A Marcha da Maconha faz apologia ao crime ou sua proibição é que faz apologia ao autoritarismo?

Defender a proibição das drogas é fazer apologia à violência

 

17/05/2011

 

Julio Delmanto

 

Que as chamadas “drogas”, sejam legais ou ilegais, não têm vida própria e que seus efeitos dependem da forma como são usadas, sendo as políticas de drogas brasileiras as responsáveis pela violência do Estado e do crime já é um entendimento cada vez mais difundido.

Defender tais políticas é defender a manutenção do status-quo, é defender que um mercado com altíssima demanda não tenha qualquer regulamentação e seja controlado pelo crime, é dar ao Estado mais um instrumento de criminalização da pobreza, assassinato seletivo e corrupção, é acreditar na repressão e na mentira como ferramentas educativas e de saúde e aceitar o cínico discurso intervencionista estadunidense.

Defender a proibição das drogas é fazer apologia à violência.

É sobre isso que nós, militantes do que é chamado de movimento antiproibicionista, estamos acostumados a debater, é sobre isso que gostaríamos de conversar de maneira franca e séria com a sociedade brasileira, principalmente com aqueles interessados em provar na prática que um outro mundo de fato é possível.

Mas infelizmente enquanto o mundo discute alternativas às fracassadas políticas de drogas, no Brasil ainda lutamos para… poder debater o tema! O artigo 5º de nossa cada vez mais desmoralizada Constituição diz que “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”; que “ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta”. Mais adiante, aponta também que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

Também temos no documento supostamente mais importante de nossa República um ponto onde se diz que “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente” e outro que diz que “é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar”.

Por que isso vale para os manifestantes neo-fascistas e homofóbicos que se reuniram recentemente debaixo do vão do MASP, sob proteção policial, para apoiar o nefasto Bolsonaro e não vale para a Marcha da Maconha, movimento que propõe exatamente discutir alternativas que retirem da ilegalidade uma conduta?

A Marcha da Maconha é um movimento anônimo ou o são policiais e juízes que interpretam a lei como bem entendem e nunca são chamados a se justificarem publicamente sobre isso? A Marcha da Maconha exime-se de obrigações legais ou usufrui da liberdade de manifestação do pensamento para propor a existência de outras leis? A Marcha da Maconha necessita de licença para exercer sua livre expressão?A Marcha da Maconha frustra outras reuniões? As “autoridades competentes” não são informadas ano após ano de sua realização? É uma organização paramilitar? Sob quais bases o poder judicário brasileiro proíbe a realização de uma manifestação pacífica em algumas regiões enquanto em outras ela acontece normalmente?

Diz-se que a Marcha faz “apologia às drogas”. Em primeiro lugar, não existe esse delito previsto em lei, e sim o de apologia ao crime, que é o disfarce utilizado pelo o conservadorismo preconceituoso e medieval dos nossos agentes da lei, fiscais dos corpos e ideias da população.

A apologia ao crime se caracteriza legalmente pela defesa pública de fato criminoso ou de autor de crime condenado pela Justiça. A Marcha da Maconha existe para defender a mudança da lei brasileira de drogas, isso é um fato criminoso? Fazem apologia ao crime órgãos de imprensa que debatem o tema? Políticos que se expressam publicamente propondo mudanças na lei? Acadêmicos, artistas, juristas e juízes que têm opiniões sobre a questão? Por que debater políticas de drogas é permitido na mídia, no parlamento e na academia e nas ruas não?

Ou é nosso poder Judiciário que faz apologia ao autoritarismo e ao totalitarismo? A situação encaixa claramente com o que aponta Norberto Bobbio, ao mostrar como o “autoritarismo é uma manifestação degenerativa da autoridade”, é “uma imposição da obediência e prescinde em grande parte do consenso dos súditos, oprimindo sua liberdade”. E também infelizmente flerta com o que traz Hannah Arendt ao afirmar que o totalitarismo “não substitui um conjunto de leis por outro, não estabelece o seu próprio consensus iuris, não cria, através de uma revolução, uma nova forma de legalidade”; a política totalitária simplesmente busca, através da ideologia e do terror, suprimir a diferença até que a lei não seja necessária, até que a liberdade não seja nem mais pensada como tal.

Nossas ruas pertencem à Polícia e ao Judiciário ou ao povo? Pensar, dialogar, atuar, manifestar, botar a cara à tapa, são atitudes criminosas?

Se sim, senhores juízes, não tragam viaturas, tragam ônibus, porque muita gente estará no MASP no dia 21 de maio, esperando pacificamente mais uma aula pública de violação da Constituição e da Democracia.

 

Júlio Delmanto é jornalista, mestrando em História Social na USP, membro dos coletivos antiproibicionistas Desentorpecendo a Razão (DAR) e Marcha da Maconha

Comentários

Sou contra

Belo texto Julio, qual é, vai te catar eu não uso drogas, a marcha da maconha seria viavel para coibir o vicio e não para liberar o uso, todos que te elogiam devem gostar de fumar maconha, quero saber se vão permitir que seus filhos usem e se irão conseguir ficar apenas na maconha, o que não é o caso da maioria de usuarios.

Eu não confio em um médico, um advogado ou jornalista que fume maconha e conheço quem fuma, e não vejo como normal. Sou careta graças a Deus.

Quem disse a voce que a

Quem disse a voce que a maioria dos usuarios nao fica so na maconha ? (clichê)

Quando voce vai ao médico pergunta se ele fuma maconha ?

Pergunta ao Advogado ?

Pesquisa a vida do jornalista ?

e só pra frisar , a marcha nao é contra os caretas , ninguem ta mandando voce usar nada

e como proibir uma coisa que nasce da terra ?

Droga quem faz é o homem , será que foi no laboratorio que inventaram a ganja ?

ou foi a cocaína , a coca-cola , o crack e os enlatados  etc.

 Voce nao tem base no que escreve , seria melhor pesquisar mais sobre o assunto antes de sair falando . . .

Marcha da Maconha

Parabéns Julio Delmanto, tanto direita como esquerda sabe que a maconha é problema social, mas veja o álcool, será que se a Ambev não financiasse campanha políticas ainda veriamos tantos comerciais de morenas semi nuas com cervejas na mão?

Tenho muito orgulho por ter ainda na USP, mas quase que só no prédio das humanas, pessoas que lutam por uma sociedade socialista e plural.

Pra cara conciente.

Ótimo vc ser um universitário, portanto não devo te chamar de alienado, muito pelo contrario vc é bem consciente daquilo que faz e a mim cabe respeitar o que vc escolheu em fazer com o seu corpo e com a sua vida.

Mas discordo e desrespeito quando vc faz apologia ao socialismo realizando elucubrações de que neste sistema as pessoas por serem socialistas e plurais são obrigadas a concordarem com a bestialidade de alguns em se chaparem.

Consciente! A maconha e as demais drogas agem no cerebro humano como o virus HIV, ou seja, exterminam os neuronios ao longo do tempo e com isso entendo a sua opção. 

A maconha  exterminam os

A maconha  exterminam os neuronios ,


Onde o você viu isso? essa tese foi derrubada ha anos.....

nosso cérebro produz enzimas semelhantes ao THC, o princípio ativo da maconha.

procure sobre endocannabinóides....

Neste vídeo, Roberto Lent fala sobre a descoberta, por pesquisadores de São Paulo, de novas substâncias canabinoides produzidas pelos neurônios.

http://www.youtube.com/watch?v=uY66D1B2RJQ

 

se thc destruisse neurônios estariamos nos auto-destruindo naturalmente.

É do carater ideologico dos

É do carater ideologico dos EUA ser intervencionista e não vai ser com a "liberação" da maconha que esta prática acabará

DEPOIS DESSA AI NEM COMENTO MAIS NADA !

 

Que bom Hugo!

Que bom que vc entendeu tudo Hugo, isso prova que vc é garoto esperto e não se matará atoa. Morra por algo que falha a pena.

Belo Texto Júlio!

Belo Texto Júlio! Parabéns!

Devemos lutar contra os proibicionistas.

Recadinho para o Demétrio: Vai viver sua vida, deixa cada um fumar o que quiser. Se vc se sente bem careta, tudo bem. Se você quiser ficar doidão, tudo bem também.

Dou de ombros

Por mim, podem fazer o que quiserem, meu caro. Não sou a favor da proibição (em nenhum momento disse que era). Aliás, por mim podem ser todas as drogas liberadas. Todas (Já existem tantas que são, não é?). Apenas quis debater a fim de entender melhor a argumentação do autor do texto, por exemplo: o quê isso ajuda a mudar o tal "status quo"? - porque eu tenho a impressão de que isso não muda absolutamente nada. Só isso.

 

A não argumentação e a grosseria não vão ajudar a "causa" de vcs.

EDUCAÇÃO JÁ

Educação não se faz com proibição mas com informação e inteligência para se exercer o livre arbítrio.

Ouvi uma frase de Rita Lee que diz: "quanto maior a proibição, mais faz sentido a contravenção"

Drogas !!!!! Tô Fora!!!!!

Caro Julio!!!

Como um texto de um militante que se preze, o seu esta muito bom, mas é no minimo simplista querer rebaixar o debate sobre as Drogas na defesa unica de uma marcha como expressão da democracia.

Ou fazer ilações de que o simples regulamentar deste "comercio" livra os pobres da crimiminalização ou da seletividade criminosa da corrupção, uma vez que o trafico ou o comercio legal já o fazem como estrategia de dominação politico/economica.

É do carater ideologico dos EUA ser intervencionista e não vai ser com a "liberação" da maconha que esta prática acabará

Apologia a violência é ver todos os dias os operários da droga alisiando, viciando e seviciando as crianças nas favelas como mão-de-obra barata, como toda mão-de-obra deste sistema capitalista, para capitalizar cada vez mais fortunas ao mundo do crime, o qual sustenta toda a corrupção no Brasil e no mundo.

A corrupção tão presente em nosso meio é financiada pelo trafico de drogas e não será a "liberação" que fará com que isso deixe de existir.

Acabemos com as drogas que acabremos com a corrupção e aí sim teremos um "Outro mundo Possivel, Sem Droga e Politizado".

Não quero ver os meus netos alienados pela drogadição e a serviço do Crime Organizado dos Capitalistas Bacanas.

Todo drogado é um doente desde antes de ser viciado e por isso é dever do Estado e da Sociedade cuidá-lo e curá-lo.

E finalmente, por favor, não se utilize da Constituição Brasileira para tentar ludibriar os mais desatentos  e com as facilidades de se reivindicar democrata só quando lhe convém. Itamar Santos-Viamão-RS

belo discurso !sem mais

belo discurso !

sem mais palavras pq acho que você ja falou tudo ! força são paulo vai lá nossa vitoria não sera por acidente !

MARCHA

Ótimo texto , só não entendeu quem não quis . . .

Estou ansioso pela marcha de salvador , espero que aconteça em paz

e quero saber pq essa erva é proibida !? se tiver algum reacionario que lê o Brasil de Fato espero uma resposta, desde já sou grato !

PLANTE !

NOIA x DESCOLADO

 

A questão é que maconheiro rico é DESCOLADO.

Maconheiro pobre é NOIA e MARGINAL.

Se o marginal tiver um problema psíquico, vai para o SUS. Se for o descolado, vai para uma clínica paga pelo papai.

 

 

Parabéns pela reflexão!

Parabéns pela reflexão!

Segue meu apoio à realização das marchas por todo Brasil!

Chega de violência!

"principalmente com aqueles

"principalmente com aqueles interessados em provar na prática que um outro mundo de fato é possível."

 

O que não ficou nada claro é o que é que a legalização da maconha tem a ver com o "outro mundo possível".

 

está claro sim

Meu caro, a resposta para tua indagação está dois parágrafos acima, quando ele fala:

"Defender tais políticas é defender a manutenção do status-quo, é defender que um mercado com altíssima demanda não tenha qualquer regulamentação e seja controlado pelo crime, é dar ao Estado mais um instrumento de criminalização da pobreza, assassinato seletivo e corrupção, é acreditar na repressão e na mentira como ferramentas educativas e de saúde e aceitar o cínico discurso intervencionista estadunidense".

Explicando melhor (já que a inteligência não parece ser seu forte), legalizar a maconha significa combater todos esses pontos supracitados.

 

O sancta simplicitas...

A inteligência também não é o seu forte, meu caro. Esse "status quo" que vc fala é que precisa ser bem explicitado. Primeiro, mostrar o que é esse status quo, quais são as estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais vigentes, como se relacionam, como funcionam, etc. e, depois, mostrar como a mera legalização da maconha vai alterar essas estruturas para "melhor". ("Melhor", evidentemente, para  a maioria da população: ou seja, os trabalhadores. E pensar que, um dia, as forças progressistas da sociedade já se mobilizaram pensando que a apropriação dos meios que permitem regular a sua atividade produtiva é que era uma causa digna para se lutar...)

 

A dúvida é justificável, pois essas questões - apesar do que vc duvide - não são nada óbvias. E a sua arrogância e "simplicidade" mental - pra não dizer outra coisa - não ajudam em nada a clarificar.

 

Em outras palavras (já que vc parece ter apenas seis anos): não está, em definitivo, demonstrado que legalizar a maconha vai mudar o "status quo" (seja lá o que for que isso esteja querendo significar) da sociedade.

belo discurso

A questão é que quem participa do movimento está pouco se lixando se a maconha é controlada pelo tráfico, se quem lucra é o tráfico e etc, os caras querem simplesmente fumar maconha sem serem incomodados, e só.

discurso melhor do que o seu

quem participa só está preocupado em fumar sua maconha? é por isso que eles vão pra rua num sábado a tarde (qdo o cidadão realmente preocupado está ficando bêbado num boteco, assistindo televisão ou dormindo), correm o risco de ser presos ou apanhar da polícia, ou ainda ficar estigmatizados como "drogados" pela sociedade hipócrita e reacionária.

é, esse pessoal tá se lixando mesmo para o tráfico. até por isso não se importam em comprar a droga dos traficantes e nem lutam pela descriminalização.

(espero que sejas capaz de compreender a ironia)

É exatamente isso,

É exatamente isso, Pedro...querem fumar maconha sem correr o risco de ser presos por isso...querem fumar maconha sabendo que não estão patrocinando a violência que vêm junto com o tráfico....querem ter o direito de fazer uso da substância assim como os fumantes de nicotina e os consumidores de bebida alcoolica têm esse direito...qual é a diferença? Quando vejo críticas ao usuário de maconha fico estarrecida...parece que as pessoas não enxergam o quão mal faz o álcool....ninguém NUNCA morreu por usar maconha, ninguém NUNCA foi morto por alguém que estava sob o efeito de maconha...e quem diz que maconha é escada para drogas mais fortes não sabe o que está dizendo....os efeitos são tão opostos que chega a se piada essa afirmação...Quem fuma maconha busca relaxamento e paz, quem cheira cocaína quer agitação e poder....são efeitos tão diferentes que só quem não entende nada do assunto pode afirmar tamanha estupidez...

 

 

Ledo Engano!

Camila!!!

Não sei se alguem matou por que usou maconha porque nunca fumei, mas se vc tem essa pratica não podes afirma isso por sua experiencia.

Cada undividuo tem um tipo de comportamento e isso é cientifico. Afirmar que a maconha não é o inicio para as drogas mais pessadas tambem é um ledo engano, aja visto que quem prova a maconha vai querer provas as outras e isso tambem é inerente ao ser humano, ainda mais se ele tiver uma idole propicia a novas experiencias.

Parabéns Julio! Exelente

Parabéns Julio! Exelente texto!

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