Uma frente de arte por uma outra cultura em construção

Movimento de trabalhadores da cultura pode ser frente que faça o contato e a ação 

 

27/12/2011

Eduardo Campos Lima,
de São Paulo (SP)    
 

 

Há cerca de 15 anos, a parcela mais avançada do teatro de São Paulo constitui- se como um dos mais mobilizados adversários, no campo cultural, do neoliberalismo brasileiro. A trajetória de lutas, com seus inevitáveis avanços e retrocessos, tem apontado, nos últimos meses, para um novo momento político, em que o acúmulo de tantos anos de prática e reflexão poderá impulsionar um salto qualitativo na atuação do teatro de grupo paulistano.       

O processo teve início no fim da década de 1990, tendo o movimento Arte Contra a Barbárie como marco inicial. Com ele, artistas de variadas tendências políticas colocavam em debate a ausência de uma política governamental para a cultura e a decorrente privatização do fomento às atividades artísticas. A mobilização resultou na instituição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, na gestão da prefeita Marta Suplicy. Tratou-se de uma luta necessária, mas inscrita nos limites de um horizonte político pequeno-burguês, como ressalta a professora Iná Camargo Costa, estudiosa de teatro que acompanhou de perto o percurso dos grupos em São Paulo.         

A batalha por reformas no âmbito das políticas públicas para a cultura continuou, mas foi cada vez mais acompanhada por um aprofundamento crítico por parte dos grupos mais à esquerda. Consolidava-se uma perspectiva de crítica totalizante ao capital, que extrapolava os limites da discussão dos problemas específicos da categoria dos artistas de teatro e radicalizava o debate político. A polarização decorrente gerou rachas e sucessivas frentes políticas foram formadas.    

Artistas da classe teatral durante a realização de protesto em frente
ao Itaú Cultural na avenida Paulista em São Paulo
- Foto: Marlene Bergamo/Folhapress

 Com a organização da ocupação da Funarte, em julho de 2011, em que os artistas protestaram contra as leis de incentivo fiscal – que transferem para as empresas o poder de decidir quais projetos artísticos devem ser financiados – e pela aprovação de mecanismos de fomento estatal direto à produção cultural, formou- se o Movimento dos Trabalhadores da Cultura (MTC). A carta lida durante a desocupação demonstra o avanço político do movimento: nela, o MTC afirma a necessidade urgente de criar “um Programa de lutas conjuntas desvinculado das antigas pautas do Estado”.         

Nesse momento, o MTC ainda não se consolidou como a frente política que poderá se tornar, aparecendo mais como um fórum sem programa claro e sem uma pauta comum, de acordo com Iná Camargo Costa. “Mas um movimento dos trabalhadores da cultura pode perfeitamente ser uma frente de esquerda envolvendo militantes de partidos que produzam o contato e a ação programaticamente pautada. Essa é a tarefa comum dos artistas e dos partidos”, conclui a professora.   

Leia, a seguir, alguns trechos da conversa com integrantes dos grupos Brava Companhia, Buraco D’Oráculo, Companhia Antropofágica, Companhia do Latão, Companhia Ocamorana, Engenho Teatral, Kiwi Companhia de Teatro, Parlendas e Trupe Olho da Rua.   

 

Conjuntura e teatro 

Fernando Kinas (Kiwi Cia. de Teatro)

 – Há um movimento pendular da organização do teatro de grupo, que é o movimento pendular de outros movimentos sociais em relação à conjuntura e, especificamente, em relação ao governo. Ora há uma certa atração, que pode ter muitas colorações, inclusive chegando à cooptação mais descarada, por meio de verbas públicas, ora essa aproximação é recusada. Vários setores, não apenas o teatro de grupo, vivem essa mesma situação de pêndulo entre se aproximar e aceitar, ou se afastar e criticar, com muita clareza, o projeto hegemônico em curso. Isso vale para quem discute cultura livre, reforma agrária, dívida pública etc. Há, então, a tradução específica desta situação em cada momento de luta: existem aqueles que fazem uma política de moderação e de conciliação – inclusive da conciliação de classes – e aqueles que reivindicam a independência de classe.             

 

Thiago Vasconcelos (Cia. Antropofágica)

– Com o PT no governo federal se instala a grande batalha: posicionar-se a favor ou contra a lei de renúncia fiscal. O mecanismo de renúncia fiscal é um tipo de política que pauta uma lógica mercadológica. O que constrange uma militância mais forte é que o movimento de teatro foi, durante um bom tempo, muito ligado ao PT. Esperava-se, até como postura social-democrata, que alguma coisa fosse feita para combater uma medida de caráter absolutamente liberal, nos modelos tatcheristas. Isso traz, de alguma forma, na materialidade política das lutas, uma divisão.         

 

Fábio Resende (Brava Cia.)

 – Acho que estamos vivendo um tempo muito estranho. Alguns grupos teatrais têm feito um esforço enorme para, além de entender esse tempo, disputar o campo simbólico-cultural. Existem disputas no campo político, mas continuamos juntos, em uma unidade. Essa unidade, para nós – da Brava – e para muitos grupos, se dá pelo fim da sociedade capitalista. Nós temos uma luta para fazer e ela tem nome: luta de classes.        

 

Batalha das ideias Thiago Vasconcelos (Cia. Antropofágica)

 – Existe hoje no teatro uma linha que se coloca como alternativa ao capital. É uma linha que postula: “Vamos criar bolhas alternativas ao capital e tentar, ali, criar subsistência própria”. É muito parecido com 1968: um hippismo rebelde com bolhas alternativas. Trata-se de um “teatro alternativo”. Nós, que estamos aqui discutindo, não estamos em um campo “alternativo”, estamos construindo um campo de oposição.         

 

Natália Siufi (Parlendas)

 – Com relação ao próprio campo estético, às vezes, escuto alguns grupos dizerem que faziam um teatro mais “panfletário” e que agora estão superando isso. O curioso é que apenas a cena teria superado a questão de classe ou o teatro “de esquerda, quadrado, panfletário” – todos os nomes que usam para diminuir um trabalho. A sociedade, obviamente, ainda não superou.         Caio Pacheco (Trupe Olho da Rua) – O movimento, principalmente os debates e a organização para a ocupação da Funarte, também agregou grupos de fora da capital, que atuam no litoral e no interior. Esses coletivos levaram essas discussões para os movimentos municipais dos quais fazem parte. Eu acho que estamos caminhando para um outro olhar que não aquele que prega uma via alternativa ao capital – esses conceitos que ludibriam muitos grupos do interior, historicamente renegados pelas políticas públicas e, por vezes, facilmente cooptados por promessas “alternativas”.        

 

Adailton Alves (Buraco d’Oráculo)

– Falando especificamente de teatro de rua, é preciso dizer que o público desse teatro é sobretudo de trabalhadores que não estão, na maioria das vezes, organizados em sindicatos. Então a luta é no campo simbólico, no sentido de desnaturalizar as questões que estão postas para a sociedade. O teatro de rua nunca teve uma política que o atendesse. Estamos organizados nacionalmente, por meio da Rede Brasileira de Teatro de Rua. No atual momento, a discussão no campo das políticas públicas tem criado um racha. Achamos que não é possível compactuar com o que está sendo proposto hoje pelo governo federal.      

 

Atuação

Thiago Vasconcelos (Cia. Antropofágica)

– Há, no mínimo, quatro categorias de ações dos grupos de esquerda: redes de grupos que se reúnem para atividades de combate ao capital, aliados a movimentos populares, com organização de debates e formação; trabalho com frentes de luta da categoria; trabalho junto a movimentos sociais, com participação nas lutas de vários movimentos, como o MPL (Movimento Passe Livre), o MST, o movimento estudantil e a Flaskô (ou seja, a aliança dos grupos de teatro com os movimentos operário, camponês e estudantil é uma coisa que se apresenta); e, por fim, o trabalho de colaboração estético-política intragrupos, com reuniões para troca de experiências. Essas são frentes que apontam para uma luta que está crescendo e que tem uma mínima organização. Ainda não temos um programa, mas já temos algumas plataformas de atuação.         

 

Tarefas Fernanda Azevedo (Kiwi Cia. de Teatro)

 – Acho que dá para dizer que é uma tarefa a gente se reorganizar como movimento. Precisamos nos posicionar politicamente e pressionar o legislativo e o executivo. Vivemos em um país comandado por um governo “democrático” (não nos iludimos, no entanto, sobre a função de gestão do capital que cumpre o Estado) e a gente sabe que quem decide as leis, inclusive aquelas que possibilitarão materialmente as nossas vidas e nossos projetos, são grupos politicamente moderados.       

 

Fernando Kinas (Kiwi Cia. de Teatro)

 – Estamos vivendo, no Brasil, um período de reacomodação política. Para clarear o ambiente é preciso que haja organização, inclusive no campo cultural. Este movimento deve ser necessariamente anticíclico. Ele não pode ser apenas reativo ou conjuntural. É importante manter a memória das lutas e um nível mínimo de organização. E, principalmente, elaborar com clareza um programa que não se limite às leis, nem se reduza à política pública de cultura. É necessário refletir – esta é a terceira dimensão da questão – sobre o significado da arte e da cultura como projeto emancipador e civilizatório. Historicamente, as lutas dos trabalhadores e das trabalhadoras produziram instrumentos de ação, como o partido, o sindicato e o movimento social. Nós precisamos aproveitar o que há de bom nesta tradição e nestes acúmulos para encontrar o instrumento que melhor corresponda às nossas aspirações e necessidades, em sintonia com o momento atual.         

 

Márcio Boaro (Cia. Ocamorana)

– Os passos posteriores, organizativos, acontecerão pela própria prática dos grupos. A forma de produção – em grupo – desses coletivos de teatro está agora transbordando para além dos grupos e permeando todos eles. 

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