Sobre a carta do Encontro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz

Citando o Documento de Aparecida, afirma: é necessário “que dediquemos tempo aos pobres, prestar a eles amável atenção, escutá-los com interesse, acompanhá-los nos momentos difíceis, escolhê-los para compartilhar horas, semanas ou anos de nossas vidas, e, procurando, a partir deles, a transformação de sua situação”

07/11/2013

Fr. Marcos Sassatelli

Nos dias 5 e 6 de outubro aconteceu em Goiânia o 24º Encontro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil. A Carta Final - dirigida aos irmãos e irmãs da Família Dominicana do Brasil - começa dizendo: “como irmãos e irmãs de caminhada pela construção da Justiça e Paz, nós, as 66 pessoas participantes deste Encontro, vindos dos Estados do Maranhão, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Tocantins, Pará, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Goiás, nos reunimos (...) para refletirmos sobre nosso trabalho de base e a articulação das ações de Justiça e Paz”.

O Encontro foi assessorado pela Irmã Pompea Bernasconi, religiosa das Irmãs de Nossa Senhora Cônegas de Santo Agostinho. A Carta, logo no início, afirma: “fomos convidados/as a abrir nossos ouvidos, nossos corações e todo nosso sentimento aos anseios e sofrimentos do povo”. Depois pergunta: “mas, qual a melhor maneira de se ouvir com nitidez? E a resposta é: “a melhor forma de ouvir é estar bem próximo das pessoas, olho no olho, ‘sentindo o cheiro das ovelhas’, tocá-las”.

A Carta nos lembra que “este foi o método de Jesus. Este deve ser o nosso”. Citando o Documento de Aparecida, afirma: é necessário “que dediquemos tempo aos pobres, prestar a eles amável atenção, escutá-los com interesse, acompanhá-los nos momentos difíceis, escolhê-los para compartilhar horas, semanas ou anos de nossas vidas, e, procurando, a partir deles, a transformação de sua situação” (397).

Por isso - continua a Carta - “fizemos, em forma de mutirão, uma análise da conjuntura atual para sentir o que o mundo, o país, a cidade, a comunidade estão dizendo. ‘Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!’”.

Nesta análise “foi dada ênfase às manifestações que tomaram as ruas, neste ano”. Perguntamos: “em tempos de crise de trabalho de base e dificuldades mil em mobilizar o povo, como explicar essa ‘explosão de manifestações’”?

Constatamos que “as explicações foram inúmeras e diversas. Mas, o fato delas terem partido de necessidades concretas (o transporte coletivo, e outras), sem iniciativa específica nem de Partidos Políticos, nem de Igrejas (diferente do que acontecia nos anos 70 e 80), elas têm muito a nos dizer. É necessário ouvi-las com atenção”!

Do lado eclesial, constatou-se: “surpreendentemente, há esperanças que vêm de Roma, mas com muitos retrocessos nas Igrejas Locais”.

Enfim, tivemos a fraterna e sábia visita do Frei Humberto, que, vindo em cadeira de rodas, fez questão de nos lembrar: “Vocês são profetas de Deus, profetas da vida”. Perguntamos, pois: “como fazer que nossas instituições eclesiais recuperem a profecia, carregando a bandeira dos anseios que vem dos gritos das ruas”?

A Carta reconhece que do Encontro “brotaram desafios e orientações significativas”. Foram assim sintetizados:

  1. “Precisamos encontrar a porta de entrada para nosso trabalho, diminuir a distância física da base. Conhecer as necessidades sentidas pelo povo. Nem sempre o que eu/nós penso/pensamos é o que povo quer; ouvir seus sonhos, desejos, esperanças, lutas, conquistas. A partir daí, conhecer suas potencialidades, despertar para a defesa e a promoção de sua dignidade e anunciar outro mundo possível, viver a solidariedade;
  2. Fomos provocados/as a nos deter na questão da mulher, que é a verdadeira protagonista no trabalho de base, mas ao mesmo tempo discriminada na sociedade e na nossa Igreja. Se na sociedade, ela vai encontrando seu espaço, mesmo que isso não atinja todas as classes, alcançando o cargo máximo na República, por que em nossa Igreja continua tão fora das instâncias de decisão (as mulheres fortes na base e fracas na hierarquia)?;
  1. Não existe trabalho de base à distância, nem por telefone ou internet, nem só nos finais de semana;
  2. Fazer com o povo, e não para o povo ou pelo povo;
  3. Formar lideranças (que pensem na comunidade) e não líderes individuais (que querem se projetar);
  4. Lutar para conseguir um objetivo de cada vez e ir celebrando as pequenas vitórias;
  5. Descobrir novas praças, novas bases, para construir, a partir das ações de Justiça e Paz na ótica dos Direitos Humanos, o outro mundo que sonhamos, e que é possível e urgente.
  6. Recuperar o Jesus histórico, como condição fundamental para o trabalho de base.
  7. Celebrar o Jubileu dos 25 anos de nossa caminhada, garantindo a memória crítico-propositiva”.

A Carta termina dizendo: “agradecidos pela riqueza do Encontro, iniciamos o processo de preparação para o próximo” e estamos “cientes de que o próximo ano (2014) será marcado por comemorações importantes para toda nossa Família Dominicana: 25 anos desta Comissão de Justiça e Paz, 40 anos do martírio de Frei Tito e 500 anos da conversão de Frei Bartolomeu de Las Casas”.

Conclui, fazendo um convite: “a caminho da celebração de 800 anos de caminhada dominicana, convidamos toda a Família Dominicana do Brasil, as pessoas, Comunidades, Movimentos Sociais Populares e outras entidades parceiras a participarem de nosso 25° Encontro (Jubileu de Prata da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil) nos dias 21 e 22 de novembro de 2014, com a participação especial de Frei Timothy Radcliffe, ex Mestre da Ordem Dominicana”.

Desejando que a Família Dominicana do Brasil seja, em sua missão apostólica, sempre mais “profética”, os participantes saudámo-nos com “abraços fraternos e sororais”.

Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano é doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP). Também é professor aposentado de Filosofia da UFG

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