Meteora e o amor proibido entre uma freira e um monge

Por amor a Deus, homens e mulheres isolam-se nos mosteiros e conventos de "Meteora"

 

14/02/2012

  

Rui Martins

De Berlim (Alemanha) 

 

Por amor a Deus, homens e mulheres isolam-se nos mosteiros e conventos de "Meteora". Mesmo assim, o filme Meteora, na competição em Berlim, mostra que o amor humano e a conjunção carnal são tentações capazes de resistir à água benta, ao incenso e aos cânticos gregorianos. Ícones, incenso, cânticos, velas e mulheres vestidas dos pés à cabeça com longos vestidos cobertos de mantas ou véus, que lembram o chador, pouco faltando para a burca muçulmana, assim é o filme, que mostra o mosteiro masculino e o convento ortodoxo feminino em Tessaly, no alto de montanhas quase inacessíveis a 550 metros de altura. 

Os primeiros eremitas fixaram-se ali no século XI e mais tarde, diante da ameaça dos turcos, os ortodoxos construíram, no século XIV, um refúgio. O cineasta grego, Spiros Stathoulopoulos, filho de mãe devota grega ortodoxa, escolheu "Meteora" como lugar do encontro entre um monge grego e uma freira russa, num caso de amor proibido, mas praticado entre atos de devoção, sem a frequência que poderiam querer os pagãos. 

A história de amores proibidos entre padres e freiras que fazem votos antinaturais de castidade tem como mais conhecido o casal Heloisa e Abelardo, de que se fala mesmo ter ficado grávida do seu amante proibido. 

Em "Meteora", ele chama-se Theodoros e ela não tem nome, uma simples freira devota que se autoflagela queimando a palma da mão com a chama da vela, provavelmente para se purificar, não se sabe do quê, pois quase perto das nuvens e isolada do mundo pouco pecado poderia ter. Mas a tentação é grande e tanto ela como Theodoros apaixonam-se, a ponto de comunicarem nos dias de sol com os reflexos de espelhos lançados de suas respectivas janelas. 

Eles vivem entre o desespero e a liberdade, até o momento de concretizarem o pecado do desejo carnal. Não se sabe se o amor pode redimir monges e freiras, mas Theodoros e a sua amante, não mais virginal, retornam depois do coito proibido às suas velas, incensos e litanias. 

O filme tem dois tipos de apresentação - a real com personagens de carne e osso, e a em desenho, não faltando uma cena do que se poderia imaginar ser o inferno. E, surpresa, a leitura do filme pode ser feita tanto por beatos de todos os credos como agnósticos e ateus. Uns elogiando, na entrevista coletiva, o clima de misticismo e de devoção reinante nos 82 minutos de projeção; e os outros surpresos com a irreverência perto da blasfêmia e da heresia mostrada. 

Belo filme, com a sua iconografia e a narração que enfatizam a alegria do salmista que, ao louvar o Senhor como seu pastor, se define como simples carneiro. Provável grande surpresa do Festival pelo milagre de contentar crentes e não crentes.

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