Nós que moramos no esquecimento da lembrança não temos tristeza
Uma casa desamparada de frente pro canavial. Com seu isolamento. E agora com sua desgraça, com seu pesar, com sua ruína, com sua morte. A morte de Telma
09/04/2009
Augusto Juncal
Quando chegaram com o corpo de Telma estendido nos braços de uma pequena multidão, seu pai engoliu um vácuo seco que desceu rasgando sua garganta e sua mãe soltou um gemido lancinante, pio de coruja que agoniza. Telma vinha numa paixão de cristo com seu sangue ressumando de sua saia. Pálida. Mortalmente pálida. Todo seu sangue na saia. E pingado pelo caminho que vinha desde dentro do canavial até a porta da casa.
A casa. Uma casa desvalida, de tudo escassa. Árida. Uma penúria só. Uma casa desamparada de frente pro canavial. Com seu isolamento. E agora com sua desgraça, com seu pesar, com sua ruína, com sua morte. A morte de Telma.
Uma casa de taipa, com suas gengivas de sarrafos em alguns pontos expostas. Lugar onde o barro não ficou tão lisinho, tão agarradinho. E se foi com a primeira chuva. Uma casa de tudo escassa, mas que tinha uma poltrona. A beleza que a casa apresentava fora Telma quem criara: malvas perfumadas circundando-a em latinhas de extrato de tomate. Da mesma latinha que eram feitos os copos. Para cada um da família, Telma diversificara um copo. De extrato, de salsicha, de ervilha, de milho. Eram oito irmãos e irmãs, todos para o mesmo quarto, mas para cada qual o seu copo. E isso era uma riqueza. Nessa tapera faminta, o luto fez pouso.
Apesar da dor, apesar do desamparo, apesar da uma única poltrona, fez-se um velório para Telma. A madeira de seu caixão foi coberta com algum papel crepom azul claro, que alguém trouxe, e com decoração de estrelas e corações recortados de papel alumínio. E as malvas retiradas das latinhas de extrato.
Era um velório pouco de gente pouca. Mais de irmãos e irmãs que de gente. De gente eram cinco. Os das casas mais próximas e das famílias mais perto. Uma delas, uma senhora muito gorda, lembrou de pôr um pano preto na janela.
Ocupava mais a sala o choro de sua mãe, que se esvaía pela porta e janela, espraiando-se pelo canavial, como um choro primordial, de uma dor antepassada, deixando a cana mais verde, mais viçosa. Adubo, alguém haveria de pensar.
Gemido de mãe é pergunta que não se responde: "Fia, fia, o que aconteceu? De onde vem todo esse sangue? Que maldade te fizeram? Quem te rasgou dessa maneira bárbara? Que horror você encontrou dentro desse canaviá?".
Ninguém sabia. Encontraram Telma flácida no canavial. Seu sexo abria sulcos de sangue na terra esgotada da cana.
Em silêncio de pedra e cal, seu pai enchia uns copos de lata de aguardente. Em outros ia café. O pouco café que tinha. Que de cadeira, só a poltrona. E esta era para para a senhora muito gorda.
A mãe de Telma não arredava pé, nem sentava, nem comia, grudada ao caixão da filha: "Fia, fia, de onde vem todo esse horror? Quem te rasgou essa maldade? Quem te barbarizou dentro do canaviá?". O terço da velha mãe era infinito e tinha sempre as mesmas contas de perguntas. Ave-marias repetidas, padre-nossos desgastados. Até de reza pode um ser muito pobre, que para a pobreza parece não haver limite.
A senhora muito gorda da poltrona tirou para Telma uma ladainha que a aproximasse de Deus. Os prantos de Nossa Senhora das Dores somavam-se aos prantos da mãe.
Seu pai aproximou-se de Telma morta. Olhou bem o rosto da filha, seus olhos sem luz que não se fecharam. Suas pernas fraquejaram. Apoiou-se no caixão, quase caindo e levando o caixão junto. Uma das cinco gente, um senhor, segurou, dando-lhe apoio. A senhora muito gorda, levantou-se muito solícita, e generosa ofereceu a poltrona para que o pai sentasse. Sentado, com as mãos trêmulas cobrindo os olhos, chorou: "Quisera lembrar alguma coisa. Quarquer coisa. Uma palavra. Um hora que fosse. Mas não consigo me lembrar de nada. Esse canaviá todo. Essa vida. Nóis tudo. É um esquecimento só". Lá fora, emparedando a casa, o canavial era uma miragem. Uma vertigem.
A monotonia e a tristeza da casa se elastecia. Um rapaz, chegando do corte da cana, postou-se na janela, com os braços cruzados sobre o pano preto, e ficou um tempo em silêncio olhando. E sem querer ser mensageiro de nada, mas sendo, esticou o braço, estendendo até o pai na cadeira, uma embalagem de sitotec: "Achei perto do lugar donde acharam o corpo dela".
A mãe teve uma conta a mais de pergunta no seu terço: "Fia, fia, quem te engravidou? Que maldade você se fez? Não precisava. A gente ia cuidar do seu filho. Nem eu nem seu pai haverá de te desamparar".
Se Telma pudesse dizer, se Telma pudesse contar: "Ah mãe! Ah pai! São muitos os perigo desse canviá".
A notícia do engravidamento de Telma se espalhou com o vento. Todos tentavam pensar quem tinha sido o malfeitor. Mas Telma nunca fora vista com nenhum rapaz. Nunca tinha tido namorado. Poderia até ser virgem.
Logo, uma história começou a correr de terreiro em terreiro: a pobre Telma, cortando suas toneladas de cana, foi, sem se dar conta, adentrando cada vez mais dentro do canavial. Chegando até olho, onde habita a Cana Caiana que a todo ser vivente devora. Ali a Cana Caiana teria engravidado a Telma à força.
Outros rumores falaram da Cana Caiana transmutada em homem bonito, vestindo paletó brando e chapéu panamá, saindo de dentro do canavial e seduzindo Telma, bem ali no terreiro de casa.
Com a verdade vinda pela metade na embalagem do sitotec, pai, mãe, irmãos, irmãs e cinco gente enterram Telma. E dia seguinte, com metade da verdade, todos, com exceção de Juliano, guardaram luto por Telma. Juliano retornou pro canavial.
Augusto Juncal é do Coletivo de Projetos Internacionais do MST.