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No caminho da vida

by jpereira last modified 2007-04-01 20:01

Jorge Pereira Filho

Jorge Pereira Filho

01/04/2007


O sol daquela segunda-feira, 29 de janeiro, ainda não havia surgido, mas Joana descobriu que seria um dia único quando veio o primeiro sinal. O coração disparou, aquela dor, mistura de ansiedade, desejo e temor... A falta de ar incomodava, mas era o fim de uma espera de nove meses para aquela garota de apenas 19 anos.


João? Marcos? Fábio? Pedro foi o nome escolhido. O pai desapareceu, como tantos outros. A mãe seguiu em frente e, naquela madrugada, chamou a avó de 84 anos, com quem dividia uma pequena casa e as angústias na Baixada Fluminense. A primeira idéia foi ligar para uma ambulância. Números digitados, uma espera em vão. O tempo passa, a falta de ar aumenta, ninguém aparece. A avó junta as economias e segue em um táxi até a Maternidade de Xerém.


Vamos chegar a tempo? Vai doer muito? Como será o seu rostinho? E eram mais de 6 da manhã quando chegaram. Tão logo receberam a notícia: “estamos sem anestesista”. O susto não as paralisou e foram ao Hospital de Duque de Caxias. Aguardaram, aguardaram... também em vão. Conseguiram uma carona até a Maternidade Pró-Matre e, lá chegando, rogaram por atendimento. Foram recebidas, mas o “diagnóstico”: voltem pra casa, ainda não é a hora.


A avó implorou. Não tinha dinheiro nem pra voltar pra casa, sabia que estava perdendo sua neta, seu bisneto. Um homem se solidarizou e pagou um táxi até o Hospital do Andaraí. A peregrinação não havia chegado ao fim. E então o médico descobriu que Joana estava em trabalho de parto. O doutor gritava, pedindo para ela agüentar. Joana lutou e conseguiu atendimento no Andaraí. Mas, depois, desmaiou.


Seu filho, Pedro, nasceu, mas não teve a oportunidade de ver o dia. Nasceu morto. Joana o acompanhou, depois de 22 horas de teimosia em não aceitar o destino que o descaso e a omissão queriam lhe impor. Mas, enfim, morreu.


O caminhar itinerante pela vida dessa negra, pobre, nas ruas de nossa miséria moral não constará dos livros de história. Assim como não constará a peregrinação de Érica, garota que morreu cinco meses antes após procurar atendimento em três hospitais para dar a vida a seu filho. Mas Joana, Érica e tantas outras são a essência deste Brasil.


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-> Um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) denunciou, ainda em 2004, que um terço das adolescentes em trabalho de parto não conseguiram atendimento na primeira maternidade que procuraram;


-> O mesmo estudo mostra que 30% das negras tiveram que peregrinar para dar a luz; já para as brancas, a taxa é de 18%;


-> em 2007, os recursos retirados da Saúde pelo governo federal responderam por um terço do total bloqueado para pagamento dos juros da dívida (superávit primário);

lamentável

Posted by Elizete at 2007-07-16 07:01

É lamentavél a situação da saúde pública no país onde jovens, mulheres, crianças emfim o povo após pagar tantos impostos ainda pagam com sua vidas e as de seus filhos a conta da corrupção. Isso tem que acabar.

Crônica

Posted by Justino Cosme at 2007-07-19 00:19

Jorge Filho soube muito bem fazer com que a gente se indiguine pela situaçao, não aceitando a "espontaneidade" desses acontecimentos, embora essa situação já se tornou comum devido a precariedade da saude pública. Infelizmente, poucas pessoas conseguem enxergar tal fato. Talvez as poucas notáveis ou iluminadas para sentir a dor do outro(a). Parabenz camarada, Filho.

tristeza

Posted by juliana sena at 2007-08-05 04:18

Graças à DEUS que sei que por enquanto se eu estivesse em trabalho de parto seria atentida com maior eficácia e conforto.Mas diante de tantos fatos miseráveis que mulheres,não somente brasileiras se tornam vítmas de um governo e autoridades sem escrúpulos onde o lucro será sempre o melhor resultado da minoria elitista /aristocrática /burguesa,onde os valores reais de humanidade,unidade,família,respeito,tolerância dificilmente parte desse grupo excluidor que a massa sente desde que éramos seres primitivos lutando pela preservação da espécie,o egoísmo ficou arraigado,enraizado nas pessoas e só quem sente de verdade,intrínsico mesmo são todas as mulheres do mundo,independente da classe social.Mulher:geradodoras e vítimas de um patriarcalismo secular...é muito triste,somente a mobilização e a correta educação familiar,individual,escolar,social para que tantas mulheres possam se libertar.Não mais queimando sutiãs nas ruas ou tornando-se em alcolátras,ou até a questões de oportunidades de trabalho ,que sairia do meu protesto silencioso de tristeza,pois Joana, Maria ,Fulana poderia ser minha irmã ou melhor amiga.

Jorges

Posted by Vânia Alves at 2008-04-15 18:21

Bom seria se tivéssemos mais Jorges para lembrar que nossas tristes estatísticas são feitas de histórias de Joanas, Ericas e Pedros.


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