Branca implicância

História de uma manhã cinza e fria de um dia tranquilo

21/12/2011

 

Augusto Juncal

 

Era uma vez um dia de frio cinza. Como se o frio pudesse ter outra cor! E de hora muito cedo. Como se as horas vivessem comparando-se umas às outras! Nessa hora muito cinza de um dia muito cedo que foi hora e dia de um cão grande e branco. O cão grande e branco de cinza cedo e de hora fria vivia todos os dias debaixo do viaduto que naquele cinza daquela hora do dia se chamava 14 Bis. Vivia com seu dono. Um mendigo sujo e velho que não tinha nada. Mas tinha um colchão rasgado e mijado e um cão grande e branco de hora muito cedo de dia cinza e frio. Todos os transeuntes passavam sem medo pelo cão grande e branco do mendigo cinza e mijado que tinha um colchão frio naquela hora suja do dia que morava e se achava dono do viaduto velho e que muito cedo já se chamava 14 Bis. O cão grande e branco era o dono da 14. Não era apenas que ele se achava. Ele era. Se os transeuntes tranquilamente passavam por ele, tranquilamente pegavam seus ônibus na parte superior do viaduto e tranquilamente chegavam em seus trabalhos, era só e somente só! porque o cão grande e branco queria.

E verdade seja dita, ele sempre queria. Todos por ele passavam. Convenhamos que um cão grande e branco naquele dia rasgado deitado ao lado do mendigo frio de fome naquela hora velha debaixo do viaduto cinza e mijado, era um quadro expressionista. Todos, um a um, por ele passavam naquele cinza. Eis que, aparentemente do cinza, grande e branco, o cão se levantou, trotou silencioso parando no topo da escada que vinha subindo da calçada que margeava e desenhava a Avenida 9 de julho. Pela calçada vinha subindo um jovem desatento, que acordou tarde naquele dia cedo de hora fria e cinza. Vinha despercebido, vinha tranquilo. Parecia até que vinha cantando uma música velha e rasgada. Não viu o cão grande e branco que o esperava no topo da escada que descia da 14 para a 9. Mal o rapaz pisou o primeiro degrau, o cão latiu grande e branco para o menino que num susto amarelo bailou no ar. Com o coração estufando o peito, o rapaz pulou de volta para a calçada, refazendo-se logo em seguida do susto. Mas, muito indelicado, demonstrou com um resmungo alto e um gesto desenhado claramente no ar sua irritação com o cão. Irritação que o rapaz julgou necessária para esconder a vergonha do seu susto. O cão não pensou duas vezes. Pensou uma só. E pensou: Era desaforo. E já foi logo descendo as escadas com seus latidos rasgados e frios avançando para o menino cinza e pálido. Que correu mais ainda para dentro da calçada silenciosa buscando uma distância segura. Feito o trabalho, o cão voltou ao seu lugar junto do mendigo despercebido e tranquilo.

O rapaz frio e cinza de susto ficou parado na distância segura da calçada amarela. Ele precisava subir aquelas escadas para tranquilamente pegar seu ônibus e tranquilamente chegar ao trampo. Que ele não tinha trabalho. Tinha trampo. O cão, na distância velha e cinza, mantinha seu olhar grande e branco sobre o menino, que agora avisado e atento mantinha seu olhar assustado sobre o cão. Subiu a escada o transeunte um, o dois e o três. O cão deixava que passasse cada um deles, enquanto mantinha sua cabeça grande e branca sobre suas patas. Descansava e parecia dormir. O rapaz, insistente, pensou: que desaforo. Vou passar. Até parece que chegou a pensar: “se vier dou uma bicuda nas fuças dele”. E seguro pisou o primeiro degrau, o segundo, o terceiro chegando ao meio da escadaria. O cão, então, duas vezes grande e duas vezes branco, largou numa carreira grande e branca avançando duas vezes canino sobre o rapaz que pulou três vezes ágil de volta pra calçada e desta pro meio da Avenida e pra cima de um carro que sequer teve tempo de frear. Do carro seu corpo cinza e frio pulou de volta pra calçada, agora vermelha de sangue. Sangue vermelho sobre o amarelo da calçada que beirava o viaduto cinza de uma hora fria de um dia tranquilo.

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