Ricos perderam medos dos pobres
Podemos, portanto, preparar-nos para ver novamente nos noticiários da televisão o triste desfile de multidões de crianças famintas e de adultos esquálidos
Plínio de Arruda Sampaio
A alta dos preços dos alimentos veio para ficar. Conseqüentemente, estamos de novo diante da perspectiva de crises de fome aguda nos países mais pobres. Perspectiva semelhante, em 1975, deu lugar à Conferência Mundial da Alimentação, cujas propostas para evitar a repetição do fenômeno deram em nada.
Desta vez, os países ricos não se viram na necessidade de montar outra farsa como a de 1975. Em três dias, os chefes de 43 Estados reuniram-se em Roma e despacharam o assunto.
Ao pedido de 30 bilhões de dólares para enfrentar o problema, feito pelo diretor geral da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação), a resposta dos chefes de Estado foi assim: toma dez e não se fala mais no assunto.
O episódio é bem indicativo dos tempos que estamos vivendo: "os ricos perderam mesmo o medo dos pobres", escreveu Eric Hobsbawm, em 1989.
Podemos, portanto, preparar-nos para ver novamente nos noticiários da televisão o triste desfile de multidões de crianças famintas e de adultos esquálidos.
Contudo, convém ponderar que o resultado da reunião de Roma, salvo enquanto revelador da conduta dos países mais ricos do mundo diante de uma mortandade anunciada, não altera essencialmente a problemática da fome no mundo.
Se os chefes de governo, em vez de oferecer dez, tivessem oferecido os 30 bilhões solicitados pela FAO, o problema da fome seria temporariamente atenuado, mas não resolvido.
Para resolvê-lo, definitivamente, não basta comprar excedentes da produção dos países ricos e enviar comboios com alimentos para as regiões de fome aguda. Na lógica do capitalismo, isto pode ser até um bom negócio para as multinacionais do "agrobusiness".
Fome resolve-se com reforma agrária; planejamento agrícola; preços administrados; educação e saúde para a população do campo.
Qualquer avanço importante nesse terreno fere imediatamente os poderosos interesses dos grandes proprietários rurais e das multinacionais da agroindústria. Por isso, nenhuma dessas reformas sai do papel.
As classes populares ainda não têm força política para reformar a agricultura capitalista e menos ainda para propor um modelo socialista de desenvolvimento da agricultura.
Quem está, de fato, preocupado em solucionar a questão da fome não pode se iludir com os paliativos propostos nessas reuniões de cúpula e nem imaginar que a humanidade pode se ver livre do fantasma da fome dentro dos marcos do capitalismo. Basta atentar para o fato de que no país capitalista mais rico do mundo, o governo, a fim de garantir renda aos produtores, subsidia os agricultores que deixam de cultivar parte de suas terras. Pois, mesmo com esse enorme potencial de produção alimentar, graves deficiências nutricionais afetam porcentagem significativa de sua população e grandes filas de pessoas com fome formam-se diariamente nos "sopões" da caridade.
Plinio Arruda Sampaio é advogado, ex-deputado constituinte, presidente da Abra (Associação Brasileira de Reforma Agrária) e diretor do jornal Correio da Cidadania.
mas nem é mais petista....
Meu prezado, tu estás enganado. O Plinio nem é mais petista. Eu também sempre fui um admirador dele. Lia tudo que escrevia e acreditava nele. Tive a ilusão que ele era a pessoa coajosa que poderia lutar dentro do PT e representar todos aqueles que acreditam que era possível fazer alguma coisa contra os que destruiram o partido. Ele saiu candidato para as eleições no PT, disputando a presidencia e nem esperou que terminassem a contagem dos votos. Mudou de partido na calada da noite, frustrando todos aqueles que acreditaram nele e reproduzindo as piores práticas da burguesia. Para mim foi uma grande decepção que nunca mais esquecerei. Ficamos indignados, todos os que o apoiaram se sentiram enganados. E o que é pior ainda. Foi para o PSOL, apenas para cair no pior eleitoralismo. Sem nenhuma discussão, só para não perder o prazo eleitoral. Já foi candidato em São Paulo, mas pagou o preço da incoerencia, tendo pouquíssimos votos. Não acredito mais no PT e muito menos no PSOL que só vem juntando gente oportunista e reproduzindo este tipo de prática vira-casaca. Na minha região o PSOL tá juntando as pessoas mais oportunistas, gente que só quer se eleger a qualquer custo. Ficam gerando ilusões nas pessoas apenas para favorecer seus projetos pessoais. Com essa práticas apenas ficam legitimando o sistema e o Estado. Eles não querem solucionática, querem apenas votos. Não enxergam o povo, mas apenas os cabos eleitorais que vão assegurar mais um posto ou cargo público.
Sobre a proposta de Plínio Sampaio
Plínio deixou bem claro qual a solução para o problema da fome no mundo: "Fome resolve-se com reforma agrária; planejamento agrícola; preços administrados; educação e saúde para a população do campo". Também deixou claro que isso não é possível nos marcos do capitalismo, é preciso lutar pelo socialismo. Essas idéias ele sempre defendeu, inclusive quando pertenceu aos quadros do PT. Defendeu essas idéias como deputado, militante, candidato, professor. Parabéns Plínio, por não ter se aburguesado, endireitado ou renegado tudo aquilo que você sempre defendeu.













Fome no Mundo
Sempre respeitei o Plinio de Arruda Sampaio, mas não posso me furtar à provocação. Mas e aí, petista, quais são as propostas de solução? Como esclarecer e mobilizar as maiorias do mundo? Como ligar a população sobre o que acontece realmente? Como esclarecê-las sobre quem causa todo seu sofrimento, sua vida sem sentido além de sobreviver por instinto e teimosia? Como fazê-la perceber sua força enorme, que deveria livrá-la da sujugação por um sistema falsamente democrático, na verdade escravagista e democida? Os fatos citados apenas demonstram o que eu, sem curso superior, sem diploma de nada, já sei há muito tempo. O Estado é refém do mercado, do poder econômico, dos um por cento que controlam todos os setores estratégicos, que ostentam orgulhosamente seus desperdícios, sua opulência, que alimentam em seu íntimo sensações de superioridade em relação à esmagadora maioria, sabotando-a, roubando-a, matando-lhe a alma, conduzindo-lhe os pensamentos, os valores, as motivações, os desejos. A problemática taí, cadê a solucionática?