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Cristina Kirchner x “el campo”

by jpereira last modified 2008-06-23 13:29
Contributors: Silvia Beatriz Adoue

O agronegócio e os tradicionais proprietários rurais não estão dispostos a perder nem um pouco dos seus grandes ganhos

O agronegócio e os tradicionais proprietários rurais não estão dispostos a perder nem um pouco dos seus grandes ganhos

19/06/2008



Silvia Beatriz Adoue



O conflito entre o governo de Cristina Kirchner e os proprietários rurais começou pelo aumento das retenções (impostos) à exportação de cereais. Com o aumento, o governo pretendia tirar para o Estado uma fatia dos imensos lucros resultantes dos preços favoráveis no mercado internacional e também conter o aumento dos preços internos para os alimentos. O que estava em jogo, então, não era qualquer mudança no modelo agroexportador. Porém, o agronegócio e os tradicionais proprietários rurais querem aproveitar a ocasião propícia e não estão dispostos a perder nem um pouco dos seus grandes ganhos.

Os médios e pequenos produtores, assim como os comerciantes e prestadores de serviços que vivem em torno à atividade agroexportadora, têm menos fôlego para suportar a pressão impositiva ou qualquer suspensão na atividade econômica dos grandes. A sua adesão à tendência geral definida pelos grandes interesses é resultado da opção dos sucessivos governos por incentivar as exportações agrícolas para obter divisas. Adesão que seria quebrada com a adoção de uma política de incentivos à produção de alimentos para o mercado interno. Os grandes, em troca, prefeririam, mesmo se o governo oferecesse esses incentivos, produzir em larga escala, num volume que só pode ser absorvido pelo mercado internacional.

Os grandes encabeçaram então um grande movimento de “El campo”, com poucas e frágeis vozes destoantes, como a da Frente Nacional Campesina, que reúne pequenos produtores de algumas províncias e propõem um modelo de agricultura baseado no incentivo à produção de alimentos.

Os bloqueios de estradas por parte, sobre tudo, dos proprietários rurais médios e pequenos; a corrida para a soja, com episódios como a queima de pastagens em larga escala; desabastecimento e alta de preços são alguns dos desdobramentos desta queda de braço entre o governo e os empresários agrícolas.

O governo de Cristina Kirchner aposta numa radicalização nas negociações pelo recurso de acusar seus adversários de golpistas e apresentar esta tensão como uma reedição da disputa do primeiro peronismo com a tradicional oligarquia agroexportadora. Durante o primeiro período do governo peronista, o comércio exterior era controlado por meio do IAPI (Instituto Argentino de Promoción para el Intercambio), órgão do Estado que comprava a produção agrícola a preço definido por ele e assim monopolizava a sua venda no mercado mundial. Com a renda assim obtida, financiava o desenvolvimento industrial. As retenções agrícolas de Cristina Kirchner não são nem a sombra dessa política de incentivos à produção industrial, mas o discurso dela usa as roupas do peronismo de outrora.

Aquelas tradicionais famílias proprietárias foram base social de apoio ao golpe “gorila” (anti-povo) que derrubou Perón e forneceram às Forças Armadas levas e mais levas de oficiais, quadros para as sucessivas ditaduras militares. Tradicionalmente, sua expressão política era, justamente, o “partido militar”. Seu poder econômico é tal que todos os outros setores proprietários se tornam seus aliados. Esses proprietários vêm se modernizando e se compondo com as grandes empresas transnacionais que investem nos produtos e insumos agrícolas: Cargill, Dreyfus, Bunge e Born, Monsanto. E hoje são essas grandes empresas as que mais ganham com o modelo agroexportador.

A esta amálgama é atribuído o nome genérico de “El campo” nos meios de comunicação. Perante a perspectiva de desabastecimento e a “crise de autoridade” –promovida por esses setores do campo, diga-se de passagem-, as classes média e alta urbanas, as mesmas que acusavam aos trabalhadores desempregados que trancavam estradas para protestar porque, diziam, atentavam contra o direito de ir e vir, estão apoiando os bloqueios de “El campo”.

Se houve uma breve aproximação de setores médios urbanos, com seus “cacerolazos”, aos movimentos de trabalhadores desempregados em 2001, durante a reação ao “corralito”, quando viram as suas poupanças confiscadas, em pouco tempo “cansaram” dos cortes de ruas dos pobres. Se grande parte desses setores médios apoiaram eleitoralmente a Kirchner, em nome da ordem republicana e das instituições, hoje preferem se unir a “El campo”.

Kirchner convoca aos plebeus para apoiar o governo. É pouco o que oferece para aqueles que nada têm. As medidas impositivas não garantem o abastecimento e nem a contenção dos preços dos alimentos e as políticas sociais tendem para o clientelismo, distribuindo “planes sociais” (bolsas-família) e com um crescimento do emprego que não comporta nem minimamente as demandas.

Silvia Beatriz Adoue é argentina radicada no Brasil. É mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (2001) e doutoranda em Letras pela FFLCH-USP. É professora da Escola Nacional Florestan Fernandes.


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