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Paraguai, ou a direita fora do governo

by jpereira last modified 2008-04-23 08:22
Contributors: Editorial Brasil de Fato (ed. 269)

A vitória de Lugo no Paraguai fortalecerá um novo perfil que se esboça na América latina

A vitória de Lugo no Paraguai fortalecerá um novo perfil que se esboça na América latina

23/04/2008


Editorial Brasil de Fato (ed. 269)


À frente da Aliança Patriótica pela Mudança – APC, o ex-bispo Fernando Lugo derrotou 61 anos de permanência ininterrupta do Partido Colorado (de direita) na Presidência do Paraguai. Fato importante e que saudamos, a vitória do ex-bispo Lugo reforça a tendência que vêm manifestando os povos do Continente de construírem e se alinharem ao lado das propostas de mudanças, de candidatos progressistas e/ou de esquerda. Tendência na contra-mão do que se registrado na Europa.


Conseqüência importante e também animadora da vitória dos aliancistas paraguaios é que, tendo de enfrentar uma derrota e o subseqüente afastamento do governo do país, as elites paraguaias, que há gerações não conhecem essa condição, imediatamente após o anúncio pelo Tribunal Eleitoral da vitória do candidato da APC, já começaram a trocar insultos entre si. Bom sinal, dupla vitória. Esperamos que o Partido Colorado percorra o mesmo caminho de degradação lenta, gradual, porém segura que trilhou no Brasil a antiga Arena, metamorfoseada em PDS e em seguida em PFL, para hoje – velha e decadente – travestir-se de DEM, cadáver insepulto graças ao esforço inaudito dos tucanos de o arrastarem de palanque em palanque na condição de candidatos a vice-qualquer-coisa.


Mas, se para fora, e com relação ao inimigo, a APC deverá aproveitar as dissensões para alimentar a fogueira colorada – internamente, sem dúvida, seu trabalho no sentido contrário será um tanto mais titânico: manter e aprofundar a unidade política de uma frente composta por nove partidos e 20 movimentos populares. Uma costura que exigirá habilidade e paciência (sem perder a firmeza). Sobretudo que o vice-presidente eleito, senhor Federico Franco, pertence e representa o Partido Liberal Radical, a segunda maior força partidária do país, depois dos colorados.


Reformas do Estado e Constituinte


Em termos de aparelho de Estado, um dos maiores desafios será enfrentar uma endêmica corrupção e um corpo de funcionários que foi se encastelando em cargos e assumindo ao longo de tantos anos o controle dos seus diversos mecanismos de funcionamento, e cuja grande maioria ali foi parar sem outro critério de contratação que não o QI (quem indica). E quem indicava era o Partido Colorado.


No entanto, o anúncio do presidente eleito de que convocará uma Constituinte para o próximo ano (2009) é uma acertada decisão, capaz de – entre outros importantes ajustes – resolver ou pelo menos encaminhar uma solução para o problema acima apontado. Aliás, esses tipos de reformas, ou se faz no primeiro ano de Governo, ou não se faz.


A questão continental

A vitória da APC, sem dúvida, fortalecerá – ao lado de políticas levadas a cabo por países como a Argentina, Brasil, Uruguai, Chile, Bolívia, Equador, Venezuela, Nicarágua e Cuba um novo perfil que se esboça na América latina. Em que pesem nuances (ou até abismos) entre os governos desses países, eles têm desempenhado papel extremamente positivo no Continetne. Para ficarmos em apenas dois exemplos, lembramos o repúdio à Alca e fortalecimento do Mercosul; e a garantia da paz na região e resistência às tentativas de Washington de impor sua política de “guerras preventivas”, “combate ao terrorismo” e “flexibilização de fronteiras”, cuja importância ficou provada na recente crise desencadeada com a agressão das forças de Bogotá, contra o Equador.



No entanto, há nós fundamentais a serem desatados com os governos de Brasil e Argentina, e que dizem respeito diretamente à questão da “soberania energética” do Paraguai: as hidrelétricas de Itaipu e de Yacyretá. Através da primeira Assunção garante energia a preço de custo para o nosso país, e com a segunda, para a Argentina. E mais, de acordo com os contratos (ainda dos anos 1960), o Paraguai fica para si com apenas 12% da energia gerada, sendo obrigado a exportar o restante de cada hidrelétrica para respectivamente cada sócio.


Ainda que seja um assunto delicado – e que a grande mídia comercial tenta explorar da forma mais desagregadora possível – parece-nos que os indícios são positivos: não apenas as relações do novo presidente paraguaio com a presidenta Cristina Kirchner vêm sendo das melhores, incluindo a presença da representante das Mães da Praça de Maio, Hebe Bonafini, ao lado do candidato da APC durante o dia da eleição, como, da parte de Brasília, temos o precedente do gás da Bolívia que encontrou, através do Planalto e do Itamaraty, uma saída capaz de contemplar as justas reivindicações de La Paz.


De todo modo, coerentes com internacionalismo que pregamos em nossas páginas, o novo presidente e o povo paraguaio sabem que podem contar com a nossa solidariedade para que lhes seja feita justiça.


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