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O Festival de Cinismo que assola o país

by jpereira last modified 2007-03-29 17:02

Luiz Ricardo Leitão

Luiz Ricardo Leitão

15/03/2007 

Se, em homenagem ao saudoso e genial Stanislaw Ponte Preta, pensássemos em promover um novo Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País), decerto não haveria espaço para tantos concorrentes. Embora, para desgosto de todos eles, a cobiçada honraria não venha a render-lhes nenhum faturamento extra, as autoridades de Pindorama têm se empenhado bastante em busca do badalado título. Ainda há pouco, na Vila Belmiro, o Santos recebia o São Paulo, no famoso clássico Sansão, e um torcedor local, sabe-se lá por que (des)carga d’água, resolveu arremessar um vaso sanitário (!) contra a torcida adversária, fato absolutamente insólito, que as câmeras de tv mostraram para todo o Brasil. Pois o mais absurdo estava por vir... Consultado sobre o “incidente”, o comando da PM na cidade declarou que não era possível identificar o alucinado torcedor, mas decidiu adotar uma medida sui generis: recomendou à direção do clube que retirasse todas as privadas do estádio. Pelo visto, quem estiver com dor de barriga deverá esperar o jogo de volta no Morumbi...

Essa e outras histórias tão corriqueiras em plagas tupiniquins, dignas de um Febeapá 2007, soam até ingênuas ou folclóricas diante do Festival de Cinismo que a era neoliberal patrocina, desde a década de 90, nesta pátria-mãe gentil. A desfaçatez das elites e dos seus valorosos alcaides já ultrapassou todos os limites possíveis. Agora mesmo, no Rio, às vésperas do Pan 2007, vemos e ouvimos coisas de que até Deus duvida. Enquanto a Saúde e a Educação da província seguem no fundo do poço (dados oficiais acabam de atestar a falência da rede de ensino médio, desmantelada pela criminosa inação de sucessivos governos estaduais), Lulinha Paz & Amor veio ao Maracanã bater pênaltis contra (ou a favor de?) Sérgio Cabral e liberar, em clima apoteótico, mais R$ 100 milhões para a conclusão das obras do evento. Estas, obviamente, segundo reza a tradição de Bruzundanga, estão bastante atrasadas e, por isso, reclamam, com urgência e alarido, mais verbas do exaurido Tesouro Público. Embora o próprio TCU já tenha ligado o sinal vermelho e denunciado que o orçamento final dos Jogos superou em mais de oito vezes a soma originalmente prevista, Dom Inácio ignorou o alerta do Tribunal e abriu os cofres da União para as empreiteiras de plantão, cujos operários, aliás, entraram em greve para obter assistência médica e 15% de reajuste salarial.

É um torneio acirrado, não resta dúvida. O alcaide virtual da cidade, o Sr. César Maia, que vive a redigir um diário eletrônico na Internet, é outro forte candidato ao título. Há poucos dias, com o cinismo patológico que caracteriza os insanos mentais, declarou à imprensa local que a Vila Panamericana, destinada a abrigar os atletas do Pan, dificilmente estará pronta no dia 13 de julho, data de abertura dos Jogos. Face à escassez (?) de recursos, itens como a estação de tratamento de esgoto não serão concluídos a tempo, disse o bufão aos microfones. O mais curioso é que os apartamentos da Vila já foram postos à venda pelas imobiliárias, sem que ninguém se pergunte por que esse dinheiro não veio a ser investido na execução do projeto... Tamanha ladroeira, em outras paragens, causaria até prisão perpétua para os larápios. Contudo, como vivemos em uma sólida democracia neoliberal, repasse-se a conta à população e empurre-se o resto com a barriga, pois o show não pode parar. O Festival, porém, não ficaria completo sem a presença da Rede Globo, essa campeã de audiência e hipocrisia. Fátima e Bonner só faltam chorar, consternados com a “onda de violência” que nos submerge, e clamam pela redução da maioridade penal e mais educação para a plebe. Muito instrutiva a Vênus platinada! Preocupa-se tanto com as massas, que toda noite ela presenteia o público com o terrível BBB, a generosa porção de estupidez, alienação e consumismo que nos cabe neste latifúndio de desinformação que a ditadura legou ao clã Marinho. John Lennon, de fato, tinha razão: quanto mais reais nos tornamos, mais irreais ficam as coisas...


Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Literatura Latino-americana pela Universidade de La Habana, é autor de Lima Barreto: o rebelde imprescindível (Editora Expressão Popular).


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