Lições de tolerância

Achei a história bonita porque traduz um pouco daquele espírito comunitário que talvez venha dos indígenas de que ninguém pertence a ninguém

30/12/2011

 

Cláudio Thomas Bornstein

 

 

Fui passar as férias no Maranhão, terra de um dos pivôs da realpolitik dos nossos últimos presidentes. No caminho do aeroporto para a pousada em São Luís o chofer de táxi me contou uma história que eu reconto.

“Minha mulher agora resolveu adotar um menino. Tem três anos. Ele é filho da minha cunhada e minha mulher cisma que ele é meu.”

“E é?”, foi a pergunta que eu consegui formular, aliás, de total irrelevância, porque, se fosse, ele podia não dizer, e se ele dissesse que era, podia não ser. Finalmente, se ele dissesse que era e, de fato, fosse, qual a diferença que faria?

“É não!”, continuou o motorista, “mas eu gosto do danado do menino e ele de mim. Se o senhor visse como ele é esperto. Parece ter oito anos. Fala que nem gente grande”.

“O senhor tem outros filhos?”, prossegui eu, dentro da minha lógica, tentando entender. Ele tinha mais dois, já adultos. E eu, insistindo na mesma direção: “Mas a mãe dele, sua cunhada, não achou mau perder a criança?”

“Achou não. Ela sabe que o menino gosta de mim, que eu posso dar melhor trato. Quando o menino era pequeno, ele costumava passar os fins de semana comigo. Minha cunhada mora no interior, sabe como é, né?”

“E o seu cunhado não diz nada?”

“Diz não. Ele também acha que o filho é meu.” Segundo o motorista, tudo se dava na mais santa paz: ele com a mulher, ele com a cunhada e o cunhado e os dois últimos entre si. Se o relato corresponde à verdade, eu não sei nem nunca vou saber.

A história teve mais detalhes que eu aqui omito. Teve ainda a questão do teste de DNA que o motorista propôs fazer, mas o cunhado recusou com a argumentação de que na hora do exame podia haver troca de sangue. Ou será que o cunhado estava com medo do teste dar negativo e ele não ter mais pretexto para justificar a entrega do menino? Se, em contrapartida, o teste desse positivo, a dúvida poderia perder um espaço que talvez fosse conveniente.

As feministas e os moralistas que me desculpem. Não estou aqui fazendo apologia do macho que planta a sua semente pelo mundo afora, nem tampouco estou pregando a dissolução do casamento, campanha, aliás, de pouca serventia, visto já ter acontecido. Simplesmente achei a história bonita porque traduz um pouco daquele espírito comunitário que talvez venha dos indígenas de que ninguém pertence a ninguém.

 

Cláudio Thomas Bornstein é professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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