Cutrale, símbolo do agronegócio internacionalizado
Empresa representa o processo de concentração de terras, produção e capital ensejado pelo modelo de subordinação da agricultura brasileira
23/10/2009
Ariovaldo Umbelino
O episodio da ocupação pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de uma das fazendas “invadidas” pela empresa Cutrale, de terras públicas da União na região de Iaras (SP), suscitou todo tipo de especulações na imprensa e, sobretudo, motivou os parlamentares ruralistas a pedirem uma nova CPI do MST e da reforma agrária.
Sobre o caso, ficou evidente a manipulação da mídia ao veicular a cena da derrubada de pés de laranja pelas famílias. Reprisado insistentemente em todos os programas, por todos os canais de televisão, foi o suficiente para demonizar todas aquelas pobres famílias que estão há mais de cinco anos debaixo de lonas pretas esperando o direito de trabalhar na terra.
Vandalismo!
A chamada “grande” imprensa não quis continuar pesquisando as outras denúncias de depredação de máquinas e “roubos” de casas de empregados, pois ficou evidente o circo armado pelo serviço de inteligência da Polícia Militar (PM), em conluio com a empresa, para criar um clima desfavorável às famílias. Logo, todas as autoridades, colunistas, políticos e assemelhados foram para a mídia esbravejar: vandalismo, vandalismo! Sem pensar e se perguntar quem teria feito de fato aquilo.
As famílias negam que tenham furtado qualquer objeto e destruído tratores. Aliás, para destruir tratores, precisariam, convenhamos, de uma certa dose de força bruta. E mais. Por que não se fez uma investigação? Uma simples perícia iria identificar que aqueles tratores estavam desmontados há muito tempo pela oficina de reparos da empresa, existente na fazenda.
Mas tudo isso é manobra dispersiva. Primeiro, para esconder que na região há 200 mil hectares de terras da União que vêm sendo sistematicamente griladas. E griladas por empresas cujos donos circulam por altas rodas da socialite paulistana. Mas mesmo assim o Incra já recuperou mais de 20 mil hectares que hoje assentam famílias de trabalhadores. Segundo, para esconder que a Cutrale “comprou” a área há apenas 5 anos, sabendo que não havia titulação, que havia um processo na Justiça por reintegração de posse pelo Incra. Por que então a Cutrale apostou em comprar terras baratas e griladas e enchê-las de laranja? Graças a seu poder de influência na sociedade brasileira e paulista.
A Cutrale é o símbolo do processo de concentração de terras, produção e capital ensejado por esse modelo de subordinação da agricultura brasileira aos interesses do capital internacional.
Omissão
Ninguém da “grande” imprensa noticiou que a Cutrale possui nada menos do que 30 fazendas em São Paulo e Minas Gerais, totalizando 53.207 hectares. E que, destes, seis fazendas com 8.011 hectares são classificadas pelo Incra, no recente cadastro de 2003, como improdutivas; portanto, passíveis de desapropriação. Entre as 30 fazendas não consta a área grilada de Iaras, pois não é de sua propriedade (veja tabela abaixo).
Uma colunista teve coragem de noticiar os vínculos partidários e as polpudas verbas gastas pela empresa nas campanhas eleitorais, em apoio a todos os partidos.
O fato é que a Cutrale é símbolo desse modelo de agronegócio subordinado ao capital internacional. Uma empresa de origem familiar do interior de São Paulo se vincula ao mercado externo, se associa com a Coca-Cola e passa a controlar, em poucos anos, a maior parte do mercado de laranja do Brasil e 30% de todo o mercado mundial de sucos. Hoje, cerca de 90% do suco produzido no Brasil é exportado.
Monopólio
Em poucos anos, o setor se transformou, de muitas e médias agroindústrias e de milhares de pequenos e médios produtores de laranja, num setor altamente oligopolizado. Hoje são apenas quatro grupos que controlam toda laranja: Cutrale (mais ou menos 60%); Citrosuco; Louis Dreifus Commodities – LDC (francesa); e Citrovita, da Votorantim.
A Cutrale tem esse poder todo porque possui uma empresa associada (joint venture) à Coca-Cola mundial nos EUA, de quem é fornecedora exclusiva em escala mundial. Por isso sua condição de empresa “Ltda.”, pois já é parte (menor) do monopólio mundial da Coca-Cola.
Numa reportagem de 2003, a insuspeita revista Veja denunciou a empresa Cutrale de ter subsidiária nas ilhas Cayman, como forma de aumentar seus lucros, ou quem sabe de evasão fiscal... e saiba Deus mais o quê.
Exploração
Essas empresas passaram a comprar terras e assim garantem uma base da produção de laranja suficiente para impor preços e condições draconianas aos pequenos e médios agricultores que antes produziam laranja para um mercado concorrencial. Os trabalhadores dos laranjais são superexplorados com salários ridículos, pagos por produção, sem nenhum direito trabalhista.
O resultado de todo esse processo foi que milhares de pequenos e médios agricultores tiveram que abandonar a produção de laranja. Entre 1996 e 2006, foram destruídos, segundo o Censo Agropecuário do IBGE, somente em São Paulo, nada menos do que 280 mil hectares de laranjais.
Mas a Globo não fez nenhuma reportagem. Nem o serviço de inteligência da PM de São Paulo se preocupou em filmar porque os pequenos e médios agricultores estavam destruindo seus laranjais!
Os parlamentares ruralistas realmente não têm consciência de sua classe – da burguesia rural. Em vez de defendê-la, ficam sempre puxando o saco da burguesia internacional. Razão tinha mesmo o nosso saudoso Florestan Fernandes: faltou-nos uma revolução burguesa nesse país, que pelo menos lhe desse sentido de classe e consciência de nação.
LEVANTAMENTOS DE ÁREAS DA CUTRALE

Ariovaldo Umbelino de Oliveira é doutor em Geografia, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Departamento de Geografia Humana – da Universidade de São Paulo (USP). É estudioso dos movimentos sociais do campo e da agricultura brasileira e autor de vários livros.
Comentários - 12
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2 Emerson - 26-10-2009 - 09:46:01h
quem é voce?acho que voce nao sabe quem é Ariovaldo Umbelino. Um professor da maior universidade do Brasil, conhecido pela contundência com que aponta os dedos sobre os problemas rurais no Brasil. é doutor ha mais de 30 anos.
Vê-se claramente que voce, Jorge Amaral, é um desses que compra o que a grande mídia vende. mais um consumidor alienado, que não pensa sobre todo o processo histórico de massacre aos pobres, em favor das grandes corporações. isso já vem desde 1500. voce deve ser um desses que está louco pra entrar no serviço publico e ficar mamando nas tetas do governo sem trabalhar. voce é mediocre.!!!!
3 Jorge Amaral - 26-10-2009 - 11:57:23h
Fora MST4 Emerson - 26-10-2009 - 20:39:23h
ah certoagora voce fez uma crítica ao MST, à forma como agem os lideres do MST. isso voce tem todo o direito de fazer! e concordar ou nao concordar com isso é visão de cada um. tenho o maior respeito pela opinião das pessoas, principalmente quando bem embasadas.
Mas o que voce havia feito anteriormente era desqualificar um profissional que voce, ao que me parece, nao conhecia a biografia. falou sem saber.
Voce fala que o Lula é ignorante (e isso acho tb). ignorante é quem fala sem saber o que está falando. nao desqualifique o que nao conhece.
pt saudações.
5 Eduardo Montesanti Goldoni - 29-10-2009 - 10:40:01h
Histeria Provinciana (Bem Peculiar da Nossa Elite Ignorante)Não, não tentemos aqui "desapequenar" a visão de mundo deles, Brasil de Fato; apenas sigamos com nossos ideais e nossa grandeza - a mesma grandeza que esses histéricos castraram em 21 anos de ditadura militar devastadora, da qual tão apaixonadamente sentem suas saudades.
Diz o vezo popular que "de médico e louco, todo mundo tem um pouco". Estamos vendo que de filósofo também. Esse é o século XXI, o século das doenças da moda, o streess, a depressão, a psicopatologia, a esquizofrenia.
Eduardo Montesanti Goldoni - São Paulo
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6 Zé Grande - 24-10-2009 - 07:58:20h
Abaixo a CutraleTemos que denunciar os 20 milhoes que esta empresa Cutrale colocou no bolso da bancada ruralista, para defender a concentração de terras das capitanias hereditarias, e todos os seus outros crimes. Além disso , sobre a grande mídia, temos 2 caminhos a seguir, ou revemos as concessões, para que haja um equilibrio melhor nos meios de comunição, ou investimos pesado nos meios de comunicação que defenda os probres do Brasil e a mudança da realidade social brasileira.
Sobre a Policia de São Paulo, é necessário mudar sua formação, nas academias, e mostrar que ela tem é obrigação de defender a justiça social, e não ficar puxando o saco de playboy, como os Cutrales. Mas isso estamos bem longe ainda, a policia vai ter que tomar muito tiro nas periferias, dos exlcuidos urbanos, (frutos do exodo rural, que sem opção, vão para o trafico de drogas), para começarem a perceber que o problema é sua visão de mundo errada, que ve o pobre como um criminoso de nascença.
7 Jorge Amaral - 24-10-2009 - 10:23:46h
Abaixo os sentimentos com objetivos pessoais8 Eduardo Montesanti Goldoni - 11-11-2009 - 13:10:07h
Raciocine Bem, Amaral9 Clivea - 25-10-2009 - 21:11:29h
SERÁ QUE TEM JEITO?10 Eduardo Montesanti Goldoni - 11-11-2009 - 13:17:28h
Só Faltou o... Clives? Jogar Fora Todos os Livros de Históriaestá obligado a vivirlo nuevamente
Frase extraída de Memoria Viva
Agora, "Clives", se é esse mesmo seu nome, só falta você jogar fora todos os livros de história.
A Justiça já absolveu os criminosos grandes da ditadura, como vive sendo benevolente aos mais poderosos. Agora só falta você sair à avenida Paulita e soltar rojão ao meio-dia por tudo isso.
Nada disso significa senso de inferioridade, mas realismo e resistência a uma classe que, se permitirmos, retorna aos piores monetos do nosso país. Respeito à memória e às vítimas eu tenho, não sei você - nem seu nome a gente sabe, não é?
Um abraço de Eduardo Montesanti Goldoni
www.edumontesanti.skyrock.com
11 Eduardo Montesanti Goldoni - 11-11-2009 - 13:24:14h
Só Faltou o... Clives? Jogar Fora Todos os Livros de Históriaestá obligado a vivirlo nuevamente
Frase extraída de Memoria Viva
Agora, "Clives", só falta o sr. jogar fora todos os livros de História. E nossa Justiça, para não perder o costume, anistioo TODOS os ex-ditadores desse país - muitos deles estão livres e soltos na política, como José Sarney Paulo Maluf.
Recordar nossa História não traduz sentimento de revanchismo nem de inferioridade, não, pois além de respeito à memória do país e suas vítimas, é um triste realismo: se permitirmos, os donos do poder aqui nos conduzirão novamente aos piores momentos desse país.
Disso ô s. não tenha d´´uvidas... Clives, se é que esse é mesmo seu nome,
Eduardo Montesanti Goldoni
1 Jorge Amaral - 23-10-2009 - 18:37:23h
filosofia é uma ciência ou ideologia ?