A Ditadura Reencarnada 2 – A Missão
O cronista Elio Gaspari reproduz de forma ampliada a destruição e desagregação iniciadas pelos torturadores, há 40 anos
27/03/2008
Alipio Freire
Tínhamos razão quando escrevemos, na edição anterior (leia artigo), que a situação do senhor Orlando Lovecchio Filho, que perdeu uma perna depois de ferido pela explosão de uma bomba colocada por um comando da Ação Libertadora Nacional (ALN) no Consulado dos EUA em São Paulo, era apenas pretexto para o artigo “ Em 2008 remunera-se o terrorista de 1968”, do jornalista Élio Gaspari, publicado na Folha de S. Paulo.
Não fosse assim, depois das mensagens enviadas à Folha de S. Paulo, e do nosso artigo anterior, já teria o jornalista encontrado o caminho para garantir a reparação cabível ao senhor Lovecchio. Diga-se de passagem, este último também.
A gangrena que levou à amputação resultou do fato de haver sido o senhor Lovecchio retirado do hospital (onde era atendido) e levado para a Delegacia da Ordem Política e Social (Deops) para interrogatório, somente depois do que foi devolvido à casa de saúde, com o membro atingido já então em processo de gangrena; tendo em vista que explicamos, no mesmo artigo que “todo Estado é responsável pela integridade de seus cidadãos sob sua custódia e que, não cumprindo esse seu dever, pode e deve ser processado”; se o objetivo real fosse a defesa dos direitos da vítima, já teriam, cronista e/ou vítima, constituído advogado para processar o Estado.
Mas pela postura assumida pelo senhor Lovecchio que, ao invés de procurar seus direitos, foi pesquisar os depoimentos sob tortura dos que colocaram e dos que supostamente teriam colocado a bomba no Consulado; pelo novo artigo publicado na Folha e em O Globo, no domingo 23, pelo senhor Gaspari (“O terrorista de 1968 remunera-se em 2008”), onde tenta achincalhar – ainda que entrecortando o texto por frases de um bom-mocismo postiço – os militantes que acusa também a partir de depoimentos obtidos sob sevícias; fica cristalino que está muito longe da verdade que estejam movidos por qualquer objetivo de justiça.
Me engana, que eu gosto.
Não, não me engane,
pois eu não gosto
Não é de estranhar que o cronista trate esses depoimentos obtidos sob tortura e seus autores desrespeitosamente. Em “A ditadura escancarada”, segundo livro de sua tetralogia, sob o pretexto da ineficiência da denúncia moral da tortura, exime-se o escritor de condená-la desse ponto de vista, passando a abordá-la apenas de um ângulo funcionalista. Isto é, esforça-se em mostrar como a utilização da tortura pelos governos do pós-64, os levou a engendrar sérias contradições internas, pelas quais tiveram de pagar alto preço, sobretudo no momento da transição (quase lamenta). Um dos pressupostos é que parte da cúpula e setores intermediários do regime desconhecia e/ou condenava esses métodos ou, pelo menos, não sujavam as mãos, faziam vista grossa e/ou usavam de bom grado o método aplicado nos “porões”.
Ora, essa manobra diversionista tem, pelo menos, tripla conseqüência:
1. Retira o foco do central da questão, que é MORAL, e não “técnico-operacional”. Sim, é uma questão MORAL e faz parte da grande disputa de valores que temos de travar, para banirmos esse tipo de prática injuriosa do nosso país e do mundo.
2. Transforma torturadores e mandantes em vítimas de si próprios, de sua “inocência”, obliterando da cena o objeto de suas sanhas, os torturados.
3. Tenta nos fazer pressupor que aquele regime seria possível sem tais práticas.
Embora cansativo, é forçoso repetir: a violência – entre as quais, as torturas, assassinatos e ocultações de cadáveres – não foi um acidente do regime. Ela era condição sine qua non para o sucesso do programa dos golpistas. Sabemos, através de pesquisa do Ibope realizada menos de um mês antes do golpe, que o país estava dividido em termos de opinião no que dizia respeito às reformas anunciadas pelo presidente João Goulart no comício de 13 de março, na Central do Brasil. A maioria (59%) apoiava as reformas .
A violência (incluídas as torturas) foi, assim, um dos elementos da racionalidade política do grande capital, do latifúndio, da maioria esmagadora da mais alta cúpula da Igreja Católica de então, da “direita ideológica”, dos políticos (civis) que empolgaram o 31 de março, da imprensa que conspirou e apoiou o golpe, da maioria dos altos comandos das forças armadas, dos seus aliados e apoiadores internacionais – em especial o capital e governo dos EUA.
Ou seja, aquelas torturas não fugiam ao controle dos dirigentes do País (civis e militares), não aconteceram “nos porões” sem a ciência, consciência ou planejamento dos governantes e/ou das lideranças das classes, setores, grupos e corporações que promoveram e foram base de sustentação do regime. Afirmar o contrário é tão tolo quanto dizer que os Orleans e Bragança e sua corte não sabiam o que acontecia nas senzalas e pelourinhos, ou que os capitães-do-mato fugiam do controle dos seus senhores.
Não é o torturador quem faz a tortura,
mas a tortura é que faz o torturador
Por fim, reafirmamos: ordena a MORAL que, quando se trata de emitir opinião ou dar informações sobre militantes que sucumbiram às torturas, nunca é demais observarmos que, se não tratamos adequadamente a questão, corremos o risco de reproduzir, de forma ampliada, a destruição e desagregação iniciadas pelos torturadores, o que costuma atingir não apenas o torturado, mas também seu círculo mais próximo de afetos (familiares e amigos).
É repugnante e eticamente intolerável imaginar que possamos em algum momento dar seqüência à obra iniciada pelos sicários.
Ao expor publicamente depoimentos obtidos sob tortura sem qualquer outro objetivo senão tentar remendar as mentiras apontadas em seu artigo anterior; sem outro cuidado com a matéria que não sua obsessiva persistência em qualificar aqueles militantes como “terroristas”; o cronista reproduz de forma ampliada (bem como o senhor Lovecchio) a destruição e desagregação iniciadas pelos torturadores, há 40 anos.
Ou seja, o jornalista Gaspari passa a torturar. Certamente não tem a intenção e não percebe que tem esse comportamento, pois não é um torturador. Mas, como ele bem conhece e cita de maneira oportuna em um dos seus livros, “Não é o torturador quem faz a tortura, mas a tortura é que faz o torturador” (J.P. Sartre).
Alipio Freire é jornalista, escritor e membro do Conselho Editorial do Brasil de Fato.
Leia também:
A Ditadura Reencarnada (18/03/2007)
Veja também os artigos escritos por Elio Gaspari, colunista de O Globo e Folha de S. Paulo
O terrorista de 1968 remunera-se em 2008 (23/03/2008)
Comentários - 5
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2 Reginaldo Pereira - 28-03-2008 - 20:43:39h
DitaduraExcelente as considerações do autor deste artigo.Até então considerava a obra de Gaspari sobre a ditadura um dos melhores estudos realizado sobre o assunto,ainda que lamentasse a perspectiva utilizada como o tachativo "terrorismo" de quem lutou contra a repressão.Este artigo vem a calhar demonstrando que a perspectiva de quem desenvolve um tema é imprescindível para conhecermos de forma satisfatória um fato.O tema é relevante posto que a repressão que "fere" a dignidade humana é atual,apesar de revestir formas ocultas de expressão e a luta e a denúncia são igualmente necessários e legítimos para a superação de tais práticas e a transformação da vida humana.Parabéns!
3 Marcos Mello - 31-03-2008 - 14:38:47h
Elio Gaspari e seus textos torturadores!!Parabéns Alípio, muuuuito boa tua análise!
É justamente esse o papel que o velhaco Elio Gaspari desempenha atualmente: tentar "honestizar" as ações da direita brasileira durante o golpe anti-democrático que deram. Com seus textos bregas, esse pau-mandado da direita, tenta convencer, não sei que tipo de imbecil, de que os torturados são os criminosos, e os torturadores, as vítimas!!
É o fim do mundo!
Não é a toa que escreve pro Globo e pra Folha! Jornalecos da direita!
4 João Donizeti da Silva - 03-04-2008 - 14:42:53h
A Ditadura ReencarnadaÈ vergonhoso ver pessoas defender o horror que foi a ditadura militar.
1 Cristiano Rogerio Candido - 28-03-2008 - 15:54:01h
DúvidaOnde o sr quer chegar com esse texto???? Se tivesse entendido eu não estaria perguntando...