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Jejuo também por democracia real

by jpereira — last modified 2007-12-12 13:53
Contributors: Dom Luiz Flávio Cappio

O governo mente quando diz que vai levar água para 12 milhões de sedentos. É um projeto que pretende usar dinheiro público para favorecer empreiteiras

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12/12/2007


Dom Luiz Flávio Cappio


Acusam-me de inimigo da democracia por estar em jejum e oração combatendo um projeto do governo federal autoritário, falacioso e retrógrado, que é o da transposição de águas do rio São Francisco.


Meu gesto não é imposição voluntarista de um indivíduo. Fosse isso, não teria os apoios numerosos, diversificados e crescentes que tem tido de representantes de amplos setores da sociedade, inclusive do próprio PT.


Vivêssemos uma democracia republicana, real e substantiva, não teria que fazer o que estou fazendo.


Um dos mais graves males da "democracia" no Brasil é achar que o mandato dado pelas urnas confere um poder ilimitado, aval para um total descompromisso com o discurso de campanha, senha para o vale-tudo, para mais poder e muito mais riquezas. Tráficos de influências, desvios do erário, porcentagens em obras públicas e mensalões são práticas tradicionais na política brasileira, infelizmente, pelo visto, ainda longe de acabar. A sociedade está enojada e precisa se levantar.


Há políticos - e, infelizmente, não são poucos - que, por onde passaram na vida pública, deixaram um rastro de desmandos, corrupção, enriquecimento ilícito etc. Como ainda funcionam o clientelismo eleitoral, a mitificação de personagens, as falsas promessas de campanha, o "toma-lá-dá-cá" e mais deseducação que educação política do povo, esses políticos conseguem se reeleger e galgar posições de alto poder em governos, quaisquer que sejam as siglas e as alianças.


Na campanha do candidato Lula, o tema crucial da transposição era evitado o máximo possível. Mas as campanhas eleitorais, à base do marketing e das verbas de "caixa dois" das empresas, são tidas e havidas como grandes manifestações do vigor de nossa democracia, que, com urnas eletrônicas, dá exemplo até aos EUA...


O projeto de transposição não é democrático, porque não democratiza o acesso à água para as pessoas que passam sede na região Semi-Árida, distante ou perto do rio São Francisco.


O governo mente quando diz que vai levar água para 12 milhões de sedentos. É um projeto que pretende usar dinheiro público para favorecer empreiteiras, privatizar e concentrar nas mãos dos poucos de sempre as águas do Nordeste, dos grandes açudes, somadas às do rio São Francisco.


A transposição não tem nada a ver com a seca. Tanto que os canais do eixo norte, por onde correriam 71% dos volumes transpostos, passariam longe dos sertões menos chuvosos e das áreas de mais elevado risco hídrico. E 87% dessas águas seriam para atividades econômicas altamente consumidoras de água, como a fruticultura irrigada, a criação de camarão e a siderurgia, voltadas para a exportação e com seríssimos impactos ambientais e sociais.


Esses números são dos Estudos de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto sobre o Meio Ambiente (EIAs-Rima), públicos por lei, já que, na internet, o governo só colocou peças publicitárias.


O projeto de transposição é ilegal e vem sendo conduzido de forma arbitrária e autoritária: os estudos de impacto são incompletos, o processo de licenciamento ambiental foi viciado, áreas indígenas são afetadas e o Congresso Nacional não foi consultado como prevê a Constituição.


Há 14 ações que comprovam ilegalidades e irregularidades ainda não julgadas pelo Supremo Tribunal Federal. Mas o governo colocou o Exército para as obras iniciais, abusando do papel das Forças Armadas, militarizando a região. A decisão do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, de Brasília, em 10/12 deste ano, obrigando a suspensão das obras, é mais uma evidência disso.


O mais revoltante, porque chega a ser cruel, é que o governo insiste em chantagear a opinião pública, em especial a dos Estados pretensos beneficiários, com promessas de água farta e fácil, escondendo quem são os verdadeiros destinatários, os detalhes do funcionamento, os custos e os mecanismos de cobrança pelos quais os pequenos usos subsidiariam os grandes, como já acontece com a energia elétrica. Os destinos da transposição os EIAs/Rima esclarecem: 70% para irrigação, 26% para uso industrial, 4% para população difusa.


Temos um projeto muito maior. Queremos água para 44 milhões de pessoas no semi-árido. Para nove Estados, não apenas quatro. Para 1.356 municípios, não apenas 397. Tudo pela metade do preço previsto no PAC para a transposição.


O Atlas Nordeste da Agência Nacional de Águas (ANA) e as iniciativas da Articulação do Semi-Árido (ASA) são muito mais abrangentes, têm prioridade no abastecimento humano e utilizam as águas abundantes e suficientes do semi-árido.


Fui chamado de fundamentalista e inimigo da democracia porque provoquei que o povo se levantasse e, disso, os "democratas" que me acusam têm medo. Por que não se assume a verdade sobre o projeto e se discute qual a melhor obra, qual o caminho do verdadeiro desenvolvimento do semi-árido? É nisso que consiste a nossa luta e a verdadeira democracia.

Comentários - 6

Página 1

1 chicobau - 14-12-2007 - 15:36:31h

jejuo

creio que o artigo está bastante claro, caberia uma resposta tambem bem clara do governo...

2 eng agr Paulo de Almeida - 15-12-2007 - 12:18:30h

descaso

Näo gosto de católicos, mas contras as palavras e a acäo do frei, näo vejo nenhum crime além do qual ele pode cometer consigo mesmo. Um projeto de irrigacäo pode näo ser necessariamente ruim; mas o que o que temos o direito de perguntar,e o dever de cobrar, é sobre nossas prioridades e as nossas verdadeiras necessidades. E nisto, dá bem para imaginar, olhando o descaso feito há séculos com a causa pública, da qual um dia também foi vítima o nosso Presidente da República e sua família, que o projeto näo vai resolver o problema da seca ( pelo o que o frei já denunciou), e pela enerme possibilidade de ser mal utilizado favorecendo apenas uma minoria em detrimento dos demais, que necessitam de outro projeto, mais difícil e duro, que é o trabalho de revitalizar e reverter o clima do semi-árido, täo agravado em 500 anos de descaso e destruicäo. Estudei climatologia numa universidade brasileira e näo aprendi nada. Na verdade me revoltei com tanto engano e näo fui buscar o diplioma. Saí do país. E um dia longe, lendo Os Sertöes ( pois eu nunca abandonei minha pátria) fiquei espantadoo de ver com que lucidez Euclides da Cunha tratou do assunto: temos que lê-lo. Aqui fico com meu apoio ao bravo frei Luiz, e espero que o povo brasileiro näo fique parado. Grato. Paulo de Almeida bpalmeida@web.de

3 paulo de almeida - 17-12-2007 - 04:32:35h

tô fora

Retiro o que escrevi acima. Ninguém pode falar "entreguei a vida a Deus" e suicidar-se.

4 Jura - 18-12-2007 - 20:31:17h

Apoio com uma ressalva

Uma exposição clara, fundamentada e convincente. Todo apoio a esta manifestação em Brasil de Fato e à sua forma! Mas, é claro, com a ressalva do caráter messiânico e exotérico que em que, como cilada, o próprio senhor Cappio e o movimento em torno da causa parecem cair.

5 jura - 18-12-2007 - 20:41:00h

o endereço

Ah, a página citada é "Uma vida pela vida", cujo endereço é: .

6 jura - 18-12-2007 - 20:41:51h

agora vai...

www.umavidapelavida.com.br