nessa região, foitransferido para o Colégio Municipal. Seis bairros continuam isolados, sendoque alguns, como Copacabana, ficaram totalmente destruídos, sem passagem, semrua, sem água. Outros atingidos: Vila Oliveira, Triângulo, Santo Antônio, Rasa,Distrito do Pontal e Vila Centenário. O prejuízo ultrapassa os 10 milhões dereais. Desde o dia 18 falta água no município, pois a captação de água do DepartamentoMunicipal de Água Esgoto e Saneamento (Dmaes) foi interrompida, danificada,sendo que só agora vai sendo recuperada aos poucos. Foi decretado Estado deEmergência e há três dias, membros do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil do Estadoestão na cidade, realizando levantamento para decretação de calamidade pública.Em Guaraciaba, a fúria do rio não deixou por menos. 60% dacidade ficou inundada durante três dias, com ruas e praças debaixo d’água, atingindo 300 famílias. Boa parte ficou semágua e energia. Um atingido desabafou: “nunca vi uma enchente tão grande.Levantei os móveis até o teto achando que a água não chegaria àquela altura,pois em 1979 ela passou pouco acima da janela. Mas dessa vez ela chegou até a lajeda casa. Perdi tudo, saímos apenas com a roupa do corpo”.SolidariedadeÉlcio Mendes, morador em Guaraciaba e militante do MAB,destacou a solidariedade entre as pessoas, “que dividiam tudo que era seu comelas, ajudando no socorro, abrindo suas casas e acolhendo os atingidos comcarinho”. E disse que a empresa Novelis tem responsabilidade nessa tragédia,pois “a barragem da Brecha causa o assoreamento do rio e faz a água subir maise ficar mais tempo. Ela deveria ao menos ter prestado socorro à população”. DonaMaria da Silva Gomes afirma nunca ter visto enchente igual. Na enchente queteve aqui em 1951 [ antes da barragem, construída em 1958], ela não chegou aatingir tanto quanto agora. A usina da Brecha depois de feita acabou com tudo”,relataToda essa tragédia seria mais um caso de São Pedro nãofossem suas características específicas, que evidenciam a vinculação diretadessas enchentes com a intervenção ambiciosa e irresponsável de empresascapitalistas na região. A fúria do Piranga não é, como anunciam, um problema deSão Pedro, mas do modelo capitalista de desenvolvimento, dramaticamentepredatório.Há 50 anos, em 1958, foi construída a barragem da Brecha,uma usina hidrelétrica implantada entre os municípios de Guaraciaba e PonteNova, para alimentar a indústria de alumínio da Alumínios Canadenses (Alcan)- em Saramenha, na histórica Ouro Preto.Essa transnacional com sede no Canadá hoje virou Novelis. Depois da construçãodessa barragem, em maior ou menor grau, as enchentes castigam principalmente ascidades de Ponte Nova e Guaraciaba todos os anos. Volume de águaEm Guaraciaba, o rio, que foi represado lobo abaixo,passou a ser lento e, no período das chuvas, o grande volume de água não temcomo escoar, o que faz a água subir mais e ficar por um tempo maior. A águaancorada num tempo maior provoca estragos também maiores.Em Ponte Nova, a correnteza da barragem toma dimensões catastróficasquando a Brecha, por medida de segurança, abre a sua comporta. Moradores daregião de Casa Nova reclamam sempre dessas águas repentinas, principalmente naépoca da chuva. E já denunciaram que inclusive, anualmente, costuma acontecermortandade de peixes, quando Brecha libera, via comporta, uma água barrentapara limpeza do lago. Graças a isso, provavelmente, a hidrelétrica continuagerando a mesma quantidade de energia, desde sua implantação há cinqüenta anosaté hoje. Barragem esgotadaPadre José Geraldo, pároco na Paróquia Santana, emGuaraciaba, contou que, na localidade chamada Ubá, 5 km abaixo do muro da barragem daBrecha, havia muito barro na estrada, numa altura de um metro e numa extensãode 100 metros. A impressão é que a barragem foraesgotada durante a enchente, contou ele. Muito provavelmenteas águas violentas da noite do dia 17 têm a ver com esse dispositivo da barragemda Brecha. Tanto isso é verdade que outras cidades cortadas pelo mesmo RioPiranga - que passou com tanta fúria em Ponte Nova e ancorou suas águas, inundando Guaraciaba-, como é o caso de Piranga, Presidente Bernardes e Porto Firme, os problemasforam infinitamente menores.Se depender das empresas privadas ou estatais,transnacionais ou nacionais, entre elas Novelis, Vale, Brascan, Cemig, Copasa,Energisa; da política de cunho neoliberal dos governos federal, estadual e degrande parte dos municípios alinhados; se depender desses, a questão dastragédias com enchentes tende a piorar em Minas Gerais. Governos e empresas só enxergam cifrões; o fator econômico éo critério determinante no direcionamento dos investimentos, em detrimento doscritérios ambiental e social. Mais barragensEm um pequeno trecho do Rio Piranga, entre os municípiosde Guaraciaba e Ponte Nova, a Novelis tenta implantar à força, com a conivênciados órgãos ambientais do Estado de Minas Gerais, mais quatro barragens. Abaixode Ponte Nova, as correntezas das águas, que evitavam uma inundação ainda maiornessa cidade, já foram dificultadas com a construção da barragem de Candonga,implantada num Consórcio entre a Novelis e a Vale. Para complicar ainda mais asituação, empresas como a Brasncan, transnacional canadense, tentam implantar,a todo custo, as barragens de Baú e Pontal, cujos lagos ficarão muito próximosde Ponte Nova e comprometerão, em definitivo, a permanência da cidade onde estálocalizada hoje. A inflação da construção desordenada debarragens hidrelétricas no Estado é tão grave que, em decorrência dos lucrosexorbitantes, apenas na região do Vale do Piranga e entorno, num raio não maiorque 100 km, já existem sete barragens e mais onze estão projetadas. Em Minas Gerais, sãoaproximadamente trezentos e trinta projetos de barragens.A responsabilidade por essas tragédiasambientais, particularmente em Guaraciaba e Ponte Nova, não é apenas daganância de governos e empresas capitalistas do setor elétrico. É também dasmineradoras, pois, de acordo com a observação da população local e deespecialistas, a exploração desordenada de minério vem contribuindo com o assoreamentodos rios. As enchentes de Muriaé, por exemplo, também localizada na Zona daMata, estão diretamente ligadas à exploração de minério naquela região. O casomais trágico foi o rompimento da barragem de rejeito da empresa Cataguases, emjaneiro de 2007, ligada ao Grupo Votorantin, no município de Mirai, cuja lamaficou em grande parte depositada no leito do Rio Pomba. Os rios assoreadostransbordam muito mais com um volume menor de água.Por fim, essas enchentes na Zona da Mata têm a ver com otipo de uso e ocupação do solo em nossa região. O Pacote Tecnológico da RevoluçãoVerde promovida por políticas governamentais nas décadas de 1960 e 1970contribuiu significativamente para a deterioração ambiental, com perda debiodiversidade, desmatamento, erosão. Nessa região montanhosa com predomínio tradicionalda monocultura da cana de açúcar e, mais recentemente, de extensas pastagens eplantio de eucalipto, mineração, o solo, cada vez mais, deixa correr a água daschuvas, provocando baixíssimo volume de água nos córregos e rios nos períodossecos e grandes enchentes no período chuvoso.As enchentes, tratadas como um problema de São Pedro oudas zonas de convergência do Atlântico Sul, com precipitação de um maior volumede chuva, são, na verdade, o resultado das intervenções irresponsáveis, ligadasa um modelo capitalista de falso desenvolvimento.Padre Antônio Claret Fernandes é militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

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