Índio Galdino, dez anos depois
Antes de ficar inconsciente, perguntava para os médicos que o atendiam: “Por que fizeram isso comigo?” Até hoje é difícil respondê-lo
05/03/2007
Paulo Maldos
Na madrugada do dia 20 de abril de 1997, o índio Galdino Jesus dos Santos, 44 anos, do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, do estado da Bahia, dormia no ponto de ônibus de uma praça pública de Brasília. Tinha ido para a Capital com uma delegação de oito lideranças de seu povo, com o objetivo de buscar apoio para as suas reivindicações no sentido de recuperação do território, invadido por muitos fazendeiros.A terra tradicional dos Pataxó Hã-Hã-Hãe é denominada de Terra Indígena Caramuru-Catarina Paraguaçu, possui 53.400 hectares e foi demarcada em 1934.
Naqueles dias, uma marcha nacional do MST havia chegado à cidade. Galdino participou da recepção aos sem-terra e de reuniões destes com autoridades, inclusive com o presidente da República da época, Fernando Henrique Cardoso, para colocar também as reivindicações indígenas. Galdino dormia no ponto de ônibus porque chegou tarde das reuniões na pensão onde estava hospedado. A dona da pensão se recusou a abrir a porta para ele.
Eram cinco horas da manhã quando Galdino acorda completamente em chamas. Socorrido por jovens que voltavam de uma festa, foi levado para o hospital. Tinha queimaduras em noventa e cinco por cento do corpo. Entrou logo em coma e faleceu às duas horas da manhã do dia 21 de abril de 1997. Antes de ficar inconsciente, perguntava para os médicos que o atendiam: “Por que fizeram isso comigo?”
Essa pergunta, até hoje é difícil de ser respondida. Essa pergunta sacudiu a sociedade brasileira na época, chocada com o horror da crueldade que ciclicamente nos atinge, às vítimas em primeiro lugar e, em seguida, a todos nós, em nossa auto-imagem de humanidade e civilização.
Os autores da barbárie foram cinco jovens de classe média brasiliense, um deles menor de idade. Numa noite vazia, resolveram atear fogo numa pessoa que dormia indefesa para, segundo declarou o menor, se divertirem. Cometido o crime, fugiram, mas um outro jovem que passava por ali, um chaveiro, anotou o número da chapa do carro dos assassinos e o entregou à polícia.
Depois da brutalidade, os criminosos foram para casa dormir, como se nada tivessem feito. Foram identificados e presos. Diante da comoção nacional ainda quiseram se defender, com o seguinte argumento: “Não sabíamos que era um índio, pensávamos que era só um mendigo.” Ou seja, em mendigos é permitido atear fogo.
Dez anos depois
Podemos olhar para este crime hediondo dez anos depois, e nos interrogar novamente: “Por que fizeram isso com ele?”
Continua difícil responder a essa pergunta - e os crimes bárbaros não cessaram.
Foram inúmeros os mendigos assassinados, muitos através do fogo, em praças e ruas das nossas cidades, durante as noites dos últimos dez anos. Suspeitos foram vários: policiais; seguranças; comerciantes; quadrilhas; apenas assassinos. Identificados e punidos? Nem um sequer nos vem à memória.
Na verdade, temos notícias desde 1984, de moradores de rua agredidos e assassinados, por grupos que atuam durante a noite, nas capitais e cidades do interior do Brasil. Nos dias 19 e 22 de agosto de 2004, sete moradores de rua de São Paulo foram brutalmente assassinados enquanto dormiam. Os principais suspeitos foram policiais que trabalhavam fornecendo segurança para comerciantes do centro da cidade. Em 2006, moradores de rua de Belo Horizonte foram agredidos com fogo. No dia 21 de março de 2007, em Garanhuns, no agreste pernambucano, um adolescente lançou gasolina e em seguida ateou fogo em dois moradores de rua, enquanto dormiam na varanda de uma casa abandonada: um menino de rua de 16 anos e um adulto, de 38 anos, foram internados com ferimentos graves.
O caso Galdino e o drama indígena
Quanto aos assassinos de Galdino, encontram-se em liberdade condicional desde o final de 2004. O menor não chegou a ser preso. Os maiores Tomás Oliveira de Almeida, Eron Chaves Oliveira, Max Rogério Alves e Antonio Novely Cardoso trabalharam na prisão, raro privilégio concedido a poucos na situação deles, e conseguiram abreviar a pena. Trabalharam e estudaram fora do presídio, estando em regime fechado, privilégio concedido pela Justiça, embora totalmente ilegal. Muitas vezes foram vistos nas noites de Brasília, bebendo com amigos, quando deveriam estar encarcerados.
Muitos indígenas foram assassinados, desde aquele abril de 1997 até abril de 2007: exatamente 257 indígenas em todo o país, segundo dados do Setor de Documentação do Conselho Indigenista Missionário, o CIMI.
Entre esses 257 indígenas, temos crianças, jovens, adultos e idosos: temos lideranças assassinadas em lutas pelo território; temos indígenas assassinados por outros indígenas; temos idosos assassinados por seguranças de fazendas; temos jovens assassinados por jagunços a mando de fazendeiros; temos adultos assassinados em brigas na cidade; temos crianças assassinadas por crueldade; temos mulheres violentadas e assassinadas por brancos.
Este número 257 encerra um grande e secular drama, o drama dos povos indígenas em nosso país, composto por muito sofrimento, vivido por muitos povos e por muitas comunidades indígenas.
Muitas dessas mortes foram parecidas com a de Galdino Jesus dos Santos: numa cidade do Rio Grande do Sul, assassinos, encobertos pela noite, causaram a morte violenta de um idoso indígena; na área rural do Mato Grosso do Sul, na beira de uma estrada, na porteira de um acampamento, um tiro covarde dado à distância, por seguranças de fazenda, atingem um lider indígena, sem nenhuma condição de defesa. Todos esses crimes seguem rigorosamente impunes.
Depois de dez anos, a situação da Terra Indígena Caramuru-Catarina Paraguaçu, pela qual lutava Galdino, encontra-se parada no Supremo Tribunal Federal. Ela é objeto de uma ação de nulidade de título dos fazendeiros que invadiram aquela terra indígena com a conivência do Governo do Estado da Bahia.
Povos Indígenas e Povo da Rua
A morte do índio Galdino enlaça dois dramas: o dos povos indígenas e o do povo da rua. O que possuem em comum esses povos é a sua radical humanidade, sua característica frágil, excluída de toda utilidade para um sistema onde apenas a mercadoria e o “ser mercadoria” contam. Como não cabem no sistema do Capital, este tenta eliminá-los, quer seja pelos “seguranças” urbanos, quer seja pelos “seguranças” e jagunços rurais. Quer seja, também, pelo preconceito, ódio e desprezo, enraizados pelo mesmo sistema em parte da população brasileira e que se manifestam em nosso cotidiano, em múltiplas formas de violência.
O que se coloca como um desafio para todos nós é compreender o que acontece de tão grave em nossa sociedade, para que seres humanos sejam submetidos sistematicamente à violência e à morte com características de barbárie.
Torna-se urgente compreender e mudar o destino de nossa sociedade, rompendo com um sistema econômico e com uma ideologia que sacrificam aqueles que não cabem na lógica do Capital.
Torna-se necessário construir uma outra sociedade, onde povos indígenas e povo da rua, onde todos possamos viver integralmente, livremente, nossa humanidade comum. * Assessor político do CIMI (Conselho Indigenista Missionário)
Comentários - 10
| Página 1 |
|
2 A.B. - 09-04-2007 - 02:02:11h
situação revoltanteNão, não temos que conviver com essa situação revoltante! Pq "temos"?! Somos sãos, capazes de ter uma mínima análise crítica da realidade. Trabalhamos para essa sociedade. Podemos escolher o que fazer ou ao menos como fazer o nosso trabalho ou ao menos em algumas horas dos nossos dias. Cobrar justiça das autoridades é uma parte da luta. Cobrar educação, não escolas, EDUCAÇÃO, educação humanizadora, consistente, é uma outra parte. Produzir educação, transformação, seja lá,qual for a área que se tenha mais habilidade, mais proximidade, é preciso AGIR. Agir o tempo todo, a cada minuto, sem desistir. Dar o exemplo. Inspirar que as pessoas tenham posturas humanas. Anunciar que existem alternativas para quem precisar de uma. Todos nós precisamos. Claro que essa resposta não é pessoal... é, digamos, nacional. Chega de se acomodar, né Brasil? Chega de ficar em casa assistindo o programa do medo, afundado no sofá, resmungando indignações. Todo mundo pode fazer alguma coisa. E o muito que seja, é pouco; então é melhor começar logo.
3 Luiz Cláudio A. Guterrez - 11-04-2007 - 18:44:51h
Caso GaldinoOlá! Amigos! Esse é o retrato de um país denominado "Brasil de brinquedo" ou o "País da Alice" tudo é fantasia! Quase nada é levado a sério! Matam pessoas diariamente! A criminalidade está solta e frouxa, se os criminosos são ricos ou classe média alta, a situação de benefício é concedida com a liberdade, O horror está solto! Cidadãos são discriminados! Pelos índios, o processo é lento ou inexistente! Esses bandidos deveriam estar em regime fechado! Ou melhor, a solução é botar/criar lei rigorosa e enfiar todos os bandidos no regime de trabalho - colônia penal - de sol-a-sol. Isso é que é cumprir pena pelos crimes que cometem. Obrigado!
4 Akanawan Pataxó - 13-04-2007 - 01:10:26h
Justiça CegaÉ triste saber que os bandidos filhos dos homens de colarinho branco estão soltos nas ruas de Brasilia, que país é este? onde as pessoas matam por bricadeira, matar uma pessoa queimando vivo, onde as chamas consumiram Galdino. Os assassinos que foram "presos" hoje estão frequentando lugares publicos como se fossem pessoas públicas, e teve um menor que foi propositadalmente esquecido no processo, pois é filho de uma juiza. Realmente a justiça é cega, atira pra todo lado, mas as "balas" só atigem os mais fracos.
5 Maria Cecilia Rondon Amarante - 14-04-2007 - 20:35:37h
O drama dos Povos Indígenas em nosso BrasilNão é de hoje nem só de há 10 anos atrás que a causa dos Povos Indígenas, sua cultura, sua língua, sua relação com o Transcendente, são realidades totalmente ignoradas pelo Governo (mesmo quando assina alguma demarcaççao de terra indígena) e tratadas com desprezo por grande parte da população. Basta constatar como a maioria das escolas transmite a seus alunos/as o que são os Povos Indígenas, e como "festejam" a Semana do Índio... É preciso que a comunicação alternativa se mova, retifique a hiostória que até agora tem sido contada a partir do colonizador e do branco, apresente o verdadeiro valor dos povos Indígenas e lhes dê a atenççao, o uso de seu direito pleno. Faz alguns anos o que se dizia é que os índios iam desaparecer... o IBGE nos tem apresentado númseros significativos de seu crescimento populacional e, se buscarmos fontes de informação verídica, poderemos saber que crescem também em organização, esperança de um amanhã promissor. Celebremos com este enfoque a Semana dos Povos Indígenas que vai começar agora.
6 Antonio Luis - 18-04-2007 - 12:12:17h
Os julgadores de Galdino e os julgadores das ações das máquinas cassaniquesPrimeiro gostária de parabenizar o texto de paulo pelo o seu relato dos crimes que acontecem no Brasil contra os não detentores de posse. Em segundo, é interessante pensarmos quem são os criadores e os responsáveis pela a aplicação das leis no Brasil. Os "fazedores" são aqueles que detêm uma ggrande quantidade de posses; são os donos agronegócios, dos grandes comprexos indústriais, enfim; do grande capital. Os reponsáveis pelas suas aplicações são seus parentes, seus coreligionários políticos. Visto que são muito poucos os trabalhadores que conseguem chegar a este posto e, muitos quando chegam, abomdanam seus companheiros, já não se sentem mais pertencente aquela classe. Emquanto a scedade não peceber quem são os juízes e a quém eles servem, as injustiças continuaram acontecendo.
7 jemima - 06-05-2007 - 13:38:18h
a queima do indioisso foi brutal e os jovens ainda dizem que nao sabiam que era um indio mesmo se nao fose eram pra ser punidos brutalmente para aprenderem a nao mexer com a vida de um patrimonio de nosso pais
8 Ana Márcia Jacinto - 15-03-2008 - 00:59:41h
A queima do índioÉ uma barbaridade o que acontece nesse país. Mas vamos imaginar a seguinte situação: quatro índios voltam de algum lugar e encontram por acaso um desses rapazes, rico, filho de juiz, estudante de escola particular e por estar em desvantagem, os índios "para fazerem uma brincadeira" resolvem atear fogo no referido rapaz.Aí vai a pergunta: estariam os índios agora gozando os privilégios de estarem soltos, se divertindo em boates ou em suas aldeias, casados, curtindo seus filhos? Todos nós sabemos que não! Seriam punidos severamente e quando saíssem da cadeia, já estariam velhos demais pra algo. ESSE É O RETRATO DURO, CRUEL, MAS INFELIZMENTE VERDADEIRO DE NOSSO PAÍS.
1 Maribel Mendes - 07-04-2007 - 00:51:29h
Assassinato do índio GaldinoA justiça funciona apenas para alguns porque ela é contituída pela elite, por aqueles que tiveram as melhores condições, eles jamais irão sacrificar seus pares. Infelizmente, temos que conviver com essa situação revoltante.