A gangorra de Bruzundangas
A violência contra menores não é nenhuma novidade na Europa ou em Bruzundangas – e reconhecê-lo talvez seja a maior lição que o episódio nos presta
26/05/2008
Luiz Ricardo Leitão
O dileto jornalista José Arbex consignou, com o sarcasmo que lhe é peculiar, durante um singelo Ato Comemorativo do aniversário deste tinhoso Brasil de Fato realizado em Curitiba (aliás, parabéns, meu caro editor, pelos 5 anos de resistência e valentia!), o comportamento cínico da mídia espetacular, que, ao longo do mês de abril, ignorou certos “fatos inexpressivos” da conjuntura nacional e internacional, deslocando quase todas as suas câmeras e holofotes para a cobertura do badalado caso “Isabella”. Tanto o anúncio do tamanho do rombo nas contas do Tio Sam, cujo déficit tem causado enorme apreensão a vários caciques e pajés do invisível deus mercado, quanto as manifestações de um Comandante militar que, vendo chifres – e não colares – na cabeça de nossos indígenas, afrontou a Lei assinada por Lulinha Paz & Amor e se tornou o porta-voz mais estrelado dos agronegociantes do arroz que ocupam acintosamente as terras demarcadas pelo governo, nada disso mereceu, da maioria absoluta dos briosos meios de comunicação da República, a atenção e reflexão a que sua enorme gravidade faria jus.
A construção dessa novela midiática “trágica e doentia”, segundo a oportuna expressão do antropólogo Roberto Albergaria (UFBA), não é um privilégio dos órgãos nacionais. Alimentar de forma mórbida uma história trágica e dolorida, transformando-a em melodrama (enquanto a própria telenovela, curiosamente, trata de conferir “veracidade” às tramóias dramatúrgicas, ditando pautas de vida para o público), já fora a opção dos escandalosos tablóides ingleses ao ‘noticiar’ o caso da menina Madeleine, desaparecida em um hotel de Portugal. E o cinismo da imprensa britânica torna-se ainda mais insolente quando as veias abertas de Eduardo Galeano, em seu último livro Espejos, nos recordam tristemente que até o ano de 1986 foi legal o castigo das crianças, nas escolas da Inglaterra, com correias, varas e porretes...
A violência contra menores, aliás, não é nenhuma novidade na Europa ou em Bruzundangas – e reconhecê-lo talvez seja a maior lição que o episódio nos presta, já que, afinal de contas, como soem dizer os cubanos, “no hay mal que por bien no venga”. O viés classista, porém, só tem olhos para as estampas angelicais da classe média. Valorizar a infância é uma invenção do mundo burguês do século XVIII, frisou Albergaria. A criança se tornou o menino-rei, o núcleo simbólico da família nuclear burguesa. Nas classes aristocráticas, ou nas pobres, havia unidades familiares com vários filhos: a perda de um ente era a perda de um único ser, sem a comoção própria do lar burguês, para quem o filho é o futuro daquela unidade familiar. Esquecidos, os netos de Macunaíma continuam a sangrar invisíveis nos grotões da pátria, como aquela menina goiana de 12 anos, torturada por sua patroa, uma empresária de Goiânia, que a acorrentava à parede, martelava-lhe as solas dos pés, beliscava sua língua com alicate e besuntava-lhe olhos, nariz e boca com pimenta.
Mas isso ainda diz pouco de um tema tão complexo. Embora a mídia não descuide das conotações sociais e étnicas do episódio, suspeito que ela esteja manipulando com maior maestria um dado histórico do imaginário nacional – essa estranha mescla de solidariedade e perversão que, como escreveu Darcy Ribeiro em O povo brasileiro, se entranhou nos filhos de uma sociedade escravocrata que, de um lado, criaram a fantasia libertária do carnaval e, por outro, naturalizaram no espetáculo do pelourinho a impiedosa repressão aos trabalhadores. Se assim for, compreende-se um pouco mais a “gangorra” infantil do brasileiro entre o tudo e o nada – “o deslumbramento e o pessimismo que rege a avaliação do país”, cujo índice mais eloqüente, escreve José Wisnik em seu livro Veneno Remédio – o futebol e o Brasil, é a relação ciclotímica da torcida com a sua seleção. Como não deseja mudar o país, a mídia estimula essa síndrome, contraface simbólica da absurda desigualdade que nos aflige – cuja abolição, diga-se desde já, é a exigência material básica para que Bruzundangas venha finalmente a sepultar o terrível e secular país da casa-grande & senzala.
Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Literatura Latino-americana pela Universidade de La Habana, é autor de Lima Barreto: o rebelde imprescindível (Editora Expressão Popular).













Ajuste nos títulos
Venho, modestamente, sugerir a troca dos títulos de "caciques e pajés do deus mercado"- cuja alusão lembra os índios, maiores vítimas do deus mercado - por "patrões, presidentes, executivos, chefetes, sacerdotes e demais beneficiários e bajuladores, serviçais da falsa crença no deus mercado". Desculpe o atrevimento, professor, mas me senti meio incomodado pela ironia utilizar valores das vítimas, ridicularizados freqüentemente pela "cultura civilizada".