E tem ainda uns moleques teimosos por aí (“estamos velhos, mas ainda não morremos”)

Lá, nas casas das famosas tias: rangos e rezas, jongos, lundus e cachaças davam vida aos corpos manchados de sol, suor e trabalho

 

23/12/2011

 

Thomás Lopes Ferreira

 

 

Sambistas, desenho de Portinari de 1935 - Reprodução

Quando o vapor berrou no vale do Paraíba, logo após sinhá Izabel assinar a carta de alforria, descendentes de bantos, benguelas e monjolos juntaram seus trapos em busca de oportunidade na cidade portuária e logo se arregimentaram no nascente subúrbio carioca. O século 19 finalizava e morros como Serrinha, Congonhas e Tamarineira, assim como o bairro próximo de Oswaldo Cruz, já marcavam o ritmo de uma localidade chamada Madureira.

Lá, nas casas das famosas tias: rangos e rezas, jongos, lundus e cachaças davam vida aos corpos manchados de sol, suor e trabalho. Carregar e descarregar mercadorias do porto compunham a labuta diária de um povo, agora “liberto” para trabalhar ainda mais.

Sob os olhares atentos das pequenas gigantes tias, o batuque ia se transformando, assimilando a modernidade iniciada pela escola primeira do Estácio de Sá. Eulalias, Marias e Alfredos foram aos poucos se juntando, onde antes somente existiam tambores, para se arriscarem em instrumentos eruditos, nos quais a turma da Santíssima Trindade já ousava dar notas musicais.

Foi no bairro de Oswaldo Cruz, na ainda bucólica Estrada do Portela, que um certo Paulo Benjamin de Oliveira foi morar e gravou seu nome para sempre na história do samba. Conhecido nas redondezas como professor, Paulo organizava encontros, reuniões e pagodes, onde versava seus primeiros partidos, que anos mais tarde Chico Santana, Manacéa, Alvaiade e Natalino iriam dar continuidade. Esse compositor popular que tantas músicas compôs fundou, ao lado dos companheiros Antônio Caetano e Antônio Rufino, a escola da águia altaneira sob a sombra de uma jaqueira. Com um estilo próprio Paulo passou a ser o Paulo da Portela e conduziu Oswaldo Cruz rumo à imortalidade.

O samba de lá não tinha palco, não tinha “artistas”, não tinha vaidade, era uma festa, quem não sabia tocar não tinha problema, se envolvia do mesmo jeito. Acompanhava na palma da mão, na lata, no prato e na faca, no reco-reco, no gogó, no que tivesse, mas tudo com o maior respeito e organização. O pagode era e é assim, uma festa, que ao mesmo tempo em que divertia a todos, unia num mesmo canto as dores do dia a dia tão difícil. Esses bambas se desafiavam em versos e o coro era composto, por ninguém menos, do que todos que estavam presentes.

Décadas mais tarde, Candeia com o sonho da multidão voltar a tomar as rédeas da escola, inovando na linguagem, recorre às mesmas armas, que antes municiaram Paulo e seus companheiros, mas os tempos tinham mudado... Nas escolas a figura do sambista, compositor e partideiro estava desaparecendo e a indústria fonográfica começava a mostrar suas caras e personagens. Surgia a figura do carnavalesco e o terreiro, além de ir aos poucos mudando de cor, muda também de nome e passa a ser chamado de quadra.

Tentando influenciar os rumos da escola, não apenas com palavras, mas com apoio popular, Candeia organiza verdadeiras marchas, em dia de ensaio, rumo ao terreiro, descendo os morros do bairro e pegando o trem, junto a uma multidão que cantava seus versos e de muitos outros grandes partideiros. Não mudou os rumos, mas deixou um legado de continuidade, não da mesma forma, não sem inovar, mas com o mesmo propósito que o professor tanto versou: “Ouro desça do seu trono. Venha ver o abandono de milhões de almas aflitas, como gritam. Sua majestade, a prata, mãe ingrata, indiferente e fria, sorri da nossa agonia”. Era a mensagem da música popular, que com diversão e lamento, no coro, na palma da mão, no improviso e com respeito, cantava o cotidiano de uma gente sofrida.

“O meu nome já caiu no esquecimento, o meu nome não interessa a mais ninguém” denunciava Paulo, anos antes, já preocupado com os rumos das escolas, após uma confusão que acaba tirando-o do desfile, quando as escolas ainda se apresentavam na saudosa Praça Onze.

Tem gente que pensa que o samba desse jeito acabou, e que agora o palco dominou, onde um só vocalista canta e grupos pequenos comandam a vez, onde as grandes rodas nas ruas dos subúrbios não existem mais, onde gostos e cheiros das gordas feijoadas não se misturam mais ao suor do dançar e ao sorriso do cantar junto. Confesso que às vezes me desanimo e penso assim também.

Mas uns poucos anos atrás, meninos e meninas, na maior parte moleques, no que há de melhor nessa palavra, inspirados em histórias e jeitos de cantar da teimosa velha guarda azul e branco, começaram a organizar encontros em várias cidades do país batuqueiro.

Tocando sem amplificadores... quando muito, um violão tenor ou de sete é amplifi cado, com três, quatro e até mesmo cinco cavacos, pandeiros em partido ou na marcação cadenciada, surdos de virada, reco-recos, tamborins, ganzás, repiques de mão, repiques de anel e apitos dando forma à cozinha e... o mais bonito e contagiante: tudo no gogó, no coro e no verso improvisado.

Novamente, no mesmo jeito que o professor ensinou, mas também com inovação, rompem o abismo que separa os músicos do seu público, aproximando-os com olhares, histórias e cantos, fazendo todo o sentido para o autêntico pagode se apresentar.

São partideiros e versadores, manos da Terra da Garoa, da Cidade Maravilhosa, da Beira do Guaíba e das Gerais que, para além de tudo, têm o amor ao samba, à sua história infinita, à sua inovação, aos seus versos e memórias, é o samba sem vaidade, sem palco, sem dono e com respeito aos antigos e aos novos, se (re) fazendo novamente para se tornar pleno. Assim se fazem imortais, mais uma vez. Se fazem sorriso, outra vez, se fazem modos de cantar, de tocar e de agradecer aos Candeias, Manacéas e Chicos, Alcides, Natais, Caetanos e Alvarengas, Paulos e Rufinos pela imensa alegria de ter a oportunidade de continuar.

Simplesmente, fazem samba, se fazem popular. Serão lembrados, assim como lembramos outros bambas, serão louvados assim como louvamos outros mestres, por cantar a vida, por mostrar o sofrimento, por não nos deixar esquecer que a beleza existe, que a esperança é eterna, que a chama não se apagou e nem se apagará.

Enquanto nos fizermos seres humanos, teremos essa possibilidade.

 

Thomás Lopes Ferreira é integrante do MST e batuqueiro

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