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A Itália gesticula, mas é só encenação

by Admin last modified 2009-01-29 15:06
Contributors: Rui Martins

Reação do governo europeu, que chamou no dia 27 seu embaixador no Brasil, não passa de jogo de cena para esconder efeitos da crise econômica em seu país




29/01/2009

Rui Martins

Cesare Battisti é agora um simples pretexto utilizado pelo governo neoliberal e antiestrangeiros do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi para mascarar a crise capitalista de seu país com consequências em termos de desemprego, baixa do poder aquisitivo e ameaça de falência de empresas.

A carta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviada ao seu colega italiano e o parecer do procurador-geral da República Antonio Fernando Souza em favor do arquivamento do pedido de extradição de Battisti colocaram um fim na questão. Porém, o governo da Itália continua com encenações diversas que são, na verdade, medidas de distração destinadas apenas ao consumo interno para evitar o ridículo diante da população, depois de duas negativas de extradição – pela França e agora pelo Brasil.

Amistoso ameaçado?

A situação chegou a ser cômica quando o subsecretário das Relações Exteriores da Itália, Alfredo Mantica, ameaçou cancelar a participação da Itália no amistoso de futebol contra o Brasil, marcado para o dia 10 de fevereiro em Londres (Inglaterra).

Pouco tempo depois, o governo italiano percebeu que o esporte bretão não era um bom caminho e o subsecretário do Conselho de Ministro, Rocco Crimi, com a maior cara de pau, afirmou que uma anulação do amistoso nunca tinha sido colocada em questão.

Embaixador acionado

Mesmo depois do presidente brasileiro ter escrito ao seu colega italiano, caucionando a decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, o governo italiano continuou com sua pantomima para dar aos italianos a impressão de usar mecanismos de pressão sobre o Brasil.

Assim, o primeiro-ministro Silvio Berluscon chamou o embaixador italiano em Brasília (DF) para consultas. Mero gesto de desespero porque, na Europa, a imprensa enfatizou a reação brasileira de que tal medida não iria afetar em nada as relações entre os dois países.

Na verdade, tal medida, sem qualquer possibilidade de modificar a decisão brasileira, tem por objetivo dar aos italianos uma compensação, depois do governo Berlusconi ter prometido levar às prisões italianas os dois últimos italianos dos anos 70 envolvidos em ações armadas.

Primeiro revés

Marina Petrella, que pertenceu à Brigada Vermelha, tinha sido internada num hospital parisiense, em estado semi-comatoso, alguns dias antes de ser extraditada. Diante disso, o presidente francês Nicolas Sarkozy, atendendo a intervenções de sua cunhada e de sua esposa, que são italianas, decidiu perdoar a antiga extremista que, também fora perdoada pelo falecido presidente François Mitterrand, pois rompera há mais de vinte anos com suas antigas atividades, integrando-se na sociedade francesa como professora e constituindo família.

O segundo era Cesare Battisti, preso no Brasil desde marco 2007, cuja extradição parecia certa. Entretanto, depois das declarações do senador Eduardo Suplicy (PT/SP) e do deputado federal Fernando Gabeira (PV/RJ), criou-se um movimento em seu favor, que se acentuou no fim de 2008 com o apoio da ala esquerda do PT, sensibilizou intelectuais e culminou com a decisão do ministro Tarso Genro de negar a extradição à Itália e conceder refúgio humanitário da Battisti.

Libertação

Apesar de protestos da imprensa e governo italianos, o presidente Lula logo reforçou a decisão de seu ministro e declarou aos italianos ser uma decisão brasileira soberana. Durante a recessão das festas de final de ano, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, arguiu quanto ao mérito da decisão de Tarso Genro em lugar de conceder imediatamente a libertação de Battisti reclamada por seu advogado Luiz Eduardo Greenhalgh.

Atendendo a um pedido do ministro brasileiro da Justiça, o procurador-geral da República entregou seu parecer sobre o caso Battisti em favor de um arquivamento do pedido de extradição, dada a decisão de Tarso Genro. Por sua vez, o STF deverá tomar uma posição até o dia 2 de fevereiro quanto ao pedido de libertação de Battisti.

Encontra-se no Brasil, a escritora francesa Fred Vargas, líder do comitê francês e europeu de defesa de Battisti, que conta também com o apoio do filósofo francês Bernard-Henru Levy e do escritor Gabriel Garcia Marques.

França intocada

O jornal francês Le Figaro, no seu noticiário online, publicou com destaque a decisão italiana de chamar o embaixador no Brasil, sem acrescentar comentários. Na verdade, o presidente francês tinha prometido a Lula que não reagiria no caso de Battisti – preso, no Rio de Janeiro, há quase dois anos, numa operação policial francobrasileira – não ser extraditado.

Deve-se também destacar que a Itália não fez qualquer ameaça à França, quando Sarkozy perdoou Marina Petrella. Mas quanto ao Brasil diversas ameaças foram reativadas nesses últimos dias, como a da Itália de não apoiar a entrada do Brasil no G8. Ameaça esta transmitida à imprensa pelo ministro italiano do Interior Roberto Maroni.

Desdobramentos

O ministro italiano da Justiça, Franco Frattini, considera inaceitável a não-extradição de Battisti e disse ao jornal Corriere della Sera que estudará com o embaixador que outras opções são possíveis para obter a extradição.

O editorialista do jornal afirma que a decisão de chamar o representante não resolve nada, nem terá consequência, e coloca a Itália num beco sem saída, pois o país terá de reenviá-lo a Brasília. Entretanto, diz o editorialista Sergio Romano, "essa é uma dessas reações rápidas que os homens políticos costumam ter em situações análogas".

"O Brasil se sente poderoso em consequência de seu sucesso econômico e do modelo que ele representa", acrescenta o editorialita. Mesmo que o STF decidisse em favor de uma extradição, ela não seria concedida, pois o presidente Lula já considerou definitiva a decisão do ministro da Justiça, qualificando-a também de soberana.

Rui Martins é jornalista brasileiro radicado em Berna, na Suíça.


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