Histórias: receita para a humanidade

Arquivo Pessoal

Narrar e ouvir histórias pode melhorar a vida de todos


17/03/2014


Maíra Gomes
Belo Horizonte (MG)


Era uma vez uma casinha de barro lá no alto da serra. Flores de toda sorte coloriam as janelas brancas, de onde se ouvia um bela voz. A fumaça saída da chaminé não espantava os pássaros, que adoravam visitar a moça que ali vivia. Seu nome era... 

Os contadores e narradores sempre existiram. “É uma coisa tão ancestral, de tanto tempo, que já faz parte do nosso trajeto humano. É uma forma muito antiga de unir as pessoas, passar informações e experiências, de viver aventuras, desde que o mundo é mundo”, declara Rosana Mont’Alverne, contadora de histórias há mais de 25 anos e fundadora do Instituto Cultural Aletria. 

Rosana explica que as histórias têm o papel de criar a identidade de um povo e resgatar sua raiz cultural. As histórias provocam sensações e emoções que devolvem a humanidade, a noção de identidade coletiva, de algo em comum entre as pessoas. Para ela, o mundo globalizado impõe uma padronização naquilo que faz uma pessoa sentir, como os sabores, imagens e sons. 

Com tudo parecido onde quer que se vá, o homem se distancia das emoções, se distancia daquilo que o faz ser “gente”. “O homem se perdeu, ao mesmo tempo que encontrou um monte de possibilidades, que uniformizam o planeta. Ele esta atônito e assim foi empurrado a participar dessa padronização. E como toda grande ação, há uma reação contrária. E essa reação aparece com os contadores”, diz Rosana. 

Resistência Cultural

Guimarães Rosa disse certa vez “Narrar é resistir”. De acordo com a contadora, a narração ou contação de histórias passou por um fenômeno de forte crescimento no meio urbano desde o fim da década de 1980, como forma de resistência à padronização. As palavras estão tomando vida em escolas, bibliotecas, praças públicas, livrarias, por meio dos contadores, que se tornam artistas da palavra. “De uma forma misteriosa, as histórias têm o poder da cura”, acredita Rosana.  

A contadora acredita que as pessoas têm parado para ouvir mais histórias, em busca de si mesmas. “Tanto o narrador quanto quem ouve estão buscado sua raiz. E ela faz uma viagem, que é a sensorial”, aponta. Rosana chama atenção para as memórias, lembranças de infância ligadas a um cheiro, um sabor ou textura. Sensações que vão adormecendo ao longo da vida e que são retomadas a partir de histórias. “A pessoa vai recuperando os sentidos, se lembrando de quem ela era, de onde veio, o que quer, o que está fazendo. A história tem o papel de ressignificar a vida no mundo moderno”, conclui. 

Quem conta um conto, aumenta um ponto de vista

“Quando fomos apresentar em um centro de liberdade assistida para jovens, a diretora me avisou que os meninos não iam se interessar ou prestar atenção. Mas, na hora, todos ficaram em silêncio. Ao fim, um deles levantou a mão e disse que descobriu que estava com dor de dente. Tem coisas que só são percebidas quando paramos, e é difícil parar nos dias de hoje”, conta a narradora Aline Cântia.

Há sete anos ela trabalha com narração em parceria com o músico Chicó do Céu, viajando o Brasil e países da América Latina recolhendo causos, contos e histórias tradicionais e as repassando entre as diferentes culturas. Ela acredita que faltam espaços para que as pessoas se voltem para elas mesmas. “Estamos recebendo informação o tempo todo e não acumulamos experiência ou paramos para sentir. Quando paramos, damos valor a isso”, destaca. 

Formada em Psicologia e Teatro, Adê Melo, que trabalha apenas com crianças, faz a contação através de sua personagem Maria Clara, que saiu de um livro e agora tem a missão de recolher histórias e brincadeiras, que guarda em sua mala. Para ela, a história é um pretexto para a ação, para que a criança use o corpo. “Essa geração está imersa na tecnologia e as histórias podem trazer o frescor da relação. Uma relação intermediada através de uma mala, uma pedra, uma maquiagem diferente que coloco. O ponto primordial é o contato, estar ali e olhar nos olhos. O que busco é colocá-las pra serem seres ativos, voltarem à essência da infância”, conta. 

A contadora Aline Medeiros escolheu trabalhar com música e faz parceria com Túlio Rocha em escolas, bibliotecas, livrarias e até em asilos. Ela acredita que a contação é uma importante ferramenta de formação de leitores. “Depois a criança quer saber os detalhes da história e nós apresentamos o concreto, o livro. Ela quer ter o seu próprio contato, buscar a sua interpretação”, diz. 

Citando Paulo Freire, Aline acredita que não é difícil fazer alguém se apaixonar pela leitura. “O autor diz que todos somos bons leitores, mas ainda não descobrimos qual nosso livro preferido. A criança precisa apenas descobrir qual é a sua história”, declara. 

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