No caminho da vida
Jorge Pereira Filho
O sol daquela segunda-feira, 29 de janeiro, ainda não havia surgido, mas Joana descobriu que seria um dia único quando veio o primeiro sinal. O coração disparou, aquela dor, mistura de ansiedade, desejo e temor... A falta de ar incomodava, mas era o fim de uma espera de nove meses para aquela garota de apenas 19 anos.
João? Marcos? Fábio? Pedro foi o nome escolhido. O pai desapareceu, como tantos outros. A mãe seguiu em frente e, naquela madrugada, chamou a avó de 84 anos, com quem dividia uma pequena casa e as angústias na Baixada Fluminense. A primeira idéia foi ligar para uma ambulância. Números digitados, uma espera em vão. O tempo passa, a falta de ar aumenta, ninguém aparece. A avó junta as economias e segue em um táxi até a Maternidade de Xerém.
Vamos chegar a tempo? Vai doer muito? Como será o seu rostinho? E eram mais de 6 da manhã quando chegaram. Tão logo receberam a notícia: “estamos sem anestesista”. O susto não as paralisou e foram ao Hospital de Duque de Caxias. Aguardaram, aguardaram... também em vão. Conseguiram uma carona até a Maternidade Pró-Matre e, lá chegando, rogaram por atendimento. Foram recebidas, mas o “diagnóstico”: voltem pra casa, ainda não é a hora.
A avó implorou. Não tinha dinheiro nem pra voltar pra casa, sabia que estava perdendo sua neta, seu bisneto. Um homem se solidarizou e pagou um táxi até o Hospital do Andaraí. A peregrinação não havia chegado ao fim. E então o médico descobriu que Joana estava em trabalho de parto. O doutor gritava, pedindo para ela agüentar. Joana lutou e conseguiu atendimento no Andaraí. Mas, depois, desmaiou.
Seu filho, Pedro, nasceu, mas não teve a oportunidade de ver o dia. Nasceu morto. Joana o acompanhou, depois de 22 horas de teimosia em não aceitar o destino que o descaso e a omissão queriam lhe impor. Mas, enfim, morreu.
O caminhar itinerante pela vida dessa negra, pobre, nas ruas de nossa miséria moral não constará dos livros de história. Assim como não constará a peregrinação de Érica, garota que morreu cinco meses antes após procurar atendimento em três hospitais para dar a vida a seu filho. Mas Joana, Érica e tantas outras são a essência deste Brasil.
------------------------------------------------------------------------------
-> Um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) denunciou, ainda em 2004, que um terço das adolescentes em trabalho de parto não conseguiram atendimento na primeira maternidade que procuraram;
-> O mesmo estudo mostra que 30% das negras tiveram que peregrinar para dar a luz; já para as brancas, a taxa é de 18%;
-> em 2007, os recursos retirados da Saúde pelo governo federal responderam por um terço do total bloqueado para pagamento dos juros da dívida (superávit primário);
Crônica
Jorge Filho soube muito bem fazer com que a gente se indiguine pela situaçao, não aceitando a "espontaneidade" desses acontecimentos, embora essa situação já se tornou comum devido a precariedade da saude pública. Infelizmente, poucas pessoas conseguem enxergar tal fato. Talvez as poucas notáveis ou iluminadas para sentir a dor do outro(a). Parabenz camarada, Filho.
tristeza
Graças à DEUS que sei que por enquanto se eu estivesse em trabalho de parto seria atentida com maior eficácia e conforto.Mas diante de tantos fatos miseráveis que mulheres,não somente brasileiras se tornam vítmas de um governo e autoridades sem escrúpulos onde o lucro será sempre o melhor resultado da minoria elitista /aristocrática /burguesa,onde os valores reais de humanidade,unidade,família,respeito,tolerância dificilmente parte desse grupo excluidor que a massa sente desde que éramos seres primitivos lutando pela preservação da espécie,o egoísmo ficou arraigado,enraizado nas pessoas e só quem sente de verdade,intrínsico mesmo são todas as mulheres do mundo,independente da classe social.Mulher:geradodoras e vítimas de um patriarcalismo secular...é muito triste,somente a mobilização e a correta educação familiar,individual,escolar,social para que tantas mulheres possam se libertar.Não mais queimando sutiãs nas ruas ou tornando-se em alcolátras,ou até a questões de oportunidades de trabalho ,que sairia do meu protesto silencioso de tristeza,pois Joana, Maria ,Fulana poderia ser minha irmã ou melhor amiga.
Jorges
Bom seria se tivéssemos mais Jorges para lembrar que nossas tristes estatísticas são feitas de histórias de Joanas, Ericas e Pedros.













lamentável
É lamentavél a situação da saúde pública no país onde jovens, mulheres, crianças emfim o povo após pagar tantos impostos ainda pagam com sua vidas e as de seus filhos a conta da corrupção. Isso tem que acabar.