“A Justiça trabalhou como Justiça de classe”, afirma deputado

Para Ivan Valente, a Justiça agiu a favor da especulação imobiliária em detrimento dos direitos das famílias


23/01/2012


Michelle Amaral
da Redação


A violenta ação da Polícia Militar e da Guarda Civil de São José dos Campos (SP) contra os moradores da ocupação Pinheirinho na reintegração de posse realizada neste domingo (22), na avaliação do deputado federal Ivan Valente (Psol-SP), foi absolutamente ilegítima.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Valente, que participou do processo de negociação para permanência das famílias na área, afirma que, com a efetivação da reintegração de posse, os governos estadual e municipal e a Justiça estadual, além de descumprirem acordos para uma solução pacífica ao conflito, desacataram a Justiça federal, que havia determinado a suspensão da reintegração de posse por 15 dias. “Fomos surpreendidos no domingo de manhã com essa ação policial atropelando a decisão federal”, explica.

Na opinião do deputado, a expulsão das 1,6 mil famílias que ocupavam o terreno da massa falida da empresa Selecta, pertencente ao grupo Naji Nahas, atendeu aos interesses da especulação imobiliária que exerce forte pressão na região. “O PSDB, tanto na prefeitura de São José dos Campos como no governo estadual, com uma área de 1 milhão e duzentos mil metros quadrados com forte pressão do setor empresarial e imobiliário, certamente deixou predominar o poder econômico”, defende.
 
O senhor participou das negociações para permanência dos moradores. Poderia falar um pouco sobre o processo?
Desde o começo da semana, nós tentamos suspender a reintegração de posse do Pinheirinho que havia sido autorizada pela juíza na segunda-feira passada (dia 09). Conseguimos uma liminar federal que, teoricamente, cassou a decisão [de reintegração de posse], mas isso foi resolvido na madrugada de segunda (16) para terça-feira (17), quando a tropa de choque já estava lá [no Pinheirinho]. Falamos com o desembargador presidente do TJ (Tribunal de Justiça de São Paulo), Ivan Sartori, que aquela era uma questão social e não policial, que deveria ter uma solução política e social. Na quarta-feira (18) o senador [Eduardo] Suplicy , dois deputados estaduais e eu conseguimos uma audiência com o presidente do Tribunal e pedimos que, de alguma forma, ele fizesse a juíza suspender, mesmo que momentaneamente, a reintegração de posse. Ele nos indicou o juiz titular de falências, Luiz Bethoven [Giffoni Ferreira]. Nós tivemos uma reunião longa com ele junto com o sindico da massa falida da Selecta, Jorge Uwada, e o advogado da empresa, Waldir Helu. O juiz Bethoven, a nosso pedido - eu pedi 60 dias, o Suplicy falou 30 - acabou dando 15 dias de suspensão da reintegração para que as negociações avançassem, ou seja, surgissem propostas concretas dos governos federal, municipal e estadual. Nós conseguimos um despacho do juiz que, no mesmo momento, conversou com a juíza Márcia Loureiro. Ela certamente não gostou da decisão do juiz, mas se propôs a pensar. Enquanto isso, os advogados do movimento também entraram com uma nova ação na Justiça Federal, que novamente suspendeu a reintegração. Isso foi o que aconteceu até sexta-feira (20). A partir daí houve muita movimentação junto ao governo federal, em Brasília, com propostas de utilização de recursos do plano habitacional para o Pinheirinho. O prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury (PSDB), fez uma reunião com o senador Suplicy se propondo a ter algum grau de negociação. O governo estadual tinha se comprometido a encontrar uma solução política com o governo federal, também através do senador Suplicy, para dar infraestrutura para a área do Pinheirinho. Ou seja, haviam negociações em marcha.

Mas, então, fomos surpreendidos no domingo de manhã com essa ação policial, atropelando a decisão federal, e também com a juíza não acatando o próprio acordo que, de alguma forma, havia sido proposto pelo juiz da massa falida. Quando chegamos na ocupação, com a polícia já  intervindo, descobrimos que esse juiz, o Luiz Bethoven, a partir da convocação do Ministério Público, tinha revogado a sua própria decisão [de suspender a reintegração de posse por 15 dias] e que havia prevalecido a decisão da juíza Márcia Loureiro, com o aval do Tribunal de Justiça de São Paulo. Eu quero denunciar que a presidência do Tribunal de Justiça avalizou a desocupação. Nós entendemos que a Justiça trabalhou como Justiça de classe, ou seja, com o direito à propriedade acima do direito à vida. E, nesse sentido, atropelou todo um processo de negociações. Mais do que isso, [a ação] foi feita em um domingo para pegar o movimento desprevenido e o judiciário federal praticamente fechado.

Durante a desocupação tentamos cassar a liminar de reintegração via o STJ (Superior Tribunal de Justiça), mas, ao final do dia, o presidente do Tribunal, ministro Ari Pargendler, também deu razão à Justiça estadual. Ou seja, os órgãos principais da Justiça acabaram trabalhando, na minha opinião, não a favor de uma solução pacífica e política, mas a favor de uma solução truculenta, sem saída para os moradores e a favor daqueles que especulam imobiliariamente o local, o grupo Naji Nahas.

A intervenção policial tem essa característica de ser uma atividade exemplar para exatamente não haver novos assentamentos. A repressão aos moradores ocorreu à nossa vista e tentamos evitar ao máximo, mas é difícil, porque debaixo de uma ordem judicial com cobertura, inclusive, do Tribunal de Justiça e do governador [Geraldo] Alckmin (PSDB), os policiais estavam muito a vontade para operar. [Uma ação] lamentável sob todos os aspectos e, mais do que isso, uma atitude extremamente reprovável, porque as famílias agora não têm para onde ir, não há um plano habitacional para acolhê-las em outro local. Quer dizer, esse é o Brasil real, desigual.


Como havia um processo de negociação em curso, pode se dizer que a reintegração de posse levada a cabo pela PM foi ilegal?
Não dá para dizer que foi ilegal, eu diria que foi absolutamente ilegítima. Ilegal não, porque o próprio STJ acabou avalizando. O problema é que o julgamento da Justiça é feito a partir do direito de propriedade, com a injustiça social e uma justiça de classe. Certamente, do ponto de vista dos direitos humanos, dos direitos civis, da dignidade e do direito à habitação, essa [ação da PM] é moralmente condenável. A Justiça poderia ter agido sabiamente para uma solução política e social que, inclusive, estava em marcha.


No domingo, um juiz do Tribunal Regional Federal (TRF) chegou a determinar a suspensão da retirada das famílias, mas a ordem não foi acatada. A polícia federal poderia ter agido para manter a decisão da justiça federal?
Essa é mais uma questão polêmica, mas eu acho que sim. Na verdade, a Justiça Federal deu três liminares cassando a reintegração de posse. Uma delas foi no próprio dia às 10h30 da manhã, sem que a polícia tivesse completado a sua ação. [A reintegração]  podia ter sido suspensa. Então, eu acho que a Justiça Federal, obviamente, podia ter requisitado uma ação federal, ou pela polícia federal ou talvez pela força nacional. Ela podia ter feito algo para tentar cumprir a sua decisão. Acho que é plausível que ela fizesse isso, mas não fez. A Justiça estadual operou desrespeitando a decisão federal. Havia um conflito de competências, mas isso acabou sendo dirimido no STJ, infelizmente, através do presidente, e a favor do Tribunal de Justiça de São Paulo.


Na sua avaliação, o que tem levado os governos municipal e estadual e a justiça estadual a contrariarem a decisão do governo federal em manter os moradores na área?
Primeiro eu quero fazer um registro: eu acho que o governo federal demorou demais para agir. Ele foi inerte, poderia ter operado mais rapidamente através de seu plano habitacional e etc.. A segunda coisa é que para o PSDB, tanto na prefeitura de São José dos Campos como no governo estadual, com uma área de 1 milhão e duzentos mil metros quadrados com forte pressão do setor empresarial e imobiliário, certamente deixou predominar o poder econômico. Ao invés de terem uma visão para o social e atenderem os seus cidadãos, a prefeitura de São José dos Campos e o governo estadual optaram pela lógica de expulsar as famílias desvalidas de lá sem ter um plano de acolhimento.

Os moradores ocupam a área há oito anos. Por que agora essa decisão de retirá-los?
Essa ocupação tem oito anos e se consolidou bastante. Há muitas casas de alvenaria e houve vários avanços em termos urbanísticos no local. Mas não é a primeira vez que se tenta tirar os moradores de lá. Várias liminares foram suspensas nesse período de lutas. Eu acho que tanto o governo municipal quanto o estadual e a Justiça quiseram fazer do Pinheirinho um local exemplar para evitar novas ocupações. Inclusive com a ação policial absolutamente desmedida: 2 mil policiais militares com aparato bélico para enfrentar uma maioria de mulheres e crianças e idosos que ali moravam, e trabalhadores e trabalhadoras.


O que será feito a partir de agora para garantir a permanência das famílias na área?

Eu acho que não vai ser simples a permanência deles na área. O governo municipal e o estadual realmente não tem um plano habitacional. Eu espero que as pressões e denúncias e todo esse choque que gerou esse tipo de desocupação gere nos governos federal, estadual e municipal uma solução de moradia para essas milhares de pessoas que têm direito à habitação. Mas é difícil acreditar que os gestores da massa falida, depois da desocupação feita à força pela PM, tenham interesse em negociar preços mais baixos para o terreno com os governos. Essa área deve ser muito cobiçada pelo setor imobiliário, a especulação imobiliária deve ser muito forte. Então, dificilmente a própria área do Pinheirinho servirá de terreno às pessoas que já estavam lá, mas não vamos descartar essa hipótese, vamos esperar.



Então, o que pode acontecer é que as famílias sejam realocadas em outra área?
Ou fiquem nas ruas. Os governos são cruéis. Eles não têm plano habitacional para os excluídos, para os pobres. Então, nós esperamos que a partir da repercussão do fato e da pressão organizada do movimento se dê uma solução de moradia digna para eles.

Comentários

Reflexão

 

 

Ora a polícia escolta bandidos envolvidos no controle do crime organizado, ora age contra a população. Temos um IDH lamentável, fruto dos parcos investimentos na educação e na saúde. Os educadores lutam por salários dignos, enquanto alguns poucos recebem até 500 mil reais mensais. E dizem que a coisa está muito melhor, ou que um determinado índice não representa o crescimento. Se não representa é porque esse crescimento é muito tímido. É bom que fique claro que nós, o povo dono desse País, o Brasil, queremos ver progresso de verdade, não propaganda da Globo.  E que se exploda essa posição de 5ª ou 6ª economia, se isso não é revertido em ganho para o povo.

É como se fosse um pai rico, mas um pai rico que espanca seu filho e não lhe conduz à autonomia e à felicidade. O que a sociedade diria desse sujeito, diria que é um monstro, que é um fracasso de pai, ou que não é pai. Na mesma medida, um Estado que não tem os interesses da maioria como prioridade, é um Estado fracassado, ou não é um Estado e sim, crime organizado.

Fica claro então que é preciso ter virtude pra governar sociedades que vislumbram o desenvolvimento. Por enquanto só temos visto homens guiados por paixões, mesquinhos ao extremo.

Aqui vou recorrer à espiritualidade, já que a realidade anda difícil de encarar (não existe lógica nos procedimentos adotados pelo Estado, e não é por falta de referência (vide "A Política" de Aristóteles)). 

É preciso refletir sobre a vida. Nascemos e morremos, e uma coisa apenas parece ser nossa, a alma, o espírito, ou seja lá o que for. Esse período onde possuímos coisas é decerto muito curto. Não existe consenso sobre o que nos passa do outro lado. Pode parecer piegas, mas é o nosso destino certo, inclusive do ignóbil geraldo alkimem.

Voltando ao assunto sério e nos guiando pela lógica expressa na frase de Antoine Lavoisier "Na natureza, nada se cria, nada se perdetudo se transforma",  aconselho aos Governantes (inclusive ao covarde do geraldo)  que não pensem que vão deixar essa ilesos. Vão ter de prestar contas algum dia e sim, vão apodrecer num caixão. Pensem um pouco, e verão que o melhor que se tem a fazer é valorizar o povo dessa nação, dando saúde, educação e um tratamento digno.  Não queiram ser conhecidos como a causa do atraso desse País.

Bom, também não é lógico a situação de espectadores, se isso nos revolta é hora de organizar e propor um novo modelo de sociedade. 

Alckmin e o Massacre do Pinheirinho

RICARDO BOECHAT: "GOVERNADOR NÃO ADIANTA IR A MISSA TODO DOMINGO. NÃO ADIANTA REZAR, FALAR COM DEUS, LER A BÍBLIA..."

E ser na prática, no "mundo dos homens", alguém que faz isso com seus semelhantes.

Governador, procure na bíblia que o senhor lê, alguma passagem que lhe dá cobertura moral e ética para fazer o que ser fez com a Comunidade Pinheirinho.

OUÇAM: http://www.youtube.com/watch?v=mghmTSVEyrM&feature=player_embedded

Igor

Vejam mais este indicio de maracutaia do Estado:

https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=215666488527436&id=1185081689&ref=notif&notif_t=like#!/photo.php?fbid=3163565975093&set=p.3163565975093&type=1&theater

 

"notícia da Folha de S. Paulo de 01 de julho de 1969 sobre o misterioso “trucidamento da família Kubitzky”, ex-proprietária do terreno onde anos mais tarde acabou sendo instalada a ocupação do Pinheirinho. O caso nunca foi solucionado e, como a família não tinha parentes ou herdeiros, o Estado acabou incorporando a fortuna dos Kubitzky, inclusive os seus imóveis. Portanto, como Naji Nahas adquiriu o direito de propriedade de um "patrimônio público"?"

Pinheirinho: a justiça como justiça de classe

O Direito à Vida é maior que qualquer outro direito. No Pinheirinho a PM do governador alckmin matou pessoas. Houve genocídio. Li que o jurista Fabio Konder Comparato vai à OEA para denunciar. Desde domingo digo que se houve genocídio há que se pedir o IMPEACHMENT de alckmin. Genocidas não podem ser autoridade. Ou ele é o Hitler paulista que passa acima da Lei? Há vídeos, fotos e depoimentos que deixam clara a violação dos Direitos Humanos. Isto tem que circular pelo mundo, como circulou a foto de soldados americanos urinando sobre corpos afegãos.  Não é sob essa alegação que a Líbia foi atacada pela OTAN? Não é sob essa mesma alegação que estão se preparando para atacar a Síria? O governador alckmin não foi eleito para mandar a PM sair matando, batendo agredindo cidadãos paulistanos indefesos. Por isto e por todas as ações já praticadas pelo fascismo do governador que creio ser pertinente PEDIR A CASSAÇÃO JÁ DO GOVERNADOR GENOCIDA geraldo alckmin..

 Todos falam de democracia.

 

Todos falam de democracia. Enxergamos aqui uma constituição viciada, que faz da nossa nação um número, como esses 1,6 mil famílias. Essa ação faz sentir que os governantes além de conhecer a democracia, eles a temem.  Afinal de contas, esse pessoal dessa comunidade estava  pensando em seu próprio bem estar, em sua felicidade. Talvez alguns deles chegassem perto desse estado de espírito, mas o Estado da "Ordem e Progresso", multiplicou, multiplicou o sofrimento. Isso não é progresso. Isso é o inverso, o retrocesso. Tiraram as casas, a autonomia, a dignidade, o direito de ser feliz. Será que podemos calcular isso? Isso é absolutamente imoral.

O que temos são governantes egoístas. Não sabem exercer suas funções conforme os princípios que levam à multiplicação de uma sociedade mais igual. Vivemos num país de tantas desigualdades, de tanto desrespeito, que parece que os nossos nervos se inflamaram, tudo incomoda, mas não sabemos como nos livrar desse incômodo.

 

Democracia que me engana na

Democracia que me engana
na gana que tenho dela
cigana ela se revela, aiê.
Democracia que anda nua
atua quando me ouso
amua quando repouso;

É o demo o demo a demó
é a democracia.

(Tom Zé)

Quem paga o salário da juíza

Quem paga o salário da juíza que deu sentença contra a vida de 1600 famílias ? Quem paga os salários do comandante que ordenou a repressão ? quem paga os salários dos burocratas que participaram da decisão ? Com certeza em uma sociedade justa não haveriam juízes e juízas como esses e nem tampouco polícias e burocratas fascistas. Mas pode ser que essa sociedade justa ainda esteja um pouco longe. Mas isso não nos impede de pensarmos coisas do tipo: uma nova constituinte exclusiva e soberana - não importa que o congresso não queira - ela virá se milhóes começarem a pensar e agir a partir daquela idéia. Teto máximo de salários pagos para funcionários públicos , incluindo juízes , 15 salários mínimos. A revogação de mandatos eletivos , eleição de juízes para as instâncias superiores , o controle externo do Judiciário , extinção do Senado , etc , etc. O que temos agora é uma farsa democrática. O ato de eleger algum representante é apenas o primeiro pequeno passo para a democracia e esta , não pode estar desvinculada a termos o controle social de todo poder. Democracia Real Já!


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