Da tristeza dessa cana não temos sequer lonjura
Ah! O caminhão. O caminhão que não era uma idéia, não era uma abstração. Era um caminhão determinado. Era uma condução. Uma história social que ia e vinha todos os dias pela BR-381. Só domingo deixava quieto. Mas na segunda lá estava ele indo e vindo
11/03/2009
Augusto Juncal
Luzia despertou com medo agulhado na coluna. Dor fina de motivo não adivinhado. Quis livrar-se do medo. Em vão. Era égua desembestada que de nada adiantava a força do braço no cabresto. Um pesar de gravidade tanta, que teve que rolar até a borda da cama, jogar primeiro pernas para fora, puxando coberta que resistia sobre ela, apoiando flanco sobre magro braço, forçando cama, para alçar tronco e levantar. Não levantou ainda. Sentou-se. Ligeiramente curvada, cabeça despencada para a frente, queixo projetando-se sobre o tórax: um contorno no escuro que ainda havia no quarto.
Lá fora madrugada envelhecia lutando para conservar o breu de suas horas escuras. O pesar da sua gravidade foi um sonho que teve. Seus pés tatearam chão em busca das havaianas. Respirou, reuniu forças, levantou. Coxeando, coxeando foi fazer café. Luzia, Luzia, com essa perna coxa que te amaria? Pegou capanga nova que tinha costurado para Isaías. Colocou dentro marmita: batata, macarrão, carne, arroz. Feijão. Fechou bem a capanga. No quarto, Isaías de um só pulo deixou a cama, jogando pernas dentro das calças, enfiando-se dentro da camisa que tava dentro de outra camisa, mangote. Caçou boné pendurado na parede, colocou na cabeça cobrindo pescoço, ombros. Afivelou velcro. Catou caneleira no canto do quarto arriada sobre botina, já tomando das mãos da noite escura do quarto bainha, facão e podão. Podão de amolar facão: 18, 20,18,20, para não perder tempo, 18, 20, 18, 20, menos não pode não, menos que isso é fome.
Na cozinha o cheiro do café fresco abria brecha na pobreza da casa, precária de construção e de outras precariedades. Cheiro bom. Quase um prazer. Luiza deu-lhe uma caneca generosa. Ele colocou-se sob a soleira. Não bebeu ainda. Observou o chumbo do dia amanhecendo. 18, 20, 18, 20 toneladas por dia. Soprou e bebeu.
Eram assim as manhãs madrugadas: silenciosas. Sem bom dia, sem beijo, nenhum afeto. Mas sempre, por aqui e acolá, um olhar de carinho, que meio existia, meio não existia. Mas que no fundo só parecia não existir. Parecia mais de cuidado que de carinho. Isaías e Luzia não se amavam: cuidavam-se. Que na verdade, dá no mesmo. E sobre isso não vale a pena filosofar.
"A luva!" Isaías voltou ao quarto para pegá-la largando a caneca sobre a mesa.
Caneca sobre mesa: luz da cor amarela do plástico da caneca ressaltando das quatro tábuas enegrecidas e carcomidas.
Um galo cantou longe seu canto de café com borra, mais perto outro galo sem criatividade respondeu com o mesmo canto do dia anterior. Não havia um cada dia da semana nos cantos desses galos, mas uma longa e estendida, como se só ela houvesse, segunda feira.
“Zaias! Sonhei com meu vestido de casamento”. Disse sem levantar a cabeça, ao perceber que ele voltou. E calou.
Isaías pegou mais café. Pensou em comer um pão. Tinha dois num prato sobre a prateleira.
Pães sobre prato sobre prateleira: luz bege dos pães ressaltando da luz laranja do plástico do prato ressaltando da tábua enegrecida e carcomida.
"Cê sabe, Zaías que toda vez que eu sonho com meu vestido de casamento é morte”.
O dia amanhecia menos de cinza mais de branco. E o silencio de antes já não pode mais voltar. Vozes passavam pela frente da casa. Outros Isaías pulados da cama de um só e mesmo pulo, já iam a passo fiche em direção ao caminhão que esperava por eles. Todos já com seus bonés que cobriam seus pescoços e ombros.
Ah! O caminhão. O caminhão que não era uma idéia, não era uma abstração. Era um caminhão determinado. Era uma condução. Uma história social que ia e vinha todos os dias pela BR-381. Só domingo deixava quieto. Mas na segunda lá estava ele indo e vindo. Na terça terça indo e voltando. Para naquela quarta só ir. Era o caminhão que levava sem descanso Tonho e Tonha. Sebá e Carmo. Azarias, Juarez e Maurino. Levava Isaías também. E levava os 14 anos de Juliano. Pouco vividos. Ralados no crespo das paredes de barro da casa onde vivia. E naquela quarta-feira só de ida, num horário cedo, na manha de sempre, o caminhão esperava por Juliano. Esperava pelos seus 14 anos. E por Isaías, Maurinho, Juarez, Azarias, Carmo, Sebá, Tonha, Tonho e mais outros. Outras cinturas, outros facões, outros podões. E num dos podões ia junto um braço armado, imóvel de câimbras. O braço de Tião. O mais antigo daquele caminhão. O mais gasto podão. O mais cego facão. Duas vezes picado por escorpião.
Luiza acompanhou Isaías até o portão que era uma lasca de pau esticando três fios de arame farpado. Ela não ia mais pro canavial. Teve apnéia grave. Seu coração fraquejou. Luzia, Luzia, com esse coração fraco quem te amaria?
Na sua antiguidade e posto, Isaías vinha depois de Tião, bravamente enganando a morte, com 18 safras mantendo seu lugar na carroceria daquele caminhão.
O caminhão era um dodge branco, velho e cansado. Trinta e três anos de cidade, depois jogado nas estradas de terra dos canaviais. Desgastado pelo tempo, cheio de mossas e ferrugens e numa lerdeza de dar dó, punha-se todos os dias às 5 da manhã a carregar Isaías. E Tonho e Tonha. Sebá e Carmo. Azarias, Juarez, Maurinho. E os 14 anos de Juliano. Que iam chegando aos poucos. Uns em silêncio, outros em conversas de fraseado curto e espaçado.
-Oop!
-Bom dia!
-...
-...
-Frio hoje
-Frio.
-...
-...
Na madruga uma palavra a mais é grito. Convém apenas a cadencia dos passos, o balanceio dos quadris, o chac-chac do caminhar apressado. Só esses sons. Nada mais.
Daí é chegar no caminhão e pular para cima da carroceria. O Dodge já conhecia cada pulo. Cada força de pé imprimida sobre seu lastro. Pisar de ponta-dos-pés: é Tonha. Pressão ligeira e ágil? Juliano. Embora se esgotasse no canavial, ainda sim era jovem e tinha agilidade. Uma pisar firme, duas pisadas apenas: subiu Maurinho. Pisando espaçadamente, dando tempo entre um pé e outro, era Tião. Carmo subiu com muita dificuldade, ameaçando cair de volta. Os homens chegaram para dar-lhe muitas mãos. E assim ele ia reconhecendo a chegada de cada um pelas manhãs. Ia acordando aos poucos com os saculejos das subidas. Isaías foi o último que subiu. Ajeitou sua garrafa térmica na lateral da carroceria, sentou-se nela. Alguém perguntou de Francisco. Não vem. Caiu. Desequilibrou-se na descida do caminhão. Todo o peso do corpo em cima da mão do podão. Fratura exposta grave. “Quando tem que acontecer, os pés levam o corpo para sepultura”, foi dito. Ninguém ouviu. Nem mesmo quem falou. Uma sobra de voz, não muito explícita, como a verdade costuma ser.
O dia já ia mais de branco que de chumbo. E o alaranjado do sol se extendendo. Agora a palavra a mais podia ser dita. As conversas aos poucos tomando vulto. Normalmente. Todos os dias eram assim. Menos naquele dia. Não se falaria de futebol, nem de novela. Muito menos de família. Por respeito à dor de Juliano, manteve-se o silencio. Pouca coisa se falou. Juliano tinha uma dor. E todos, naquela carroceria com suas garrafas térmicas entre as pernas ou sentados nelas, sem saber como, mas de alguma forma sabendo, sabiam que também era uma dor deles todos.
O Dodge cansado da sua labuta diária deixou-se arrancar forçadamente. Deixando que a velocidade da inércia o fosse colocando lentamente na rodovia. Aquela rodovia conhecida cada milimetro. Aquela cobra imensa e negra que serpenteava, serpenteava, serpenteava.
Luzia voltou pra dentro de casa. Justino chorava no meio da sala. Só de camisa e lateral da testa na borda da tábua da mesa. Não conseguia abrir os olhos: “Mija na mão da mãe, mija.” Justino mijou. Luzia esfregou suave o mijo nos olhos dele. Logo Justino foi abrindo os olhos e parando de chorar. Luzia deu pão com manteiga, copo de café sem leite. Justino foi pro banco. Sem choro, tranqüilo. Luzia olhou para as imagens de Santo Antônio e São Sebastião. Rezou para um e outro. Pediu uma coisa a cada um, pra não sobrecarregar nenhum deles. A proteção de Justino ficou a cargo de São Sebastião. A de Isaías a cargo de Antônio. Rezou e ajeitou as flores de plástico feitas de garrafa de cândida. Seu artesanato. Depois virou totalmente o rosto para conseguir ver a imagem de São Jerônimo. Luzia tinha perdido a visão do olho direito numa folha de cana. Desde então via o mundo partido ao meio. Luzia, Luzia, com teu olho cego, quem te amaria?
Quando queria rezar pedindo para ela, era com Jerônimo que se pegava. E quase nunca pedia para si:
"Meu são jeromo, vós que estais escrevendo aí no seu livro, com sua pena, as penas dos homens, peço-te, meu São Jeromo, que me dê força e saúde para cuidar do meu fio e do meu marido. Que é só isso que eu vos peço, ó meu santinho amado. Ajuda-me a domar o leão dessa vida dura de se levar."
Com seu farol esquerdo cego, seus pneus carecas, o caminhão já havia vencido meia estrada, mas ainda faltava um tanto para chegar no trevo que dava para a BR-381. Os cortadores e cortadoras que ia levando calculavam em suas mentes: 18, 20, 18, 20, 18, 20. Com que naturalidade calculavam 20 toneladas de cana cortada. E natural era, por que natural vinha sido sendo. O natural do sempre foi e do sempre será. Porque assim foram Tonho,Tonha, Sebá, Carmo, Azarias, Juarez, Maurino, Isaías, e os 14 anos de Juliano, naturalizados. Como uma crença sem nascimento nem morte. Destino daqueles homens e mulheres. Tudo assim, anotado no livrinho de São Jerônimo. Luzia, Luiza, com tua reza tardia, quem te amaria?
Ia ser um dia quente. Com os dias todos quentes e infindáveis do corte da cana. Pensamentos eram pensados de viés, chacoalhados constantemente pelo treme-treme do caminhão:
“Num hei de morrer na faca cega debaixo do pé, sem um dia ter o meu pedaço de terra”.
“Ói pra esse caminhão! Eles acha que pode levar nóis de qualquer jeito”.
“Vou escrever um livro sobre a história da minha vida”.
“Meu avô não se livrou dessa, nem meu pai, minha mãe. Mas hei de ter força pra desviar os caminho de meus fio prum outro rumo”.
"Diga... que tudo não passou de um sonho... que o amor que te proponho é pouco pra te oferecer"
“Se eu morrer como Luzia vai se virar com o Justino?”
"Êta vida dura. Sofrimento quando há trabalho, miséria quando não há"
“Como que eu posso comprar um sapato pra trabaiá se nem o remédio do menino eu comprei ainda? O jeito é trabaiá descarço. E o escorpião?”
“Preciso miorá muito. Onte nem sequer cortei 1 tonelada. Deu 150 reais só. Mas já dá pra comprar o material das aula. Êta professora bonita que eu tenho. Mais bonita que a que dá aula de dia”.
“Vô dar uma de doido, jogar o facão fora e fazer carreira”.
Luzia cozinhava alguma coisa na beira do fogão quando um beija-flor entrou pela janela deu uma volta em volta dela e saiu pela porta dos fundos.. Foi um beija flor rápido e silencioso. Luzia gritou: “Justino, meu filho”. E correu pro quintal. Justino brincava tranqüilo cavando o chão, enterrando alguma coisa. Rápido como o beija flor, seu pensamento mudou de direção: “Zaías”, gritou. Lembrando do sonho, do despertar pesado, do pressentimento incômodo. Pegou Justino do chão, escanchou ele na cintura, encabeçou pra cidade.
Deu voltas como louca ao redor da praça. Queria saber de uma notícia que ninguém tinha. Volte pra casa muié, não aconteceu nada”. Disseram-lhe. Sem saber o que fazer ao meio dia no meio da praça no meio da cidade, Luzia voltou pra casa. Remoía, remoía: “Alguma coisa muito ruim, conteceu com meu Zaías”.
Isaías naquele momento pensava em Luzia enquanto via o imenso céu azul deslocando-se de leste à oeste em volta dele e corpos se amontoando. Isaías, Isaías, que céu é esse? "É a morte! É a morte" , intuía.
O dodginho branco,com todas as sua cicatrizes no capô e laterais, teve um sobressalto. De repente ele percebeu que a inércia da velocidade crescia. Ele ia numa banguela que fazia toda sua estrutura tremer. Assustou-se. Esperou que o motorista lhe puxasse o freio. Mas isso não acontecia. A velocidade continuou aumentando, e em seguida o impacto. Sentiu seu flanco bater em alguma coisa, depois não sentiu mais nada. No meio da pista, com suas entranhas expostas, o dodginho glp 0550 era um óbito.
E num trevo, num lugar de nome Bom Sucesso, vindos de um lugar de nome Santo Antônio do Amparo, Tonho, Tonha, Sebá, Carmo, Azarias, Juarez, Maurino, Isaías, os 14 anos de Juliano encontraram a morte. O Dodge perdeu o freio, bateu numa vala, passou pro outro lado da pista, tombou. Dir-se-ia Eldorado dos Carajás. Pensar-se-ia Felisburgo. Lembrar-se ia Santa Elmira. Corpos espalhados na estrada, pendido de podões. Pela vala um caminho de garrafas térmicas, mochilas, pedaços de madeira que se soltaram do lastro.
Com desespero escorrendo pelos cabelos, Luzia pela segunda vez, com Justino escanchado, encabeçava para a cidade, tendo que parar para recolocar a tira da havaiana que ia a todo instante se soltando. Tira que ela re-enfiava pelo buraco da sola, com uma mão só, que a outra trazia Justino, que ia tomando solavanco e estava sério, pois era um movimento que desconhecia e que assustava. Mas Justino já tinha a cepa forte dos filhos da terra.
Na praça, alguma casa acolheu mãe e filho.
“Quem te contou da tragédia, Luzia?”
“Um vento. Um vento ruim me contou”.
O Vento ruim que levou a notícia para Luzia foi o advogado da fazenda, que chegou trazendo-lhe um dinheiro para o custeio do funeral. “Você sabe senhora, que nós não desamparamos nossas viúvas”.
Durante o funeral, que Luzia não assistiu, alguém ameaçou o advogado.
“Ora, ora, todos eram contratados como safristas. Temos uma ficha com o nome de todos nosso pessoal. Menino de 14 anos? Desconheço essa informação”.
Quando os caixões foram entrando de um em um na cidade, numa fila fúnebre, Luzia em volta da praça, era a talha do desespero. Vendo o caixão que trazia Isaías, não teve outro jeito senão enlouquecer. E louca, desandou estrada afora, com Justino escanchado. Coxeando, coxeando. Luzia, Luzia, com essa perna coxa quem te amaria? “Zaías! Zaías!”. Ela gritava e corria, corria e gritava estrada afora contando estórias malucas. A uns contava que Isaías entrou tanto no canavial, mas tanto, tanto de tanto, que atingindo o olho do canavial, não conseguiu achar o caminho de volta. Contava:
“Lá no olho do canavial é tudo verde sem fim. Inté o céu é verde sem estrelas pra guiar. Não tem mais como sair de lá”. E gritava mais alto: “Zaías, veste a roupa ao avesso que você acha o caminho de volta”.
A outros contava que foi uma Cana Caiana!
"A pior que tem! Uma Cana Infernal! De dentes ácidos! De olhos arregalados! Feia como a fome! A Cana da desgraça!"
E gritava mais alto: “Comeu o meu Zaías”.
Lá pra tanto correr ela, de repente parou. Alargou o olho que enxergava. Luzia, luzia, com teu olho cego quem te amaria? "Zaías, Zaías". Olhou direita, olhou esquerda. Um murmúrio. Seus olhos farejaram. Abraçou Justino com muita proteção. Eram gemidos. De onde? Olhou esquerda, olhou direita. Olhou em frente. Deu com o canavial. Vinham de lá os gemidos. Vinham também barulhos de cana sendo esmaga. Vinham outra vez os gemidos. Agora vinha um borbulhar de caldo cozido em tachos. Podões decepando canas. E agora gemidos em profusão. Gemidos, gemidos, gemidos. Lancinantes gemidos.
“Quanta dor esse mundo tem, meu Deus”, pensou.
No meio desse mundo, desamparada, ouviu uma voz suave. Uma voz conhecida.
“Luzia, minha fia, vem comigo. Vem. Vem tomar um café quentinho. Traz o menino pra dentro de casa que a noite tá fria. Vem Luzia, vem minha fia. Vem tomar um café pra esquentar teu coração”.
Era um fio de voz que quase não saia, anestesiada de dor. A mãe de Juliano e de Telma, que de sua casa viu Luzia parada, com Justino escanchado, olhando sem vacilo pro vulto compacto do canavial, abriu espaço no seu pesar para escorar Luzia em sua aflição. Quando a notícia do acidente lhe chegou, estava sentada em sua poltrona e lá permaneceu. Suas pernas não tiveram forças o suficiente para ir ao enterro do filho.
Luzia ouviu aquela ordem profunda de amor de mãe e a seguiu para dentro de casa. Aqueceu-se em volta do fogão a lenha. Bebeu café.
“Tá igual o café que eu fazia pro Zaías e ele gostava muito”, falou.
“Então bebe mais um pouco, minha fia. Bebe. E descanse. Depois tu deita ali naquela cama. E dorme, fia, dorme, que o dia seguinte é o melhor remédio pras dor da noite”.
Luiza não respondeu. Ficou ali olhando o fogo. Começou:
“Foi a Cana Caiana que tirou Zaías de mim. Diz que a danada andou mundo. Veio de lá de onde o sol nunca nasce nem morre, porque tá sempre no céu. Veio dar aqui escondida num porão de navio e parou lá pelas banda de São Paulo. E começou a vim na direção daqui. Veio as cana pequena tomando os quintal, depois as casa. E por fim veio a Cana caiana levando os home e deixando umas muié viúva de marido vivo, otras viúva de marido morto. Agora diz que ela tá indo pra lá”, falou apontando pro oeste.
Como se tivesse ouvido um clarim de guerra, Luzia pôs-se em estado total de alerta.. Esticou pescoço, tencionou ombros, arregalou olhos, dobrou levemente os joelhos, reforçou seu braço em volta de Justino, agarrou um tição de brasa ardente, e correu porta afora para dentro do canavial.
No meio da cana ela era um tornado, riscando o ar com o tição que esbraseava, esbraseava.
Logo, o crepitar da palha queimando foi se espalhando em volta de Luzia e Justino. O fogo nada o contém se o vento em seu auxílio vem. Espalhou-se em todo um talhão de cana. Cana madura, alta, Luzia, é muito instável. O resto foi trabalho de vento. Um foco de fogo aqui, outro ali. Um terceiro mais adiante. E logo um calor de inferno atalhou mãe e filho.
Quem passava por ali naquele instante viu a fumaça negra que subia. Fez-se dia na noite do canavial.
O dia seguinte amanheceu. Galo cantou, galo respondeu. Instalou-se outra vez a rotina dos trabalhadores de Santo Antônio do Amparo. A BR 328 ainda estava lá, serpenteando aqueles quilômetros que levam para dentro do canavial a necessidade. Santo Antônio do Amparo. Uma vastidão imensa e triste de roças de cana. Um desatino! Um desamparo!
Augusto Juncal é integrante da Gaviões da Fiel e militante do MST.
Comentários - 4
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2 Luiz (Icem/SP) - 21-06-2009 - 18:43:38h
ContextoESCREVE E DESCREVE EXTERIORIZANDO SENTIMENTO FACTUAL.
3 R. Costa - 21-07-2009 - 22:47:48h
Literatura de Primeira4 poeta do caculé - 11-10-2009 - 11:23:44h
tá faltando escritores com essa cabeçaObs: A propaganda da havaiana não muda em nada a qualidade do texto
Parabens, vale muiiito.
1 Mary (uec) - 10-05-2009 - 20:56:18h
voce é dez