Os desastres ambientais

Que o preço de tantas vidas humanas nos leve a refletir, conscientizar e mobilizar, para enfrentarmos o modo de produção capitalista que chegou ao seu limite

16/03/2011

 

Editorial edição 420 do Brasil de Fato

 

O mundo ficou consternado, chocado, imóvel diante do maior desastre ambiental sofrido pelo território japonês, com a eclosão de um terremoto em escala jamais visto no país, seguido de um tsumani.

Apesar das cenas que motivariam Dante Alighieri a repintar o “final dos tempos” e da sensação de impotência que acometeu todas as pessoas, os fatos nos ajudam a refletir sobre a natureza desses fenômenos que têm se repetido com frequência cada vez maior.

Em primeiro lugar, paira ainda no ar a falta de pesquisa científica que nos ajude a decifrar os movimentos da natureza e que auxiliem os seres humanos a conviver com ela neste planeta. Sabe-se, no entanto, que a maior parte dos desastres ambientais, das mudanças climáticas, das frequência das chuvas etc., está ocorrendo como consequência da intervenção humana na natureza. Portanto, são respostas que a natureza dá à agressão sofrida previamente. Nesse caso, chama atenção o descaso das autoridades nacionais e internacionais para investirem pesado em recursos científicos que permitissem esses estudos e pudéssemos chegar a evitar esses fenômenos.

Em segundo lugar, falta a ação dos governos para evitar ou minimizar suas consequências sobre a população. A maior parte dos governos não dá a menor importância para medidas de precaução e medidas que possam proteger a população. Portanto, há uma irresponsabilidade política e de classe das elites governantes. Por exemplo, na China, o governo mantém criatórios de cobras e víboras em todas as regiões do país, pois descobriu-se que elas reagem com algumas horas de antecedência aos abalos sísmicos da Terra. Assim, são filmadas permanentemente e as autoridades, ao perceberam determinados movimentos anormais, avisam a população e fazem a evasão em massa. Em Cuba e no Japão, agredidos com frequência com terremotos e ciclones, os governos organizaram sistemas de construção e abrigos em massa para a população se proteger. Só isso consegue explicar que, no Japão, tivemos “apenas” 3,3 mil mortes (até o fechamento desta edição).

Já no Haiti, há pouco mais de um ano, o terremoto na capital causou centenas de milhares de mortos, provocou o deslocamento de um milhão de pessoas, que até hoje vivem em barracas. Sem nenhuma solução. Houve ajuda de bilhões de dólares de todos os povos, mas esses recursos nunca chegaram ao povo, aos necessitados.

Esse descaso não é condição de pais pobre, é condição de elites governantes irresponsáveis. Vejam o caso dos Estados Unidos. Há seis anos a cidade de New Orleans foi arrasada por um furacão. Milhares de desabrigados, e cerca de mil mortos. Até hoje, no país mais rico do mundo, milhares de pessoas continuam sem casa e sem poder regressar a New Orleans.

Aqui no Brasil, já é vergonhoso, para não dizer irresponsável. A cada chuvarada, em qualquer parte do país, dezenas de mortos se amontoam, do Sul ao Nordeste. Mesmo assim, seguimos em frente sem nenhuma mudança concreta, até o próximo desastre. Em plena capital de São Paulo, a mais rica e moderna do país, continua morrendo gente dentro dos carros, nas inundações. E ninguém se sente responsável!

Em terceiro lugar, é necessário identificar quais as práticas dos seres humanos, e sobretudo da ganância do capital, que se apropria e esgota os recursos naturais, provocando no futuro novos desastres ambientais. E haver a determinação de proibi-los. Como disse Leonardo Boff em recente entrevista ao Brasil de Fato, todas nossas ações como seres vivos estão interligadas com todos os outros seres da natureza, e qualquer abuso terá certamente consequências. Nossa sobrevivência está interligada com a sobrevivência de todos os demais seres vivos, animais e vegetais que coabitam este planeta. Portanto, a natureza não pode ser vítima da ação inescrupulosa da propriedade privada e do lucro, agressão que o modo de produção capitalista está impondo em todos os países.

Em quarto lugar, estamos diante de uma crise civilizatória. Precisamos repensar urgentemente a forma de organizar a vida social, nas grandes megalópoles, que reúnem, num só espaço, 10, 15, 20 milhões de seres humanos. Isso é o anúncio de desastres futuros. Não é possível ter soberania alimentar, proteger a população de desastres naturais, de falta de combustível ou transporte público em cidades organizadas dessa forma. Imaginemos um pequeno terremoto de alguns graus em cidades como São Paulo, Bombaim, Xangai...

E, em quinto lugar, voltou à pauta o grau de seguridade das usinas nucleares. Porque o problema não está na segurança da própria usina, considerada em padrões aceitáveis em todo mundo, pelo nível de ciência desenvolvida até agora. Mas os cientistas esqueceram de combinar com a natureza. O problema está no entorno da usina.

Que o preço de tantas vidas humanas e de outros seres vivos da natureza nos leve a refl etir, conscientizar e mobilizar, para enfrentarmos o modo de produção capitalista que chegou ao seu limite.

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