Obama elege os que fracassaram
Pretender regular uma economia que perdeu o norte dando o comando da operação aos que a desregularam com violência é como apagar um incêndio com gasolina
1º/12/2008
Damien Millet – Éric Toussaint
Alguns
esperavam que Barack Obama, o presidente eleito dos Estados Unidos, nomeasse
uma equipe econômica profundamente renovada para poder pôr em marcha um New
Deal. Obama iria mudar o capitalismo, apesar de não eliminá-lo, e instaurar uma
nova era de regulação da economia.
Mas, na realidade, Obama elegeu os mais conservadores entre os conselheiros democratas, os mesmos que organizaram uma desregulamentação descontrolada durante a presidência de Bill Clinton, no final dos anos 90. Quando nos detemos em três nomes emblemáticos, a coerência de sua eleição é reveladora.
O
primeiro na linha de saída é Robert Rubin, secretário do Tesouro entre 1995 e
1999. Desde que chegou ao Tesouro, teve que enfrentar-se com a crise financeira
do México, primeiro grande fracasso do modelo neoliberal nos anos noventa.
Depois impôs, junto com o FMI, um tratamento de choque que agravou as crises
produzidas no sudeste asiático em 1997-1998, e depois na Rússia e América
Latina em 1999.
R. Rubin não duvidou nunca dos benefícios da liberalização e
contribuiu decididamente para impor à população dos países emergentes políticas
que degradaram suas condições de vida e aumentaram as desigualdades. Nos
Estados Unidos, exerceu sua potente influência para conseguir a revogação da
Glass Steagall Act, o Banking Act, estabelecida desde 1933, e que, em
especial, declarou a incompatibilidade do banco de depósitos com o banco de
investimentos.
Deste modo, a porta ficou aberta para toda sorte de excessos dos financeiros ávidos do máximo benefício, o que possibilitou a crise internacional atual. Para piorar, esta revogação do Banking Act permitiu a fusão de Citicorp com Travelers Group para formar o gigante bancário Citigroup.
Em 2000, Robert Rubin entrou na direção do Citigroup, que o governo estadunidense acaba de salvar com urgência em novembro de 2008, garantindo-lhe mais de 300 bilhões de dólares de ativos. Apesar disto, R. Rubin é um dos principais assessores de Barack Obama.
A segunda
personalidade em cena é Lawrence Summers, herdado do posto de diretor do
Conselho Econômico Nacional da Casa Branca. Sua carreira contém certo
número de manchas que são indeléveis. Em dezembro de 1991, enquanto era
economista chefe do Banco Mundial, Summers ousou escrever o seguinte em uma nota interna:
“Os países com escassa população da África têm uma baixíssima contaminação. A
qualidade do ar é de um nível inutilmente maior que a de Los Angeles ou México.
É necessário induzir o deslocamento das indústrias contaminadoras para os
países menos avançados. Deve existir certo grau de contaminação nos países em
que os salários são mais baixos. Penso que a lógica econômica que disse que os
resíduos tóxicos devem derrubar-se onde os salários são mais baixos é
incontrolável [...] A inquietude [a propósito dos agentes tóxicos] será
evidentemente maior em um país onde as pessoas vivem muitos anos como para
enfermar de câncer, que em um país onde a mortalidade infantil é de 200 em mil
em menores de cinco anos”.
E disse, nesse mesmo ano: “Não há [...] limites à capacidade de um apocalipse devido a um aquecimento global ou a qualquer outra causa é inexistente. A idéia de que o mundo corre para sua perdição é profundamente falsa. Também é um profundo erro pensar que deveríamos impor limites ao crescimento devido aos limites naturais, que além disso é uma idéia cujo custo social seria assombroso se alguma vez se chegasse a aplicar”. Com Summers no comando, o capitalismo produtivista gozará de um esplêndido futuro.
Havendo
sido nomeado secretário do Tesouro durante o governo Clinton, em 1999, Summers
pressionou o presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, para que se
tirasse do cargo Joseph Stiglitz, que o havia sucedido no posto de economista
chefe e que era muito crítico com as orientações neoliberais que Summers e
Rubin colocavam em marcha em todas as partes do mundo de onde explodiam
incêndios financeiros.
Depois da chegada de George W. Bush, Summers continuou
sua carreira, convertendo-se em presidente da universidade de Harvard em 2001,
mas se destacou particularmente em fevereiro de 2005, quando conseguiu
inimizade de toda a comunidade universitária depois de uma discussão na Oficina
Nacional de Investigação Econômica (NBER, em inglês).
Interrogado sobre as razões de haver poucas mulheres nos postos elevados no âmbito científico, afirmou que as mulheres estão menos dotadas que os homens para as ciências, descartando qualquer outra explicação possível como a origem social e familiar, ou uma vontade de discriminação. Isto provocou uma grande polêmica, tanto no interior como no exterior da universidade. Apesar de suas desculpas, os protestos de um maioria de professores e estudantes de Harvard o obrigaram a se demitir em 2006.
Se sua responsabilidade na situação atual ainda não está demonstrada, sua biografia, que se pode consultar no sitio da internet da universidade de Harvard na época de sua presidência, confirma que “têm dirigido esforços da partida da mais importante desregulamentação financeira destes últimos 60 anos”. Não poderia ser mais claro!
A
terceira personalidade elegida por Obama, Timothy Geithner, será nomeado
secretário do Tesouro. Atualmente presidente do Banco Central de Nova York,
havia sido sub-secretário do Tesouro encarregado das Relações Internacionais
entre 1998 e 2001, adjunto secessivamente a Rubin e Summers, e ativo, em
particular, no Brasil, México, Indonésia, Coréia do Sul e Tailândia, todos
símbolos dos desastres do neoliberalismo, que sofreram graves crises durante
esse período.
As medidas promovidas por este trio infernal fizeram recair o custo da crise sobre as populações destes países. Rubin e Summers são os mentores de Geithner. Agora, o aluno se une a seus mestres. Ninguém duvida que continuará defendendo as grandes instituições financeiras privadas, surdo aos direitos humanos fundamentais, ridicularizado nos Estados Unidos e em qualquer lado devido às políticas econômicas que defende com veemência.
Pretender regular de novo uma economia mundial que perdeu o norte dando o comando da operação aos que a desregularam com violência, é como querer apagar um incêndio com gasolina.
Damien Millet é porta-voz do Comitê pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM, www.cadtm.org), da França, autor de África sem dívida, Icaria, Barcelona, 2008.
Eric
Toussaint é presidente do CADTM Bélgica, autor do Banco do Sul e nova crise
internacional, El Viejo Topo, Barcelona, 2008; Abya-Yala, Quito, 2008;
Observatório DESC-Bolívia, La Paz,
2008.
















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