Teatro popular contra a privatização da cultura

Xandi/Coletivo Dolores

Grupos populares de teatro lutam para sobreviver em meio a circuito restrito e que privilegia o teatro para as elites

 

07/04/2011

 

Michelle Amaral

da Reportagem

 

Na cerimônia de entrega de um dos principais prêmios do teatro brasileiro uma surpresa: um grupo popular é premiado e, ao invés de agradecer, realiza um protesto contra a patrocinadora do evento, a companhia petrolífera Shell.

No momento do recebimento do troféu, a atriz Nica Maria, do Coletivo Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes, jogou óleo queimado, simulando petróleo, sobre a cabeça do ator Tita Reis, que em seu discurso ironizava o patrocínio da Shell. “Nosso coração artista palpita com mais força do que qualquer golpe de estado patrocinado por empresas petroleiras”, diz o ator.

O Coletivo Dolores foi premiado com o espetáculo A Saga do Menino Diamante, uma Obra Periférica, no último dia 15, na categoria Especial do 23º Prêmio Shell de Teatro, tradicional premiação que acontece em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Apesar de aplaudida por parte do público, a cena espantou muitos presentes no local, entre eles, conhecidos nomes do meio artístico paulista. A atriz Beth Goulart, que apresentou o prêmio, indignou-se com a atitude do Coletivo. “Receberam um carinho e deram um tapa”, disse.

De acordo com Luciano Carvalho, integrante do Coletivo, a reação desencadeada já era esperada. “Se fosse significativo [o protesto], a gente sabia que iam nos criticar”, conta.

O ator explica que a oposição do Coletivo não é somente ao fato de ser a Shell a financiadora do prêmio, mas à lógica onde se insere a produção artística brasileira, em que os grandes conglomerados econômicos passam a financiar e dizer o que é ou não é arte. “As grandes empresas tornam-se reis dos estados absolutistas de hoje e dizem o que é bom e o que é ruim. É como se fosse um polvo com todos os seus tentáculos infindáveis que estão, inclusive, na cultura, porque também é espaço de construção de ideologia”, afirma Carvalho.

 

Privatização

O protesto foi realizado para marcar a posição contrária do grupo teatral a este tipo de premiação que, segundo o ator, promove a hierarquização e gera a exclusão daqueles que não atendem aos padrões impostos pelos que controlam o prêmio.

Tal visão não é defendida somente pelo Coletivo Dolores. Grupos de teatro popular e comunitário alertam para a forma como está estruturada a política cultural no Brasil. “Esse tipo de prêmio expõe a maneira como essa área cultural e artística do nosso país está privatizada”, alerta Jorge Peloso, do Impulso Coletivo, grupo teatral de São Paulo.

A privatização do fazer artístico e a consequente exclusão gerada por ela são apontadas pelos atores como resultado da Lei Rouanet, instrumento do Ministério da Cultura (MinC) criado em dezembro de 1991 durante o governo Collor, que possibilita o financiamento das atividades culturais pela iniciativa privada em troca de incentivos fiscais. “É evidente que essas empresas vão escolher para financiar o espetáculo que lhes convém. Ganham muito mais, porque além de ter desconto no imposto de renda, ainda promovem suas marcas através de prêmios como este”, descreve Tita Reis, ator do Coletivo Dolores.

Para Carvalho, é necessário “tirar das mãos dos gerentes de marketing das empresas” o controle sobre o financiamento das produções artísticas e criar-se políticas públicas que contemplem todos os grupos.

Tramita no Congresso desde dezembro de 2009 a proposta de remodelação da Lei Rouanet. Trata-se do projeto de lei para criação do Programa Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura (Procultura) que, segundo defende o MinC, democratizará o acesso a financiamentos, prevendo o repasse direto de recursos públicos para projetos que não interessam ao marketing das empresas.

Nos últimos dois anos houve intenso debate sobre o projeto. Grupos populares alertam que não adianta fazer modificações na lei se não for corrigido o seu erro de concepção: conceder dinheiro público a empresas privadas. Na visão deles, para além de aumentar os recursos públicos, é necessário acabar com a renúncia fiscal.

 

Circulação das artes

Segundo Peloso, enquanto os financiadores da arte destinam seus recursos em prol de seus interesses econômicos, os coletivos que trabalham com linguagem social e nas periferias têm de enfrentar inúmeras dificuldades para sobreviver e realizar o trabalho artístico.

Um exemplo é o Movimento Popular Escambo Livre de Rua, que reúne vários grupos artísticos e realiza espetáculos em comunidades do Ceará e Rio Grande do Norte. O ator Mac Thiago, do Coletivo Cabeça de Papelão, que integra o Escambo, explica que o movimento é feito por grupos autônomos que não têm financiamento de governos. “A gente tenta ao máximo possível viver da rotina do teatro de rua, através de artes circenses e rodadas de chapéu”, relata.

No entanto, o ator pondera a necessidade da distribuição do orçamento destinado à cultura de forma igualitária. “Hoje existem alguns editais das secretarias de cultura e do MinC, mas contemplam poucos grupos. Muitos coletivos de teatro acabam falindo, porque não têm incentivo suficiente para se manter”, descreve.

Jorge Peloso também defende que sejam criadas políticas públicas de difusão cultural que, além de fomentar os espetáculos e os trabalhos dos grupos populares, viabilizem a circulação das artes de modo a chegarem às periferias das cidades, no contrafluxo da atual lógica cultural, em que o fazer artístico está localizado nos centros urbanos.

Apesar de ser contrário a este tipo de premiação, o Coletivo Dolores decidiu receber o prêmio que, além de um troféu, lhe conferiu R$ 8 mil. De acordo com nota do grupo, “esta é uma forma de restituição de uma ínfima parte do dinheiro expropriado da classe trabalhadora”.

Texto lido pelo Dolores durante a entrega do Prêmio Shell:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentários

Teatro Popular e financiamento.

O Mecenato dos grandes grupos econômicos, atual evoluí e criaram o que técnicamente é conhecido como "ilisão fiscal", financiam quem lhes interessam pousam de "responsabilidade social", ganham usando os referidos financiamento para construir imagem, isto é uma das muitas estratégias de coptação de muitos inclusive de quem não entende a diferênça entre a necessidade da política cultural ter controle publico, que não quer dizer estatal, mais sim desprivatizar a cultura, e enfrentar uma das faces do patrimonialismo.

E quando vierem os dólares do Pré-Sal

Será que estes que querem a estatização da cultura vão querer os milhões dos petrodólares do Pré-sal? Serão coerentes ao receberem um prêmio da Petrobrás e derramarão sua raiva ao criminoso petróleo também?

Esperar para ver....

Esquece que o petróleo é

Esquece que o petróleo é usado para fazer o óculos que usamos, qualquer material plástico, além de ser o combustível de vossos carros...ou onibus...

Qual a solução proposta? Estatizar a cultura? Já vimos esse filme antes...regimes totalitários monopolizam a cultura também...

Como lembrou Fernanda Montenegro, e antes que se fazia arte pela arte, "patrocinado" pela bilheteria...

Não querem o capitalismo, mas ficam fulos quando não veem o dindin dele...

Um povo sem educação, preocupado com o pão, não está nem aí para esse tipo de cultura...

Falta de cultura pra cuspir na estrutura...

Resposta ao comentário "Esquece que o petróleo é"

Entendo que a sra Fernanda Montenegro fez um comentário equivocado, e o senhor desconhendo os processos seguiu a fila do equivoco.

A questão meu senhor é que o dinheiro de uma lei de renúncia fiscal onde 100% do valor é abatido do imposto é publico, não tem nada de privado. Então o comentário da Sra Fernanda não procede, perceba 100% do valor abatido, então a empresa não paga nada. O dinheiro é publico, mas quem escolhe o destino é a empresa que gerou o imposto, o que é um absurdo, é do principio republicado que o estado escolha o destino dos impostos, se a empresa escolhe o destino do imposto que ela deve pagar o estado perde seu fim. Outra questão é que todas as empresa são uma pessoaa (de natureza juridica) imortais e imorais, levada apenas pelos interesses descritos no seu contrato social, ou seja interesse nenhum em melhorar cultura do país, o interesse é aproveitar o ensejo e tirar alguma vantagem para vender mais produtos.

O modelo senhor, seria uma coisa parecida com a Lei de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo uma comissão representada 50% pelo poder publico e 50% pela sociedade civil escolhem os melhores projetos para sociedade. Isto se não estou equivocado nada tem de semelhente a Estados Totalitarios.

Por ultimo ninguém questionou o Petroleo, e sim uma empresa (descendente direta da Cia das Indias) Multinacional com diversos problemas de abusos em sua historia.

Grato, não acho que falte cultura para cuspir da estrutura, cuspo feliz.

Moderador...cade minha

Moderador...cade minha resposta a esta resposta? direito de resposta....

Grato pela resposta...mas

Grato pela resposta...mas antes das empresas serem autorizadas a abater de seus impostos a "contribuição" destinada à atividade cultural, é o Estado que aprova os projetos, não as empresas.

Parece ser uma boa proposta quanto ao modelo paulistano. Só não acho que "todas as empresa são uma pessoaa (de natureza juridica) imortais e imorais, levada apenas pelos interesses descritos no seu contrato social, ou seja interesse nenhum em melhorar cultura do país, o interesse é aproveitar o ensejo e tirar alguma vantagem para vender mais produtos."...Tratar todo empresário ou empresa como algo "do mal" não parece ser um pensamento muito sensato também. Cada vez mais as empresas tem programas ou projetos sociais, pois são cobradas pela sociedade e pega bem também, chama-se marketing social. E qual o problema dessas empresas venderem seus produtos e cagarem dinheiro, ainda não percebi.

O controle social da destinação dos impostos para a área da cultura é o caminho, isso é democrático. E lembrando que o petróleo foi sim questionado, quando a fala de protesto ironicamente diz ser aquela uma empresa ecológica.

A questão é que temos visões diferentes do papel do Estado, não desejo este dando as cartas e guiando a minha vida. Por fim, você esqueceu de dizer que muito pior que as empresas, os Estados são instituições muito mais imorais e imortais que qualquer empresa. Ainda mais quando se trata de Brasil.

 

Estão, com essa sua visão

Estão, com essa sua visão demotucana que vc vai para a quarta derrota e da uma prova em que não é a instituição Estado mas sim os seus componentes que devam fazer dele bom ou ruim.Para o seu próprio bem o Estado foi criado sim para nos convencional a nossa libertade.

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