Entre a glória e a tragédia

Heleno de Freitas, o jogador que morreu pobre e louco num hospício de Barbacena, revive nas telas  

24/04/2012

Maria do Rosário Caetano

de São Paulo (SP)

 

O jogador Heleno de Freitas, que chega às telas na pele de Rodrigo Santoro, viveu apenas 39 anos. Alguns deles, como ídolo popular. Outros, como louco, num hospício de Barbacena (MG). Foi o astro supremo do Botafogo, nos anos de 1940, sagrou-se campeão pelo Vasco da Gama, passou pelo Boca Juniors, na Argentina, e pelo Barranquilla, na Colômbia.               

O ator Rodrigo Santoro na pele do

jogador Heleno de Freitas - Foto: Divulgação

A sífilis – que ele se recusou a tratar na hora devida, por temer prejuízos a sua carreira – trouxe graves complicações a uma vida vivida com rara intensidade. Seja no campo amoroso (era mulherengo assumido), seja na relação com os colegas (via os jogadores de seu time como pernas-de-pau que não davam o que deviam dar ao Btafogo), seja no trato com os cartolas (chegou a ameaçar o técnico Flávio Costa, do Vasco, com um revólver), seja no consumo de álcool e éter.    

No auge de sua carreira como jogador, o astro que os torcedores do Fluminense - para seu desespero - chamavam de “Gilda” (referência à temperamental personagem de Rita Hayworth, no filme de 1946) teve seus méritos reconhecidos e enaltecidos. Pelos fãs e pelos adversários. Por gente do calibre do flamenguista José Lins do Rego e do fluminense Nelson Rodrigues. Também pelo escritor colombiano, Gabriel García Márquez, que o viu jogar no Barraquilla. Por causa de Heleno, Armando Nogueira tornou-se fiel torcedor do Botafogo       

Postumamente, Heleno, que nasceu e morreu em Minas Gerais (São João Nepomuceno- 1920/Barbacena-1959) foi personagem de Sérgio Augusto (no livro Botafogo, Entre o Céu e o Inferno) e Marcos de Castro (Gigantes do Futebol Brasileiro). E tema da biografia Nunca Houve um Homem Como Heleno (citação do slogan publicitário do filme Gilda – “nunca houve uma mulher como ela”), escrito por Marcos Eduardo Nunes (segunda edição, ampliada e fartamente ilustrada, acaba de chegar às livrarias).    

Bipolar

José Henrique Fonseca, filho do escritor Rubem Fonseca, dedicou os últimos cinco anos de sua vida à cinebiografia de Heleno de Freitas. Encontrou em Rodrigo Santoro parceiro dos mais dedicados. Além de atuar como co-produtor (e sair em busca de patrocínios), Santoro emagreceu doze quilos para dar conta do Heleno dos anos terminais, vividos no hospício de Barbacena. São comoventes as sequências derradeiras do filme, em que ele é visto arruinado pela loucura, mastigando recortes de jornais que narravam suas glórias e contando apenas com o carinho de seu cuidador (magistralmente vivido pelo ator Maurício Tizumba).     

O vascaíno José Henrique (o Vasco é também o time de Santoro) quis realizar o filme “em preto-e-branco, as mesmas cores do alvinegro da estrela solitária”. Convocou Walter Carvalho para assinar as arrebatadoras imagens do filme. Quem estiver atrás de uma biografia convencional de Heleno de Freitas vai decepcionar-se. O diretor e seus co-roteiristas (o brasileiro Felipe Bragança e o argentino Fernando Castets) optaram pelo mito.                

Heleno é visto como um homem de beleza apolínea, que arrebata o coração das mulheres (em especial da jovem Sílvia, interpretada por Alinne de Moraes, e o da cantora Diamantina, vivida pela colombiana Angie Cepeda). É também um jogador obsessivo, que busca a perfeição e xinga furiosamente os colegas de time. “Hoje” – pondera José Henrique – “o definiríamos como um bipolar ou portador da síndrome de déficit de atenção”. Na época, era tratado como um atleta temperamental que não conhecia limites. E que acabou enlouquecido pela sífilis. Isto, depois de viver um casamento que durou apenas dois anos e gerou um filho (Luís Eduardo de Freitas) que a mãe criou longe do complicado ex-marido. Filho que, hoje, ajuda a divulgar o filme e a memória gloriosa (e sofrida) do pai.     

Heleno é uma história de amor que acaba mal. Um triângulo amoroso entre o jogador, a jovem e bela Sílvia (o nome real de sua esposa era Ilma) e a cantora Diamantina (que simboliza as muitas amantes que passaram por sua vida). O visual das duas mulheres evoca a bela Gilda, de Rita Hayworth, mas o filme evita, a todo custo, as armadilhas das citações metalinguísticas. Nos palcos de casas noturnas cariocas, Diamantina canta Duerme Negrita (sucesso do cubano Bola de Nieve) e outros hits dos anos dourados. Sem cair na tentação de recriar a famosa sequência do “strip-tease de luvas” que “desnudava” Gilda aos olhos do público.     

Já decadente, com suas forças derradeiras, Heleno foi jogar no América, o time do coração de Lamartine Babo. Nele, faria sua estreia no recém-inaugurado Maracanã. Os cinéfilos-boleiros, naquele instante, supunham que José Henrique cairia na tentação e citaria Coppola (Selvagem da Motocicleta) colorizando a camisa vermelho-sangue americana. Mas ele resistiu.              

O que o diretor quis foi recriar, ficcionalmente, os amores, as glórias e tragédias vividos por um dos mais brilhantes jogadores da história do futebol brasileiro. Sabendo que o espectador não acredita na reencenação de grandes jogadas. Por isto, de futebol em campo, o filme mostra muito pouco. Só alguns lances viris, em planos aproximados.    

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