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Um olhar sobre nossa imprensa

by Admin last modified 2009-09-17 11:22
Contributors: Luís Gonzaga Belluzzo

A maioria da imprensa brasileira não se acomoda - isso é preciso registrar. Não se acomoda na sua militância a favor de privilégios para os mais ricos



16/09/2009


Luís Gonzaga Belluzzo



Eu estava na ante-sala de uma médica, em Salvador. Sábado, dia 29 de agosto. E apenas por essa contingência, dei-me de cara com uma chamada de primeira página - uma manchetinha - da revista Época, já antiga, de março deste ano de 2009: "A moda de pegar rico" - as prisões da dona da Daslu e dos diretores da Camargo Corrêa.
 
Alguém já imaginou uma manchete diferente, e verdadeira como por exemplo, A moda de prender pobres? Ou A moda de prender negros? Não, mas aí não. A revolta é porque se prende rico. Rico, mesmo que cometendo crimes, não deveria ser preso.
 
Lembro isso apenas para acentuar aquilo que poderíamos denominar de espírito de classe da maioria da imprensa brasileira. Ela não se acomoda - isso é preciso registrar. Não se acomoda na sua militância a favor de privilégios para os mais ricos. E não cansa de defender o seu projeto de Brasil sempre a favor dos privilegiados e a favor da volta das políticas neoliberais. Tenho dito com certa insistência que a imprensa brasileira tem partido, tem lado, tem programa para o País.

E, como todos sabem, não é o partido do povo brasileiro. Ela não toma partido a favor de quaisquer projetos que beneficiem as maiorias, as multidões. Seus olhos estão permanentemente voltados para os privilegiados. Não trai o seu espírito de classe.

Isso vem a propósito do esforço sobre-humano que a parcela dominante de nossa mídia vem fazendo recentemente para criar escândalos políticos. E essa pretensão, esse esforço não vem ao acaso. Não decorre de fatos jornalísticos que o justifiquem.

Descobriram Sarney agora. Deu trabalho, uma trabalheira danada. A mídia brasileira não o conhecia após umas cinco décadas de presença dele na vida política do país. Só passou a conhecê-lo agora, quando se fazia necessário conturbar a vida do presidente da República. O ódio da parcela dominante de nossa mídia por Lula é impressionante. Já que não era possível atacá-lo de frente, já que a popularidade e credibilidade dele são uma couraça, faça-se uma manobra de flanco de modo a atingi-lo. Assim, quem sabe, terminemos com a aliança do PMDB com o PT.
 
Não, não se queira inocência na mídia brasileira. Ninguém pode aceitar que a mídia brasileira descobriu Sarney agora. Já o conhecia de sobra, de cor e salteado. Não houve furo jornalístico, grandes descobertas, nada disso. Tratava-se de cumprir uma tarefa política. Não se diga, porque impossível de provar, ter havido alguma articulação entre a oposição e parte da mídia para essa empreitada. Talvez a mídia tenha simplesmente cumprido o seu tradicional papel golpista.
 
Houvesse a pretensão de melhorar o Senado, de coibir a confusão entre o público e o privado que ali ocorre, então as coisas não deviam se dirigir apenas ao político maranhense, mas à maior parte da instituição. Só de raspão chegou-se a outros senadores. Nisso, e me limito a apenas isso, o senador Sarney tem razão: foi atacado agora porque é aliado de Lula. Com isso, não se apagam os eventuais erros ou problemas de Sarney. Explica-se, no entanto, a natureza da empreitada da mídia.
 
A mídia podia se debruçar com mais cuidado sobre a biografia dos acusadores. Se fizesse isso, se houvesse interesse nisso, seguramente encontraria coisas do arco da velha. Mas, nada disso. Não há fatos para a mídia. Há escolhas, há propósitos claros, tomadas de posição. Que ninguém se iluda quanto a isso.
 
Do Sarney a Lina Vieira. Impressionante como a mídia não se respeita. E como pretende pautar uma oposição sem rumo. É inacreditável que possamos nós estarmos envolvidos num autêntico disse-me-disse quase novelesco, o país voltado para saber se houve ou não houve uma ida ao Palácio do Planalto. Não estamos diante de qualquer escândalo. Afinal, até a senhora Lina Vieira disse que, no seu hipotético encontro com Dilma, não houve qualquer pressão para arquivar qualquer processo da família Sarney - e esta seria a manchete correta do dia seguinte à ida dela ao Senado. Mas não foi, naturalmente.
 
Querem, e apenas isso, tachar a ministra Dilma de mentirosa. Este é objetivo. Sabem que não a pegam em qualquer deslize. Sabem da integridade da ministra. É preciso colocar algum defeito nela. Não importa que tenham falsificado currículos policiais dela, vergonhosamente. Tudo isso é aceitável pela mídia. Os fins, para ela, justificam os meios.
 
Será que a mídia vai atrás da notícia de que Alexandre Firmino de Melo Filho é marido de Lina? Será? Eu nem acredito. E será, ainda, que ele foi mesmo ministro interino de Integração Nacional de Fernando Henrique Cardoso, entre agosto de 1999 e julho de 2000? Era ele que cochichava aos ouvidos dela quando do depoimento no Senado? Se tudo isso for verdade, não fica tudo muito claro sobre o porquê de toda a movimentação política de dona Lina? Sei não, debaixo desse angu tem carne…
 
Mas, há, ainda, a CPI da Petrobras que, como se imaginava, está quase morrendo de inanição. Os tucanos não se conformam, E nem a mídia. Como é que a empresa tornou-se uma das gigantes do petróleo no mundo, especialmente agora sob o governo Lula e sob a direção de um baiano, o economista José Sérgio Gabrielli de Azevedo? Nós, os tucanos, pensam eles, fizemos das tripas coração para privatizá-la e torná-la mais eficiente, e os petistas mostram eficiência e ainda por cima descobrem o pré-sal. É demais para os tucanos e para a mídia, que contracenou alegremente com a farra das privatizações do tucanato.
 
Acompanho o ditado popular “jabuti não sobe em árvore”. A CPI da Petrobras não surge apenas como elemento voltado para conturbar o processo das eleições. Inegavelmente isso conta. Mas o principal são os interesses profundos em torno do pré-sal. Foi isso ser anunciado com mais clareza e especialmente anunciada a pretensão do governo de construir um novo marco regulatório para gerir essa gigantesca reserva de petróleo, e veio então a idéia da CPI, entusiasticamente abraçada pela nossa mídia. Não importa que não houvesse qualquer fato determinado. Importava era colocá-la em marcha.

Curioso observar que a crise gestada pela mídia com a tríade Sarney-Lina-Petrobras, surge precisamente no mesmo período daquela que explodiu em 2005. Eleições e mídia, tudo a ver. Por tudo isso é que digo que a mídia constitui-se num partido. Nos últimos anos, ela tem se comportado como a pauteira da oposição, que decididamente anda perdida. A mídia sempre alerta a oposição, dá palavras-de-ordem, tenta corrigir rumos.
 
De raspão, passo por Marina Silva. Ela sempre foi duramente atacada pela mídia enquanto estava no governo Lula. Sempre considerada um entrave ao desenvolvimento, ao progresso quando defendia e conseguia levar adiante suas políticas de desenvolvimento sustentável. De repente, os colunistas mais conservadores, as revistas mais reacionárias, passam a endeusá-la pelo simples fato de que ela saiu do PT. É a mídia e sua intervenção política. Marina, no entanto, para deixar claro, não tem nada com isso. Creio em suas intenções de intervenção política séria, fora do PT. Neste, teve uma excelente escola, que ela não nega.
 
Por tudo isso, considero essencial a realização da I Conferência Nacional de Comunicação. Por tudo isso, tenho defendido com insistência a necessidade de uma nova Lei de Imprensa. Por tudo isso, em defesa da sociedade, tenho defendido que volte a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Por tudo isso, tenho dito que a democratização profunda da sociedade brasileira depende da democratização da mídia, de sua regulamentação, de seu controle social. Ela não pode continuar como um cavalo desembestado, sem qualquer compromisso com os fatos, sem qualquer compromisso com os interesses das maiorias no Brasil.

Luís Gonzaga Belluzzo é economista da UNICAMP

Comentários - 8

Página 1

1 Bayardo Leme Brizolla Filho - 16-09-2009 - 23:00:38h

Um olhar sobre nossa imprensa
A liberdade de expressão no mundo capitalista é muito mais relativa e ilusória do que é apregoado pela imprensa e por suas associações de classe, que se colocam muitas vezes, como perseguidas e extirpadas de suas atribuições (concordamos que são em determinadas situações), por afirmarem como verdade determinados fatos ou acontecimentos, mas estas “verdades”, nem sempre são compostas de fatos verdadeiramente reais, ou mesmo são expostos com isenção de caráter, mas são colocações falseadas por interesses de grupos que as financiam, pois também os meios de comunicação no mundo capitalista vivem de patrocínios, propagandas e de interesses políticos pré-determinados pelos grupos econômicos e sociais que estão no poder, os quais se impõem pela própria força de seu poder econômica, e pela própria fragilidade e necessidade de sobrevivência dos grupos de notícias, ditando as tendências e as verdades a serem expostas pelos meios de comunicação, assim sendo, determinam como e o que deve ser colocado na mídia jornalística, e que tipo de informação deve ser levada a público, conforme os interesses destes grupos econômicos, que em sua totalidade, financiam estes meios de comunicação. Não podemos separar este mecanismo, que é ligado ao próprio sistema de produção capitalista, onde o capital financia as empresas (que podem ser de produção de bens, de serviço, ou mesmo de comunicação), que vendem seus produtos, conforme lhes é conveniente, sendo que os produtos que são vendidos e relacionados à mídia jornalística em geral, nada mais são do que as notícias veiculadas em jornais, rádios e televisões, bem como os tendenciosos comentários e verdades idealizadas por seus editores, em conformidade aos interesses de quem os financiam e dos grupos econômicos que os patrocinam, pois sem o dinheiro destes grupos econômicos, não haveria condições de sobrevivência dos meios de comunicação no ambiente capitalista, vitimando assim a verdade a ser exposta para a população, como o preceito maior do jornalismo, em favor de interesses muitas vezes escusos, dos que financiam sua sobrevivência, alienando as pessoas, conduzindo-as a falsas verdades, a realidades invertidas e pensamentos que se opõem as suas próprias necessidades de vida. Então podemos concluir que a imprensa numa sociedade capitalista, jamais vai poder ser politicamente isenta, pois ela sobrevive da ideologia, preceitos e dos interesses de alguns poucos grupos econômicos, e não tem, por se tratar de um sistema capitalista, isenção sobre assuntos que divirjam dos interesses destes grupos, e assim sendo, torna-se intrinsecamente um instrumento de manipulação das populações no mundo moderno, e a maior arma contra qualquer pensamento contrário aos conceitos, regras e interesses estabelecidos pela classe econômica dominante, tornando-se hoje em dia na mais forte e eficaz arma contra os que são contrários aos interesses desta classe, sendo uma arma muito mais eficaz do que qualquer exército.

Bayardo Leme Brizolla Filho- escrito em 20.03.2009

2 José Dantas Bitencourt - 17-09-2009 - 16:59:10h

Um Olhar Sôbre a Nossa Imprensa

Que bom Dr. Belluzzo que hoje temos a internet. Que bom que nesse país ainda existam pessoas como o Senhor, Paulo Henrique Amorim, Azenha e outros jornalistas que não se renderam aos poderes dessa imprensa. Obrigado por nos presentear com essa reportagem magnífica. Vou distribuí-la para todos os meus contatos na internet

3 eliana piva - 18-09-2009 - 21:48:13h

artigo do belluzzo
Caro Belluzzo,que claro e verdadeiro o seu artigo!
Poucas pessoas tem o seu raciocinio e portanto continuam a acreditar que a imprensa aja como uma arma de defesa dos interesses da maioria da populacao.
Ela nao atende aos interesses desta maioria por uma vida melhor,reclamando por melhores niveis de escolas,atendimentos na area da saude,habitacao,cobranca de orgaos publicos,acompanhamento das acoes dos politicos,etc....Eles agem como se no pais houvesse uma guerra de classes.E nao tratam os assuntos nacionais com o peso e a importancia que certamente merecem.Ha'um diferenca muito grande entre a nossa imprensa e a americana e europeia que apesar de nao serem perfeitas,ao menos defendem com a mesma veemencia os direitos de todas as classes,sem diferencas.

4 Antonio Ozaí da Silva - 19-09-2009 - 10:14:38h

Sobre artigo
Caro Prof. Luis,

meus sinceros parabéns pelo seu artigo.

Atenciosamente,

____________________
Antonio Ozaí da Silva
blog http://antonio-ozai.blogspot.com

5 Lúcia Ribeiro - 20-09-2009 - 01:59:38h

Jornalismo
Muito bom o artigo, mas vejo a obrigatoriedade do diploma de jornalismo de forma contrária. Nos privaria de opiniões de economistas, sociólogos, antropólogos, etc? Em um país com a concentração de grandes mídias os futuros jornalistas não seriam "fabricados" para serem reconhecidos através delas? Tudo bem que uma instituição de comunicação seja dirigida por jornalistas, mas, em nome da liberdade de expressão, motivo de tantas lutas diante dos governos militares, temos o direito de nos informar e formar nossos conceitos com as opiniões de vários segmentos de atuação. É notável verificarmos certos movimentos de deputados e senadores com a intenção de censura, não apenas na informação impressa, mas notadamente na via virtual. Exigir o diploma de jornalismo para o ofício da informação é o mesmo que exigir de cada empresa a obrigatoriedade de um administrador formado. Quantos pequenos, micro e até grandes empresários prescindem da figura do administrador de empresas? São empreendedores natos.

6 Roberto Moreno - 21-09-2009 - 11:24:41h

Procura-se JORNALISTA, com coragem!
Um olhar sobre nossa imprensa, Luso-brasileira! -
Procura-se 1(um) jornalista, com coragem, para entrar em contacto com a direção do hotel Sheraton dos EUA. - O assunto refere-se ao litigio que há, desde 2004, entre o Hotel Sheraton de Lisboa X Fundação Geolingua, pelo fato da Fundação defender e se expressar na língua portuguesa, entre 1998 a 2004, no interior do referido hotel. A ex-diretora geral, Jennifer Buhr, defendia o inglês, como obrigatório e oficial e perseguia Roberto Moreno, presidente da Geolíngua, por este se expressar em português. - Os advogados do Sheraton Lisboa, a “mando” da mesma, inventou uma pretensa concorrência desleal entre as letras G e S, alegando no Tribunal do Comércio de Lisboa, que a letra G se confundia com a letra S, pelo fato de ambas estarem envoltas em uma coroa de louros, o qual o Sheraton se julga dono. - As manobras e mentiras e de má fé, dos advogados, estão a colocar em risco a imagem da prestigiada cadeia de hotéis 5 estrelas. Este Caso, está a tomar proporções calamitosas e de CRIME CONTRA A HUMANIDADE, pois, as dezenas de “advogados e jornalistas” luso-brasileiros, que sabem detalhadamente deste tema, “fogem” ou “não”, desde 2004, e nada publicam! – A começar pela Agência Lusa. – Para saber mais sobre este tema, é só digitar no Google: (geolingua+sheraton) e (Jusformulários penal+Jennifer Buhr)

7 Akhenathon - 23-09-2009 - 11:29:01h

PMDB e PT, tudo a ver
Luís Gonzaga Beluzzo, quercista, ex-assessor do Ministério da Fazenda do governo Sarney, atual petista convertido. Porque o professor Beluzzo não vai vai fazer seu discurso sobre liberdade de imprensa no Maranhão? Por lá suas idéias sobre controle da mídia são postas diariamente em prática. Sem comentários...

8 Fernando Weiss - 23-09-2009 - 11:57:34h

Um olhar sobre nossa imprensa
Só não entendo porque o professor Belluzzo não demonstra o mesmo ímpeto ideológico quando comparece a programas de debate político e econômico nas grandes emissoras que sustentam o golpismo, como a Globo News, em que ele sempre é convidado.
O mesmo vale para o Paulo Henrique Amorim, citado em um comentário. Ele que é funcionário da empresa "Que a menor doação seja de 1.000 reais, em nome do senhor Jesus", adora fazer denúncias em tom infantil e brincalhão, em seu site, mas na televisão se limita a dublar aventuras do Richard.
É uma pena!