Uma janela para olhar a luz
Tamara Roselló Reina
29/03/2007
Cuba dá boas manchetes constantemente. O cotidiano pode ser excepcional do ponto de vista dos outros. Contar o caminhar dos dias neste arquipélago do Caribe não é uma tarefa fácil. Os cubanos têm uma maneira de comunicar a realidade que às vezes não admite a pretendida objetividade jornalística. Não se vive para uma narração de jornais, ainda que das peculiaridades da Ilha tenham surgido boas crônicas.
Um amigo brasileiro me pediu para que contasse como está o país. Procura com freqüência diferentes matérias na imprensa para se informar, para não ficar com apenas uma versão. Na verdade, não confia muito no que dizem os grandes meios de comunicação. Eu prometi a ele notícias frescas da Cuba em que vivo. Oxalá que aquilo que o interesse seja o mesmo ao que penso em lhe escrever. Esta será uma visão a mais, porém "de dentro".
Tomara que o que tenha menos ouvido falar sejam dos lares. As casas cubanas têm dinâmicas muito peculiares e ao mesmo tempo universais. Se unem nelas gerações diferentes, dos netos aos avós. Custa trabalho despreendrer-se desses laços, porque em muitos casos a situação de vida não o permite, porém, sobretudo porque a mesma idiossincrasia do cubano reforça essas alianças.
A convivência é complicada em qualquer lugar, os enfrentamentos de gerações são inevitáveis e, ao mesmo tempo, necessários. A família é a célula fundamental da sociedade, suas ligações são palpáveis, por isso, a harmonia do lar é uma das preocupações não só de seus membros, como também dos vizinhos, dos amigos, da escola e o professor, do médico mais próximo...
As crianças aprendem que o avô da habitação ao lado também merece seu carinho e respeito, que é melhor escutar seus conselhos que desobedecê-los, que algum dia todos seremos tão anciãos como ele e que é bom tratá-los da maneira que queremos ser tratados no futuro. O sentido de pertencimento ao bairro inspira relações tão familiares entre os vizinhos que alguns se tornam parte do próprio lar.
Em uma rua é comum encontrar reuniões informais das pessoas que voltam de seus trabalhos. Se cumprimentam sem temores e e assim demonstra o sorriso afável, o choque entre as mãos. Se avisam dos últimos produtos que chegaram ao mercado mais próximo e as ofertas mais econômicas. Comentam as informações mais importantes do dia, tiram suas dúvidas, recomendam a leitura de um jornal e até o empresta.
De novembro a junho é temporada de “pelota” (beisebol). As equipes de cada província se enfrentam na Série Nacional que deixará um novo campeão e reafirmará a qualidade dos que mais dão o que falar nas esquinas e nos parques. É uma tradição que se mantém por todo o país. Os aficcionados seguem acompanham seus jogadores preferidos, anotam o resultado de suas atuações e prevêem como serão os próximos enfrentamentos.
Pela noite, se transmite uma dessas partidas, quase no mesmo horário que as novelas. Nas segundas, quartas e sextas, chega "una telenovela" brasileira; nas terças e quintas e sábados, transmitem uma outra cubana. Às 20h30 é um horário de conciliação na maioria das casas onde os gostos se dividem. Uns preferem a novela; outros o esporte nacional. E nessa seleção não há diferença de gênero, porque ambas cativam a mulheres e homens, indistintamente.
As negociações vão permitir ver a programação "dramática", primeiro e depois, a partida de beisebol, e enquanto não chega o turno esportivo, escutar a narração pelo rádio feita pelos comentaristas esportivos. Nos lares onde há dois televisores, se divide a audiência segundo seus interesses. Há quem prefira desfrutar o espaço favorito junto a algum amigo, sentados na sala de um ou de outro, para poder comentarem juntos o que vêem.
Na manhã seguinte, quando começa um novo dia, é possível que nas ruas as pessoas retomem suas experiências televisivas da noite anterior, ou contém algum detalhe de sua vida, ou peçam um conselho a um companheiro de trabalho ou à vizinha da casa da frente. Na escola, os professores também notarão quais são os programas que mais desfrutam seus alunos e inclusive estarão a par da conduta deles, e se percebem um sinal de possível disfunções, esperarão o entardecer, quando os pais retornem a casa para tocar a campainha e perguntar sobre a criança.
Se, pelo contrário, o professor não se interessa o suficiente e o estudante não avança como querem seus familiares, certamente comentarão – enquanto realizam os deveres domésticos tradicionais – sobre a qualidade do ensino e anunciarão, o pai e a mãe, uma visita à escola ou uma intervenção mais crítica na próxima reunião de pais para solucionar o problema.
Fora de Cuba, os amigos e os não "tão carinhosos" estão muito interessados nas notícias sobre o que se passa por aqui, mas não lhe interessam estes detalhes domésticos, cotidianos. Preferem especular sobre o futuro do país sem o governo de Fidel.
Aos cubanos isso não é alheio. Como os estrangeiros se mantêm também muito a par de qualquer reaparição ou referência do Comandante en Chefe, Fidel. Desde que em agosto passado anunciaram sua repentina doença, cada vez que suas mensagens voltam à mídia, não há informação que gere mais expectativas ou comentários. Com o passar dos dias as pessoas seguem perguntando: Como ele se vestia? O que achou do que disse/fez Fidel?"
Todos sabem que o presidente não está em suas plenas funções, mas suas responsabilidades não diminuíram até sua recuperação. O país vive em seu ritmo e no espaço mais íntimo, o da família, o ímpeto do povo continua empurrando o Sol de cada manhã porque sobram razões para ajudá-lo a brilhar, apesar das sombras













Uma janela para olhar a luz
Tamara:
É bom ler a sua matéria. No meio das sisudas políticas, economias, idealismo, coisa e tal, esquecemos muitas vezes que os homens e mulheres vivem, divertem, amam. Você poderia escrever mais sobre o cotidiano em Cuba. Uma vez lí - escrito em algum lugar, não lembro onde, ou mesmo se foi alguém que me contou - sobre um fato muito ineressante. Esse escritor ou relator conversava com um pescador chileno quando foi interrompido, e este lhe perguntou: E aí, amigo, com é o céu no Brasil? Às vezes me pego pensando: Afinal como é o nosso céu? Minha cara Tamara, fala, por favor, fala mais sobre Cuba, sobre a vida dos cubanos. Talvez eu descubra como é o céu que sonho para Brasil. Até, Zeca