"Nosso modelo não é comunista, mas comunitário"
13/07/2009ViniciusMansurCorrespondenteemLaPaz (Bolívia)O atual processopolítico boliviano, sem dúvida alguma, estáentre os que mais despertam o interesse da esquerda brasileira. Oelevado grau de protagonismo dos movimentos populares na políticanacional, o simples fato do país ter elegido um presidenteindígena, os embates acirrados com uma elite racista – quefazem de um golpe de Estado uma possibilidade plausível –,as lutas internacionais para garantir a soberania sobre seus recursosnaturais, a forte presença do componente étnico comomotor de mobilização, as mudanças feitas naConstituição de um país que agora se define comoEstado Plurinacional, entre outros elementos, atraem os olhares paraa Bolívia e a credenciam como um dos principais laboratóriospolíticos da atualidade.A originalidade quecompõe este processo político, porém, tornadifícil a sua compreensão a partir de análisesclássicas. É difícil até sistematizar adiversidade de organizações que fazem frente aosgrandes capitalistas do país, o que dirá compreenderqual o projeto move cada uma delas. Se olharmos só para omovimento indígena, deixando de lado outros movimentospopulares, o sindicalismo e a organizações partidárias,veremos uma organização massiva e multifacetada,composta por culturas que nasceram, pelo menos, cinco mil anos antesdo pensamento moderno ocidental. (O plurinacionalismo bolivianoreconhece 36 povos originários). A entrevista a seguir, com ointelectual aymara Fernando Huanacuni, é só uma amostradesse mosaico político boliviano.Brasilde Fato – Durante um seminário sobre culturas originárias,você disse que vivemos ”tempos de mudança” e queessa mudança não é só política,mas muito maior. Do que você está falando?Fernando Huanacuni –O pensamento indígena originário, não sóda Bolívia, mas de outros países, como os povosamazônicos do Brasil, tem a mesma explicação, amesma projeção da história. A vida tem ciclos.Termina a noite, começa o dia. Em um ano, existem épocassecas, épocas de chuva, épocas de frio. Mas esses sãociclos pequenos. Existem ciclos muito maiores, que o indivíduonão se dá conta porque vive somente 80, 90 anos. E osciclos são de 500, de mil, de quatro mil, de 20 mil, de 40 milanos. Um sol tem um ciclo de quatro mil anos de história,sendo dois mil anos de ascenso e dois mil anos de descenso. Assim,existem os dias da história e as noites da história. Oascenso é o dia da história, o descenso é anoite da história E, para nós, em 1992 (que nocalendário aymara corresponde ao ano 5500), terminou um sol.Então, a história vai voltar a ascender.Mascomo ela vai voltar a ascender?Nossos avós, dediferentes culturas indígenas, sabiam desses ciclos, dorenascimento do sol, por isso começaram a se organizar. Em1992, diferentes povos se reuniram para poder começar essenovo sol. E as culturas antigas guardaram, sobretudo, valores eprincípios, e isso é o que agora estárenascendo, porque é necessário, é questãode vida, não somente algo político ou social. Apesar daparte política ser a que mais se vê, a parte espiritual,as oferendas, as cerimônias, é que são a basefundamental de toda a força política, social ,jurídica, econômica, educativa.Masessa organização alavancada a partir de 1992, essesvalores e esses princípios fazem parte hoje da cultura vivadesses povos?Nos anos 1980, quandoíamos para o Willkakuti (o ano novo aymara) em Tiwanaku,éramos poucos, mas havia gente. Antes, nos anos 1970, 1950,1940, 1930, no ano 1900, para você ter uma ideia, somente setinha festa nas casas, com nossos avós, nada mais. Mas nuncadesapareceu essa cerimônia. Em 1992, ganhamos força, eagora tem mais gente. Neste ano, haviam 20 mil pessoas. No México– em Teotihuacan, Tchenltza, Tenochtitlan – e até naInglaterra fizeram cerimônias como estamos fazendo. No Peru, naColômbia, de norte ao sul, fizeram suas cerimônias.Somente elas não são amplificadas pelos meios decomunicação. Aqui já estão difundindo umpouco, porque já é mais forte o movimento.Epara que servem as cerimônias?Para lembrar ao humanoque ele tem um coração, que existe o pai Sol, queexiste a mãe Terra. Queremos recordar que é muitoimportante agradecer. Nós não vivemos sós. Eutrabalho, você trabalha, mas não é por isso queexiste vida. Existe vida porque existe sol, porque existem ciclos,porque existe chuva, porque existem sementes, porque existem rios,porque existem montanhas, porque existem árvores. Temos quedespertar e entender que a vida é uma complementaçãoe reciprocidade do todo, um equilíbrio perfeito. E, sedestroçamos uma parte, vamos destruir tudo.Aqui, nósdizemos Pachamama,ou Madre Tierra. Em outras partes, os indígenasdizem Madre Selva, Madre Agua. Então, identifica-se que nósnão somos seres humanos e natureza, mas parte da natureza, nãosomos superiores. Essa forma de pensar existe da cultura antiga. Orenascimento do tempo está nos convidando para que voltemos aessa antiga forma de pensar. Não podemos fazer mais danos àmãe Terra, essa é a primeira mensagem. Todos os povosindígenas originários, desde o Alasca, estãosaindo em defesa da vida. Estamos convidando todos os Estados a darum giro em suas políticas, seus decretos, suas Constituições.Até agora, somente as Constituições de Equador eBolívia sabem que existe a mãe Terra, enquanto todas asoutras Constituições só falam em direitoshumanos. E isso não é viável, porque a vida nãoé só humana.Muitosdiscursos de governo na Bolívia falam em descolonização,especialmente aqueles ligados às políticas culturais.Essa descolonização significa resgatar a culturaantiga? Temos que ver o quetrouxe a colonização. O processo de colonizaçãoindividualizou o pensamento, nos dessensibilizou. Já nãose sente sequer pelo outro, pelo humano, quanto menos pelos animais,pelas montanhas. Se um tem comida, não importa se os demaistêm. O processo de descolonização agora tem quesensibilizar, tem que nos naturalizar e nos fazer voltar ao conceitocomunitário. Para as pessoas de pensamento ocidental, o sol ésimplesmente um astro, nada mais. Para nós, é o paiSol, nos referimos a ele com respeito, porque sua energia dá avida. Quando a mãe Terra se desperta, nós damosalimento a ela, porque ela não é somente um objetoinerte, mas um ser que vive. Então, temos que despertar aspessoas. Estamos ilhados em nossas casas e apartamentos nas cidades,desintegrados. Temos que conectar outra vez o que a colonizaçãodesconectou.Minha avó nãofalava espanhol, falava aymara. Na verdade, pacha-aru, a línguada vida. Falava com os animais, com o vento, entendia suas distintasformas de soprar. Minha mãe segue falando, eu só sei umpouco. Bom, você deve ter visto pelos meios de comunicaçãoque, no episódio do Tsunami, os animais de lá seretiraram para o centro da ilha dois dias antes da tragédia.adiantou a tragédia para eles? CNN? Animal Planet? Não,pacha-aru. E os seres humanos o que fizeram? Colocaram bronzeador eforam para a praia.E hoje, qual relaçãoos países de culturas colonizadas da América Latinadevem estabelecer com os países de culturas colonizadoras, deorigem europeia?Primeiro, eu diria queos latinoamericanos têm que se encontrar com os indígenas,para depois poder dialogar com a Europa. O seu pensamento nãoestá relacionado com o movimento indígena, tornaram omovimento indígena invisível porque pensavam que eleera inferior. Eles simplesmente imitaram a Europa. Dizem AméricaLatina, percebe? Para nós, somos Abya Yala, assim chamamosnosso continente há milhares de anos. E te digo mais: temosmais diálogos com os europeus do que com os latinoamericanos.Por que issoacontece?Porque oslatinoamericanos querem ser como os suíços, os alemães,os ingleses, os italianos, seguem no processo de colonização.O indígena amazônico ainda briga com os garimpeiros.Estes destroem florestas, destruíram arvores mãe,árvores pai, árvores de milhares de anos, as cortarampara mandar para o mundo ocidental. Para nós, são asavós, os avôs, é vida, são nossos mestres.O indígena chorou muito e segue chorando porquedesequilibraram tudo. E os europeus estão mais preocupados. Oeuropeu se deu conta da poluição. Já chegaram aoextremo de seu capitalismo, do desenvolvimento da modernidade, jáforam ao abismo e sabem que essa não é a resposta. Essemodelo o deixou doente e estão buscando alternativas, por issoprocuram os indígenas com maior força. Vieram buscaraqui nossos arquitetos, não os que são formados emuniversidades, mas os que trabalham no campo, para aprender a fazeradobe (casas construídas de barro). Os europeus sabem quenessas casas ficam menos doentes. Mas, um dia, quando a modernidadejá não puder dar as respostas, os latinoamericanos vãose dar conta que a resposta estava ao seu lado, só nãoqueriam nos escutar porque pensam que não somos muitointeligentes.Paraalém do movimento indígena, você não vêna América Latina um processo conjunto de descolonização?Agora estáhavendo uma confusão entre socialistas e povos indígenas.Quando Evo Morales ascendeu, Chávez disse que era seu irmãoindígena, com seu discurso do socialismo do século 21,com seu pensamento de esquerda, que é ocidental. Mas, naVenezuela, recém estão descobrindo os povos indígenas.Muitos estão pensando que o movimento boliviano ésocialista, mas é um movimento indígena. Nosso modelonão é comunista, mas comunitário.Maso partido organizado pelo presidente se chama Movimento ao Socialismo(MAS).Sim, mas o nome MAS foicomprado, nada mais. Ele estava registrado na Corte NacionalEleitoral e foi emprestado para o Evo poder se candidatar, foi algocircunstancial, percebe? Nós pensamos que o socialismo, ocomunismo e o capitalismo são iguais. Porque só pensamno humano, são individualistas, são homogeneizadores ematerialistas. Você não vai ver um comunista fazendocerimônias, não vai vê-lo honrando seusancestrais, não vai vê-lo cuidando da lhaminha. Oumelhor, vai cuidar da lhama porque é um bom negóciopara vender.Existemmarxistas que mantêm crenças. No Brasil, por exemplo,existem marxistas que mantêm sua religiosidade cristã.Você pode dizer que o cristianismo é ocidental também,mas existem marxistas que mantêm crenças de origemafricana. Você não vê sintonias com os marxistas?Partimos de premissas.Quando falamos de comunidade, não falamos só dehumanos. Comunidade é tudo: animais, plantas, pedras. E nãopara vender. Por exemplo, no governo boliviano, existem marxistas.Bom, nosso país tem uma reserva muito grande de lítio esua exploração é alvo de muitas especulações.O lítio pode deixar a Bolívia poderosa. Mas o mundoindígena não quer explorar o lítio. O marxistaquer, tem somente um pensamento material. Nós preferimos nãoexplorar porque é importante para o equilíbrio da vida.Mas o marxista não pensa assim. Para mudar o sentido de umrio, o marxista vai colocar tratores e pronto. O indígena vaidizer ”não, calma, espera, vamos pedir permissão paraos nossos ancestrais e vejamos se é bom”. O marxista vaidizer ”claro que é bom, aqui vamos produzir”. Ele nãovê importância no espiritual, não o sente. Porisso ainda não está entendendo.Edentro dessas premissas, o que fazer com a vida nas cidades?Essa resposta tem quese buscar na Europa. Eles estão buscando alternativas. Mas, omovimento indígena não é só do campo, éuma forma de vida e um convite a viver com respeito. As montanhasestão degelando. Vai faltar água. E isso vai afetar atodos, brancos, mestiços, indígenas etc. Por isso,necessitamos de novas formas de política, porque as atuais nãonos permitem resolver. E isso é incumbência de todomundo. O ocidente tem buscado respostas e o povo indígena asestá dando: para que todos tenhamos alimentos, temos queproduzir com os ciclos da natureza, não somente com elementosquímicos, ou de maneira anormal ou antinatural. Os povosoriginários estão avisando que as mudanças dahistória são também mudanças de ciclosnaturais. Por isso, devemos aproveitar este momento e voltar aoparadigma comunitário e ao seu modelo pedagógico,jurídico, de governo. Aqui, por exemplo, nas comunidades, nãohá eleições. Nós não queremos ademocracia, como agora se conhece, porque ganha o que faz maiscampanha, o que tem mais dinheiro, o que tem mais poder de influêncianos meios de comunicação. Aqui, um é aautoridade em um ano, no ano seguinte é outro, no seguinteoutro, ninguém pode repetir. Todos têm que participar etodos têm que se desenvolver como autoridade. Porque se alguémse mantém, algo vai falhar na sua mente e tudo vai sedesequilibrar. Então, para que descanse, se passa para ooutro.<QUEMÉ>Fernando Huanacuni, 43anos, nasceu nas montanhas de Illimani, ao sul de La Paz. Elepertence à comunidade Sariri, um grupo de descendentes enão-descendentes de povos originários que se reúnepara estudar, viver e difundir a cultura dos povos, que antes dacolonização espanhola, habitavam os Andes. Tambémé diretor de protocolo do Ministério das RelaçõesExteriores do governo Evo Morales e um dos responsáveis por umprograma de TV no canal boliviano RTP, que se dedica a debater acultura andina e os temas da conjuntura.


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