As pirâmides de Uribe
O acordo com os narcoparamilitares tem servido também para dar segurança jurídica aos benefícios de anos de terror
27/02/2008
Não se trata de uma daquelas pirâmides destinadas a perpetuar a memória de um império, que sucumbe depois de séculos de esplendor, como as do Egito ou do México, mas sim uma daquelas pirâmides como a da Albânia, em 1996, que inflam transitoriamente a economia para produzir euforia no povo e um respaldo efêmero, mas oportuno, a algum governo pertecente ao imperio.
Na Colômbia floreceram mais de 30 empresas fundamentadas no “Esquema Ponzi”, denominado assim pelo método usado pelo italiano Carlo Ponzi, quem em 1919 fez das suas na Itália, mas cuja propriedade intelectual corresponde à espanhola Baldomera Larra, quem o usou primeiro em 1876.
Assim, essas empresas não são do presidente Uribe ou do governo, mas se constituem como o cume da pirâmide especulativa, construída durante os últimos anos pelo governo que mostra, assim, que sabe navegar sobre a onda do auge econômico internacional provocado pela Guerra do Iraque a partir de 2003, usando como apoio o endividamente público “interno” mediante os bonos da dívida externa chamados de TES, que oferecem, (como qualquer pirâmide), interesses superiores aos vigentes no mercado mundial e tem atraído capitais e além disso, os fundos privados de pensões e aposentadoria e ao fundo público solidários de saúde.
O segundo nível da pirâmide especulativa foi edificado com o acordo de Ralito que desencadeou uma lavagem de dólares e euros dos narco-paramilitares desmobilizados, que precisamente por isso seguem desfrutando de um imenso poder.
Assim como nas pirâmides albaneseas esteve presente a Ndrangheta, a mafia calabresa, os narco-paramilitares colombianos têm estado conectados com essa mesma máfia. Máfia e política sempre caem bem aos manejos imperiais. O acordo com os narco-paramilitares tem servido também para dar segurança jurídica aos benefícios de anos de terror, obtidos não só pelos Macacos, Mancusos, Jorges 40 o Don Bernas, mas também por aqueles que financiaram para conseguir as terras dos camponeses, os contratos petroleiros ou mineros ou para destruir os direitos de seus trabalhadores.
E, meio ao período de ascenso do ciclo econômico internacional e sobre os escalões dos TES e de Ralito, o mercado de ações da Bolsa de Valores disfrutou de uma bonança que permitiu mil por cento de lucro durante o primeiro governo de Uribe. A Bolsa da Colômbia bateu o recorde mundial de crescimento.
Quando as pirâmides de Albania estavam em pleno crescimento ninguém podia falar mal delas sob o risco de ser linchado. Até o último camponês vendia suas vacas para investir. A carne estava barata na capital e todos estavam de festa. O governo era elogiado por todos, o senhor Berisha podia encarcerar social-democratas, socialistas e comunistas e todo o mundo aplaudia: Viva Berisha! Quando as pirâmides quebraram e o prejuízo se fez evidente, todos queriam linchar aos especuladores e derrubar o gobierno. Entre os prejudicados havia milhares de policiais e militares que entregaram armas ao povo. A ONU enviou uma força multinacional encabeçada pela Itália, que restabeleceu a ordem, començando pela cidade de Vlora, onde um Comitê de Salvação havia estabelecido um “poder popular”.
A primeira desordem na pirâmide colombiana,ocorreu precisamente na Bolsa, seguindo a queda dos mercados de valores nos Estados Unidos e no mundo. Isto já está provocando perdas enormes aos fundos de pensão de aposentadoria, que em conjunto são o segundo investidor do país e cujo destino se joga sobre a futura velhice dos atuais trabalhadores. Mas os efeitos desta primeira “sacudida” sentem apenas os investidores da Bolsa, até agora. Enquanto nos Estados Unidos as vendas no Natal de 2007 foram péssimas depois da crise hipotecária, na Colômbia nunca haviam aumentado tanto, nas ruas, a clase média desfrutou ao máximo a bonança econômica, o que naturalmente não ocorreu nas favelas.
Os resultados das eleições para prefeito de Bogotá, dia 28 de outubro de 2007, refletiram a polarização característica dessa “bonança”. Nos estratos de maior renda o candidato uribista ganhou de 65 a 20%; nos estratos de menor renda o resultado foi inverso, venceu o Polo Democrático com o mesmo resultado: 65 a 20%. Nos bairros mais pobres, o cabdidato uribista amargou um terceiro lugar. Entretanto, essa irrupção dos pobres na eleição para prefeito ainda não se reflete em uma opção política nacional: o povo percebe os efietos da política neoliberal no local e os condena, mas ainda pensa que Uribe proporcionou mais emprego e comércio.
De fato muita gente pobre investe nos arredores de Bogotá qualquer peso que tem nas pirâmides. Ao tempo recebem ínfimos subsídios como os do programa nacional de “familias em ação”, financiados com a dívida pública. Se Uribe conta com a idolatria dos ricos e o fervor da classe média, ainda conta a tolerância dos pobres.
Mas a economia é inclemente e o ciclo econômico inevitável. Já há um enorme déficit comercial e as importações cresceram durante o auge muito mais que as exportacões. A economia do cliente principal, Estados Unidos, dá início a uma recessão. Venezuela compra mais de 20% das exportações colombianas, mas os problemas políticos são bem conhecidos e o governo colombiano se desespera por uma derrota de Chávez, para encontrar una saída para a crise iminente.
Os dólares e euros de Ralito estão em perigo pelas sentenças da Corte Constitucional e a Corte Suprema, que por um lado tem evitado declarar como delitos políticos os crimes de lesa humanidade dos paramilitares e que se designe como sedição sua atividade para-estatal; por outro lado têm processado penalmente 20% dos congressistas por seus vínculos com os paramilitares. Uribe tem contra atacado exigindo do judiciário que como presidente da Corte Suprema processa a seu primo e... o juiz é a Câmara de Representantes, dominada pela parapolítica, preparando de fato um golpe estado contra o poder judicial.
Em semelhantes circunstâncias, as pirâmides resultaram uma forma de manter o auge especulativo da economia. A Superintêndencia financeira finalmente sancionou a uma das vinte, mas a sanção não teve efeitos imediatos e provocou uma manifestação e protestos dos especuladores. Diante do escândalo, finalmente no início de fevereiro deste ano, a Superintendencia de Sociedades começou a investigar aos demás. Investigações tardias, porque se trata de um método de estafa mundialmente conhecido e de uma clara oportunidade para o dinheiro lavado, pois as sedes destas empresas se localizam, às vezes, em regiões onde a única atividade econômica é a produção de coca, mas também porque como na Albânia, milhares dos prejudicados são policiais e militares. En pleno centro de Bogotá, uma multitudão de policiais fazem fila todos os dias para depositar seus ganhos financeiros em uma pirâmide. Quem colocará a cascavel para esse gato?
Os fatores que levarão a queda da pirâmide colombiana estão lançados. Sem economia próspera, Uribe cairá assim como Berisha. Os parapolíticos não poderão continuar escondendo seus crimes detrás de mobilizações multitudinarias contra os crimes da guerrilha. Mas somente disso pode sair uma grande mudança: recordemos que depois da queda de Berisha, milhares de operários desempregados abandonaram a Albânia e logo depois os Estados Unidos e a OTAN desencadenaram os bombardeios a Iugoslavia e apoiaram a guerra dos albaneses contra os sérvios em Kosovo. O nacionalismo albanês converteu a Albânia em um dos poucos países do mundo onde Bush é bem recibido. Após 8 anos de sua queda, Berisha voltou ao poder. Uribe tem sua última carta, consagrar-se como campeão da cruzada de Bush e da Exxon-Mobil contra Chávez.
* Héctor Mondragón é economista colombiano.












