As eleições na França: perigo à vista!
A principal força da esquerda na França é o Partido Socialista, que pode ser considerado como uma variante da social-democracia européia, um pouco mais à esquerda do que o Partido Trabalhista inglês, de Tony Blair
18/04/2007
Michael Löwy *
Na França, a conjuntura das eleições presidenciais de abril e maio não se apresenta muito favorável para a esquerda: as sondagens indicam que o conjunto das forças de esquerda, da social-democracia aos revolucionários, está com o índice de apoio mais baixo desde 1969. Como se sabe, as eleições para presidente na França se dão em dois turnos: no primeiro, que será no dia 22, disputam doze candidatos; no segundo, em 6 de maio, só participarão os dois primeiros do primeiro turno. O favorito – perto de 30% da opinião pública – parece ser o candidato da direita, o ex-ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, adepto do neoliberalismo e de uma aproximação com o governo Bush. Agitando o espectro da “insegurança”, Sarkozy promete mais repressão contra os imigrantes sem documentos e contra a juventude rebelde dos bairros periféricos – em boa parte de origem árabe ou africana – que ele tratou de “canalha” (racaille, em francês).
Disputa com Sarkozy o voto reacionário o candidato da extrema direita, Jean-Marie Le Pen, herdeiro da tradição fascista – do regime de Vichy – e colonialista – guerra da Argélia – francesa. Anti-semita, racista e xenófobo, Le Pen quer “limpar” a França dos imigrantes árabes e africanos, que ele acusa, mentirosamente, de serem responsáveis pelo desemprego e pela delinqüência. Infelizmente, essa propaganda racista tem tido bastante eco e Le Pen aparece nas sondagens com um apoio de 16%, no mínimo. Nas eleições presidenciais de 2002, Le Pen criou a surpresa, passando ao segundo turno para disputar com o candidato da direita “republicana”, Jacques Chirac.
Uma das novidades – pouco simpática – dessa eleição é o sucesso do candidato François Bayrou, que aparece creditado de 20% dos votos; seu partido, de origem democrata-cristão, a UDF, sempre participou de todos os governos de direita. Mas, atualmente, Bayrou se apresenta como candidato do centro, “nem à direita nem à esquerda”, o que é uma mistificação: seu programa neoliberal pouco se distingue do de Sarkozy, salvo em um ou outro detalhe.
Esquerda
A principal força da esquerda na França é o Partido Socialista, que pode ser considerado como uma variante da social-democracia européia, um pouco mais à esquerda do que o Partido Trabalhista inglês, de Tony Blair. Sua candidata, Segolene Royal, aparece com 24% de apoio nas pesquisas; ela promete aos empresários mais lucros e aos trabalhadores um (pequeno) aumento do salário mínimo.
Restam ainda Dominique Voynet, candidata do Partido Verde, bastante satelizado pelo Partido Socialista, com uma previsão de 1 à 2%, e a esquerda radical, dividida em quatro candidatos: Arlette Laguiller, candidata já há trinta anos do partido trotskista Luta Operária (2 à 3%); Marie-Georges Buffet, secretária geral do Partido Comunista Francês (PCF), que se apresenta não como candidata comunista, mas como representante do conjunto da esquerda anti-liberal – sem convencer (2 à 3%); José Bové, antigo porta-voz da Confederação Camponesa e conhecida figura do Fórum Social Mundial e do movimento altermundialista (2 à 3%); e Olivier Besancenot, jovem carteiro, candidato da Liga Comunista Revolucionária (LCR, de origem trotskista), que se refere mais à Che Guevara do que à Trotsky. Besancenot é o melhor colocado nas sondagens, entre os candidatos da “esquerda da esquerda”: 3 à 5%, sobretudo entre a juventude.
Disputas
A divisão da esquerda radical é bastante desastrosa. Logo depois da vitória do “Não” contra a Constituição Européia neoliberal, em maio de 2005, se começou a discutir, no seio da esquerda anti-liberal, a possibilidade de um candidato comum. O nome que mais aparecia nessas conversas era o de José Bové. O partido Luta Operária se desinteressou, como de costume, dessa discussão e já lançou sua candidata, Arlette Laguiller. Quanto aos demais, em parte por sectarismo de uns e outros, e em parte por divergências políticas efetivas, o acordo não foi possível. A LCR queria que todos os participantes dessa coalizão se comprometessem a não entrar num governo social-liberal com o Partido Socialista; o PCF não aceitou essa demanda e preferiu deixar a questão em aberto. Se a LCR se declarou disposta à retirar seu candidato se houvesse um acordo político, o PCF pretendia que sua secretária geral fosse a candidata comum da esquerda radical. Como não houve acordo, os dois partidos lançaram seus candidatos, e os independentes – incluindo os sindicalistas e setores minoritários dos Verdes, do PCF e da LCR – resolveram apresentar José Bové; só que, agora, em vez de ser o candidato unitário comum, ele aparece como apenas um entre vários, disputando a faixa da esquerda radical.
Além disso, uma das dificuldades da esquerda da esquerda é a pressão pelo “voto útil”: para evitar o pesadelo de 2002, muitos eleitores da esquerda radical estão tentados a votar em Segolene Royal já no primeiro turno, para que ela – e não Le Pen ou Bayrou – possa ir ao segundo turno contra Sarkozy.
Como se vê, o panorama eleitoral é uma imagem bastante deformada do conflito de classes na França.
* Michael Löwy é cientista social, leciona na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais da Universidade de Paris. É autor de “As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen” (Cortez Editora, 1998) e “A estrela da manhã. Surrealismo e marxismo” (Civilização Brasileira, 2002), entre outras obras.
Comentários - 3
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2 ramon rodrigues ramalho - 18-04-2007 - 18:51:45h
as eleições na frança por michael loewyé impressionante como o discurso da direita de que os imigrantes são culpados pela delinquência e pelo desemprego (pois roubam o trabalho do francês comum) ganharam aderência da população francesa, que vota em peso na direita. é muito triste, mas a população européia como um todo está se tornando muito xenofóbica, uma vez que a direita consegue difundir suas idéias. por séculos os europeus exploraram e exploram as riquezas de quase todos so outros países (periféricos) do globo - mas eles querem a riueza só pra eles, impedindo outras pessoas e povos de dela usufruirem
3 amsl - 27-04-2007 - 15:29:45h
entender o comentarista"A divisão da esquerda radical é bastante desastrosa". Para quem? Sugere o autor abraçar a candidatura do PS? Não há candidato comum porque os projetos para a sociedade francesa, e não só para ela, não são comuns.
“O partido Luta Operária se desinteressou, como de costume [sic!], dessa discussão [do lançamento de um candidato comum da esquerda antiliberal] e já lançou sua candidata, Arlette Laguiller.” Um partido revolucionário deve abrir mão de uma candidatura, mesmo que fadada à derrota (estamos, não nos esquecemos, referindo-nos a um processo de luta de classes no seio de uma democracia burguesa) em prol de um reformismo que, historicamente, abre mão de quaisquer bandeiras “progressistas”, quando, real ou hipoteticamente, se sente ameaçado pela burguesia.
“Quanto aos demais, em parte por sectarismo de uns e outros, e em parte por divergências políticas efetivas...” Que é que é isso? Sectarismo? Divergências políticas efetivas? Bové é um exemplo de quê? Divergência política efetiva? Laguiller é exemplo de sectarismo?
“Além disso, uma das dificuldades da esquerda da esquerda é a pressão pelo voto útil...”, De novo, o tal do “voto útil”, no Brasil, deu no que deu, “Nelson, Danton e Farah, ‘pra’ senador, nós vamos votar, todos os três de uma vez” aliás, dará no que dará, sempre...
1 Mateus - 18-04-2007 - 14:18:53h
pq esconde outro candidato?impressionante! o unico candidato da "esquerda" que fala em romper com a União Europeia nao eh citado no texto de Lowy. Romper com a UE eh dar consequencia ao rechaço dos jovens e trabalhadores franceses que votaram NÃO a constituicao europeia em maio de 2005. www.schivardi2007.com